terça-feira, 11 de setembro de 2012

O Uruguai e a Chatuba - Ou a pequena diferença entre José Pepe Mujica e Juninho Cagão

Foram enterrados hoje os corpos dos seis rapazes mortos na chacina de Parque de Gericinó, em Mesquita (Baixada Fluminense), ocorrida no final de semana. Christian Vieira, 19 anos; Victor Hugo Costa, Douglas Ribeiro e Glauber Siqueira, 17; e Josias Searles e Patrick Machado, 16 anos, não tinham envolvimento com o tráfico e foram mortos quando iam para uma cachoeira vizinha ao Campo de Gericinó, área do Exército que teoricamente deveria assustar criminosos. 
Os rapazes não foram só mortos. Sofreram muito antes dos tiros. Foram espancados, torturados e seviciados. Seus corpos foram desovados em lençóis, nus e amordaçados. 
Mas o que os condenou à morte? 
Eu respondo: o fato de morarem na Favela Ás de Ouro, vizinha e rival da Favela da Chatuba. 
Uma pessoa que mora na região explicou o problema com uma clareza inacreditável: 
"Sou cria (nasci e cresci) na Chatuba onde meu pai e muitos familiares ainda moram. Vamos aos fatos:A Chatuba, há mais de um ano, está em guerra com traficantes da Favela Ás de Ouro, onde os jovens moravam.Eles iam para a cachoeira e tem que passar pela área da mata onde fica a Chatuba. Eles estavam ouvindo proibidão com músicas da Favela Ás de Ouro, que é da facção A.D. A. (Amigos dos Amigos). A Chatuba é CV (Comando Vermelho). Os caras da Chatuba já estavam cheios de ódio porque os caras do Ás davam tiros do outro lado do rio quando eles colocavam baile. Aí já viu né?!"
É esse o motivo para tamanha bestialidade. E que pode incluir aí o pastor Alexandre Lima, um aspirante a PM e José Aldecir da Silva, que acompanhava o pastor e desapareceu.
Por conta disso, o senhor Remilton Moura da Silva Júnior, o popular Juninho Cagão, dono da Chatuba, condenou todo mundo à morte. E passando por cima do poderio do Exército Brasileiro. Quem manda ali é ele. 
Claro, será caçado e morto (ou preso), para satisfazer a nossa sede de Justiça. Tal como os rapazes mortos, vai virar estatística. Só.
Fatos como estes costumam ser encarados apenas com a frieza dos crimes. Mas escondem outros fatos mais perversos. Por trás disso tudo mora o verdadeiro problema: o consumo de drogas. Por favor, sem inocência: o tráfico não é a raiz do problema. É a consequência perversa dele. Só há tráfico e toda a sua estrutura porque alguém quer, precisa e paga pelas drogas. Se não pagasse ou não quisesse, não haveria tráfico.
Durante muito tempo, paguei por drogas. Fui um financiador desta situação. Há nove anos, deixei de pagar aos criminosos. Não por consciência, mas por sofrimento pessoal. O usuário e o dependente químico são tão egoístas que metem a sociedade nisso para satisfazer seus prazeres (ou dores) e só saem porque o seu calo aperta, não porque apertou o de todo mundo.
Portanto, banir as drogas é uma atitude impossível. Nada fará com que o ser humano deixe de se drogar. Ele acha isso seu “direito”. Mesmo destruindo a família, não abre mão da sua “liberdade”. Escraviza-se ao traficante e escraviza a sociedade por puro egoísmo. E só vai largar se incomodar muito a ele mesmo.
O fato de o ser humano ser, essencialmente, o predador da própria sociedade, no entanto, não deve conferir à sociedade o direito de ser predadora do ser humano. Ao contrário: deveríamos humanizar a besta fera chamada Gente. Mas, em vez disso, a besta fera vem tentando corromper a sociedade, para satisfazer seus desejos.
É o que está ocorrendo no Uruguai, neste momento.
Mujica, o Juninho Cagão da política uruguaia
Ali se discutem três projetos para legalizar a produção e venda de drogas. O consumo já é livre e feito na frente da polícia, como mostrou reportagem publicada na Revista O Globo, no domingo, que foi conferir in loco o que ocorre no vizinho ao sul, a outrora Província Cisplatina. Pecou em não ouvir as entidades que combatem as drogas e centrar sua atenção apenas nas autoridades e viciados. Mas não é uma reportagem malfeita, pois me fez pensar.
Primeiro, publiquei no Facebook minhas inquietações. Agora, estendo a conversa para cá.
A legalização de toda a cadeia produtiva da maconha transformará o presidente uruguaio, José Pepe Mujica, um outrora respeitado membro da esquerda, numa espécie de Juninho Cagão bem-amado. Será bem-amado porque todos os maconheiros do Cone Sul verão nele um “messias”, que criou o primeiro lugar onde a maconha terá chancela do estado, atestando sua lisura e qualidade, tal como os cassinos estatais que proliferam nas ruas de Punta.
Como a maconha embaça a visão, esse pessoal não consegue enxergar algumas realidades. A primeira delas é que o Uruguai, ao legalizar a produção e venda de drogas, terá de plantar, colher, controlar e distribuir a maconha. Será, oficialmente, o primeiro narcoestado do mundo. País cuja agropecuária é sua atividade principal, o Uruguai tem campos para plantar a erva. Resta saber se o solo será bom para isso.
Se for, não é difícil prever que acabe havendo uma migração das culturas atuais para a da maconha, teoricamente para abastecer o mercado interno. Aparentemente, isso não deve trazer grandes problemas, já que da população de 3,5 milhões de uruguaios, aproximadamente 75 mil fumam maconha, e em qualquer lugar, como mostrou a reportagem de O Globo.
Mas ninguém tem certeza que o número é exatamente este. Muito usuário de maconha morre de vergonha de admitir que é maconheiro, embora este pudor venham sendo diluído nas marchas que pedem a liberação da droga. Dei-me ao trabalho de fazer algumas contas. Pelo plano oficial, cada uruguaio pode consumir 40 gramas de maconha por mês. Multiplicando por 75 mil uruguaios, isso dá 3 mil quilos mensais. Como vai ser preciso certo estoque, é de se supor que a superfície agricultável dedicada à maconha seja significativa.
Agora vem uma pergunta: o que fazer caso metade da população uruguaia, ou 1.750.000 pessoas decidirem aderir à compra da erva? Porque, aí, o salto é para um consumo de 70 mil quilos por mês, fora os estoques reguladores. Sei não, mas acho que aí vai se abrir o segundo problema: haverá uma grande troca de culturas no campo pelo plantio da maconha. E isso pode causar desequilíbrios na balança comercial uruguaia. Ou então, o que é pior, caso não estabeleça esta rede de plantio interno, o Uruguai terá de importar a droga.
E aí vem uma série de questões: o país passará a transacionar com cartéis de traficantes internacionais? Ou incentivará o Paraguai, hoje principal fornecedor clandestino de maconha para lá (cerca de 80% do mercado), a aderir a esta aliança, criando não um, mas dois narcoestados no âmbito do Mercosul? E, se isso ocorrer, o que o Mercosul fará com estes dois países (um atualmente afastado)?
Uma coisa que me incomoda muito nesta história é o fato de países subdesenvolvidos preocuparem-se com questões como estas, de distribuir e garantir a pureza da maconha para os usuários/dependentes. Será, me pergunto, que não é mais eficiente governar para fazer o seu território progredir? Será que não é melhor, em vez de mobilizar a nação para plantar, colher e vender maconha, fazer um plano de metas para desenvolver a agricultura e a indústria? Será que não é melhor investir no turismo que no narcoturismo?
Alguém vai levantar a mão e dizer que o plano uruguaio é só para os cidadãos do país e que eles não querem os tais narcoturistas por lá. É isso que afirma Julio Calzada, secretário nacional de drogas do Uruguai. Mas quem garante que será deste jeito? Para muita gente, 40 gramas mensais é uma boa quantidade. Para outros, muito. Para terceiros, pouco. O mercado das drogas se ajusta e quem tem mais repassa a quem tem menos, em uma atitude de tráfico, entrando ou não dinheiro no negócio. E se um contingente maior de pessoas, incluindo-se nelas os não usuários, começar a comprar a droga, para onde vai o excedente? Para o tráfico. E ainda: nada impede que a diferença entre 1.750.000 uruguaios e 75.000 dependentes, ou seja, o contingente de mais de 1.600.000 pessoas reivindique o direito de comprar as 40 gramas, para depois batizá-las e vendê-las a gringos ávidos por um fumo. Temos aí o tráfico e o narcoturista, mas com a chancela estatal na dola (quem já usou drogas sabe do que eu estou falando).
Para quem usa só maconha, a proposta uruguaia parece perfeita e um golpe no narcotráfico. É uma falácia. A proposta concentra seus esforços na maconha e despreza dois fatos: há usuários de outras drogas no país e há os chamados dependentes cruzados, que podem utilizar, por exemplo, maconha e cocaína. Estes seguirão financiando os traficantes, para comprar o pó. E, assim, eu pergunto: como vai acabar o poderio deles, que cresce no Uruguai, se há consumidores de outras drogas? E qual será o capítulo seguinte? Será legalizar a cadeia produtiva da cocaína também?
É ingênuo achar que a legalização de uma droga acaba com o uso das demais. Se fosse assim, não precisaríamos legalizar nenhuma delas. Afinal, já temos duas legais: álcool e tabaco. E as pessoas seguem procurando novas drogas, cada vez mais poderosas. Quer um exemplo disso? Em Portugal, onde o uso foi descriminalizado, aumentou o consumo de cocaína e as mortes por uso de drogas. O bicho Gente usa mal esta tal de liberdade.
O que me incomoda nesta história uruguaia, e fazendo um paralelo com a situação da Chatuba, é que o poderio dos traficantes está sempre sendo associado apenas ao negócio. Não é verdade. O poderio vem de dois tripés: o que o usuário paga a ele pela droga e o que ele paga ao corrupto, para ter o salvo-conduto e as armas, que ele também usa em assaltos a banco e sequestros, atividades que o deixam mais poderoso. Não vejo como legalizar a cadeia produtiva e liberar o consumo vai combater o corrupto que recebe propina.
Há quem defenda, ainda mais ingenuamente, que se adote uma saída doméstica, liberando o plantio de maconha. Dá vontade de rir. Quem vai controlar a produção? Quem garante que, se houver excedente das tais 40 gramas, não haverá venda clandestina (tráfico)?
Para ir chegando ao fim, é sempre bom lembrar que experiências liberalizantes deram tão errado quanto às repressivas. Em Letten, na Suíça, a coisa foi liberada e saiu do controle. O lugar precisou ser fechado. Consumo legal é autorização para uso. Legal ou ilegal, em países ricos ou pobres, o consumo explode em certas épocas. Pode ser que isso esteja mais ligado à falta de perspectivas humanas do que a outros comportamentos. Os anos de trabalho e de uso de drogas me fizeram entender que a imensa maioria dos dependentes está anestesiando suas dores ao usar drogas. Dores pessoais ou sociais. Uma sociedade onde seu destino está definido, para o bem ou para o mal, te deixa vazio e sem perspectivas. E tome droga, em vez de procurar novas perspectivas.
Outro dado, este científico: a Associação Brasileira de Psiquiatria classifica a maconha como droga, alerta que ela causa dependência como qualquer outra e revela que seu uso deixa mais lento o mecanismo cerebral responsável pela tomada de decisões. Por isso é tão difícil admitir a dependência química em maconha e por isso é tão difícil largá-la. E quem diz isso é a comunidade científica.
Enfim, diante disso tudo, por que um país se interessaria em entrar neste negócio, atendendo aos reclamos de apenas 2% de sua população (o universo de 75 mil maconheiros no âmbito de 3,5 milhões de pessoas)? Por que legalizar a cadeia produtiva de uma droga que afeta justamente o mecanismo cerebral da tomada de decisões?
Não tenho dúvidas: para criar e comandar uma nação de zumbis, sem muita vontade própria. Um povo drogado é um povo mais fácil de manipular. E ainda com uma vantagem em relação à dentadura, à camiseta e ao bolsa família: em vez de pagar, o estado (e quem o governa) recebe uma grana preta. Numa conta conservadora, se o grama da maconha custar R$ 5, a produção de 3 mil quilos vai dar uma receita mensal em torno de US$ 7,5 milhões. Estimando um lucro de 50%, são US$ 3,75 milhões. E se a venda chegar à metade dos uruguaios, o bolo do faturamento salta para uns US$ 175 milhões, com lucro de US$ 86 milhões. Mensais...  E se houver tráfico para narcoturistas, o dinheiro deles acaba entrando para a economia, pois traficante também gasta. Isso pode girar quase três vezes os números que estimei acima, numa conta conservadora.
Um negoção, não?
Pois é, por isso que o Mujica e o Juninho Cagão são, em linhas gerais, a mesma coisa. Ambos só ligam para o seu quintal, querem lucro e quanto mais alienados e drogados, melhor para eles. Afinal, o plano de Mujica não fala em momento algum na criação de uma rede de clínicas de reabilitação de dependentes.
A diferença é que um vai acabar morto ou preso. O outro, periga ser reeleito. 

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