Surgiu da iniciativa de quatro caixeiros, hoje denominados comerciantes. Eram eles Henrique M. Ferreira Monteiro, Luiz Antônio Rodrigues, José Alexandre D'Avellar Rodrigues e Manoel Teixeira de Sousa Júnior. Todos nomes luso-brasileiros. Nada de Stewart, Edwin, Pullen. Só Luiz, Manoel, José. Jovens que gostavam do remo. Uma garotada que queria disputar regatas na sua cidade e que pretendia fundar um clube para rivalizar com o Clube de Regatas Botafogo, com o Grupo de Regatas Gragoatá, com o Clube de Regatas Icaraí, com o Clube de Regatas do Flamengo, com o Clube de Regatas Boqueirão do Passeio e com o Clube de Natação e Regatas, integrantes da União de Regatas Fluminense, que se preparava para organizar o primeiro certame carioca.
Os rapazes moravam em sobrados simples, em cima dos comércios em que trabalhavam no Centro do Rio. De origem portuguesa (alguns nascidos lá, outros filhos de lusos), buscavam um nome que identificasse o clube com a colônia, numerosa em terras cariocas. Nas discussões que antecederam àquele 21 de agosto de 1898, muitas sugestões surgiram. Santa Cruz foi um deles. Álvares Cabral, outro. Mas Vasco da Gama prosperou. Pudera: mundo afora, naquele ano de 1898, pipocavam comemorações pelo quarto centenário do Caminho Marítimo das Índias, traçado pelo brilhante navegador, que jamais esteve em terras brasileiras.
A ideia dos quatro rapazes já havia entusiasmado meia colônia. Os cinco irmãos Gonçalves Couto (Francisco Júnior, Antônio, Adolfo, Alfredo e José), donos de prósperos estabelecimentos comerciais no bairro da Saúde e em Botafogo, entusiasmaram-se com a iniciativa. Logo, Henrique Monteiro, por intermédio de José Lopes de Freitas, o Zé da Praia, foi procurá-los. E eles aderiram ao grupo.
A adesão foi mais que benéfica, já que Francisco, o mais velho dos Gonçalves Couto e dono de estabelecimentos na Rua Voluntários da Pátria, tinha barcos de regata e bons relacionamentos, entre eles o conselheiro municipal Henrique Lagden, que também se entusiasmou pela ideia de fundar um novo clube, genuinamente luso-brasileiro.
Depois de várias reuniões preliminares no Clube Dançante e Recreativo Estudantina Arcas Comercial, localizado em um sobrado na esquina das ruas São Pedro e Andradas, e na Sociedade Dramática Particular Filhos de Talma, que sobrevive até os dias atuais, ficou acertado que, em 21 de agosto de 1898, um domingo, o grupo de adeptos, já na casa de 62 homens, se reuniria na Rua da Saúde, 293. Ali, em uma sala, deram o primeiro passo de uma história vitoriosa, registrado da seguinte forma a ata de fundação.
"Aos 21 dias do mês de agosto de 1898, as 2:30 horas da tarde, reunidos na sala do prédio da Rua da Saúde numero 293 os senhores constantes do livro de presenças, assumiu a presidência o Sr. Gaspar de Castro e depois de convidar para ocuparem as cadeiras de secretários os senhores Virgílio Carvalho do Amaral como 1o. e Henrique Ferreira como 2o., declarou que a presente reunião tinha o fito de fundar-se nesta Capital da Republica dos Estados Unidos do Brasil, uma associação com o título de Club de Regatas Vasco da Gama (...)"
Francisco Gonçalves do Couto Júnior foi eleito o presidente, com 52 votos, com Henrique Ferreira Monteiro como seu vice. Completaram a primeira diretoria os fundadores Luiz Antônio Rodrigues (primeiro secretário), João Belieni Salgado (segundo secretário), Antônio Martins Ribeiro (primeiro tesoureiro), Henrique Ladgen (segundo tesoureiro) e João C. Freitas (diretor de regatas). Nascia ali o nosso Vasco, com 62 abnegados, número que subiria para 185 sócios, quando da nossa filiação à União de Regatas Fluminense, em 24 de outubro de 1898. E eles ficaram sendo os fundadores oficiais do Vasco:
- Antônio Vieira Rosas
- Antônio Gonçalves Lopes
- Antônio Feliciano de Freitas
- Antônio Gomes
- Antônio Vieira
- Antônio Cruz
- Antônio José da Costa Oliveira
- Antônio Sá
- Antônio Pereira Gonçalves Silva
- Antônio Nicolau da Costa
- Antônio Frazão do Salgueiro
- Antônio Manoel Lopes
- Antônio Joaquim Pereira
- Antônio Ferreira Vale
- Antônio Joaquim de Andrade
- Antônio Mendes
- Antônio Monteiro de Moura
- Antônio Martins Ribeiro
- Antônio Nunes
- Antônio Menezes
- Antônio Augusto Cunha
- Antônio Gonçalves Couto Sobrinho
- Antônio Marciano Rosas
- Antônio C. Moura
- Antônio Pereira da Costa
- Antônio Fernando Seixas
- Augusto F. C. Glosl
- Alencar Pires Salgado
- Afonso Angladas
- Álvaro Coutinho
- Alberto Pinto C. Almeida
- Alfredo Teixeira Guimarães
- Abílio V. Quintela
- Affonso José Domingues
- Aurélio Raimundo dos Santos
- Alexandre Teixeira
- Arthur José da Costa Oliveira
- Alfredo Luiz de Brito Taborda
- Américo de O. Dutra
- Afonso Francisco Machado
- Alberto Augusto Cardoso
- Alberto Borges
- Áureo da Silva Lopes
- Arlindo Melo
- Altamirano Rangel
- Agostinho Lopes Cardoso
- Adelard Pires Salgado
- Augusto Borges
- Augusto Machado Frias
- Augusto Cezar de Abreu
- Artur Machado Azevedo
- Alberto Saraiva
- Ayres Martins Carneiro
- Adolpho Álvares da Silva
- Augusto Gomes Ferreira
- Artur Gonçalves do Couto
- Artur Fernandes Correia
- Augusto Machado
- Alfredo Alves
- Alberto Guimarães
- Bento Jose da Costa
- Bernardo Jose Monteiro Tôrres
- Bernardino Peixoto Ferreira
- Carlos M. Santos
- Crisanto Clelotte
- Domingues Gomes de Freitas
- Domingos Oliveira Monteiro
- Diogo Rodrigues Blanco
- Ernesto Ferreira da Silva
- Eugênio Germano
- Emilio Eusébio Silveira
- Ermando da Cunha Matos
- Eurico Teixeira de Almeida
- Edmundo F. Silva
- Ernesto Ferreira Alegria
- Ernesto Pereira da Costa
- Ernesto Rodrigues
- Emilio Gonçalves Roque
- Francisco Ayres Gomes
- Francisco de Paula Barreto
- Francisco França do Nascimento
- Francisco Velloso
- Francisco da Silva Lage
- Francisco Gonçalves Couto Junior
- Francisco Alberto da Silva
- Francisco Tomas D'Oliveira
- Francisco Abreu Pinheiro
- Francisco Rodrigues
- Feliciano Freire
- Frederico Ribeiro da Cunha
- Guilherme de Azevedo
- Guilherme Ferreira da Silva
- Gustavo Soares Pereira
- Gaspar de Castro
- Guarany Goulart
- Henrique Ferreira Monteiro
- Heitor Gama
- Horácio Cordeiro
- Henrique Ferreira Alegria
- Henrique A. Araújo Filho
- Henrique Lagden
- Herbert Hime
- Heitor Silva
- Honorato de Almeida Vilhena
- Ismael F. Cardoso Silva
- José Alexandre Avelar Rodrigues
- José Antônio Rodrigues Santos
- José Teixeira Bastos
- José Luiz Barros da Cruz
- José Augusto Dias de Freitas
- José de Souza Rozas
- José Domingos da Silva
- José Joaquim Severino Lopes
- José Augusto da Novoa Araújo
- José Teixeira Bastos de Carvalho
- José Joaquim Baptista Leite
- José Pires Velloso
- José Lopes de Freitas
- José Carlos Carneiro
- José Correia Sarmento
- José Castro
- José Carneiro
- João Belieni Salgado
- João Fernandes Ferreira
- João Pinto de Campos
- João Reis de Oliveira
- João Gomes Nora
- João Nepomuceno Campos Braga
- João Moreira Martins
- João José Soares Junior
- João Moreira de Souza
- João José de Alcântara
- João Luis de Valle
- João C. Freitas
- João Soares Fraxe
- João Amaral
- João Barboza Madureira
- Joaquim José Ernani de Oliveira
- Joaquim Costa Braga
- Joaquim dos Santos Silveira
- Joaquim Mendes
- Joaquim Oliveira
- Joaquim Oliveira Monteiro
- Joaquim Silva Pereira
- Joaquim Ferreira Pipa
- Júlio Alves de Oliveira
- Júlio Monteiro
- J. Bonifácio Pedroso
- Jerônymo J. Campos
- Luiz Antonio Rodrigues
- Luiz F. Carvalho
- Lourenço Ayres da Gama Bastos
- Leonel Campos Borda
- Manuel Cândido Pinto Azevedo Sobrinho
- Manuel C. Silva Braga
- Manuel Moraes Andrade
- Manuel Gonçalves Silva
- Manuel Costa Leal
- Manuel Joaquim Ribeiro
- Manuel Cerqueira D'Almeida
- Manuel Joaquim da Costa
- Manuel Domingues de Campos
- Manuel Leite da Silva Garcia
- Manuel Augusto S. Ramos
- Manuel Joaquim Pinto Fonseca
- Manuel Ferreira Dias Garcia
- Manuel Borges da Costa Avelar
- Manuel Gonçalves Pereira Rocha
- Manuel Avelino Cardoso
- Manuel Vieira Guimarães
- Manuel Teixeira de Oliveira Sisca
- Marcílio Vieira
- Mário Teixeira Lopes Guimarães
- Mario Delgado
- Odorico Pinheiro Carvalho
- Pedro Vieira
- Raul Armando Taveira
- Rodolpho Silveira Guimarães
- Seraphim Pacheco Vieira
- Theodoro Soares da Fonseca
- Thomaz B. Costa
- Virgílio da Silva Lopes
- Victorino Ferreira da Silva
- Virgílio Carvalho Amaral
- Vicente Alves Cruz
Mal sabiam estes homens que lançaram no solo uma semente fecunda.
Uma semente de vitórias e de lutas. De triunfos esportivos e de batalhas sociais.
Títulos, o Vasco angariou em quantidades expressivas, a começar pelo bicampeonato no remo, em 1905 e 1906, os primeiros de uma galeria que tem ainda os de 1912, 13, 14, 19, 21, 24, 27, 28, 29, 30, 31, 32, 34, 35, 36, 37, 38, 39, 44, 45, 46, 47, 48, 49, 50, 51, 52, 53, 54, 55, 56, 57, 58, 59, 61, 70, 82, 98, 99, 2000, 2001, 2002, 2005 e 2008.
Uma galeria completada por glórias imensas no futebol, esporte que só em 1915 começa a fazer parte de nossa rotina, com a fusão com o Luzitânia FC. Se o começo, em 1916, foi com uma vexatória goleada de 10 x 1 para o Paladino, só um clube da grandeza do Vasco poderia, poucos anos depois, estar na elite carioca e conquistar o seu primeiro título, em 1923, com um time de negros, pobres, analfabetos.
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| Em pé, Nicolino, Mingote, Nelson, Leitão, Arthur e Bolão. Sentados, Pascoal, Torteroli, Arlindo, Ceci e Negrito. Os campeões cariocas de 1923 que tanto irritaram a elite zona sul |
E aí o Vasco escreve a maior página de sua grandeza, ao ensinar a uma elite racista e discriminatória, que exigia para os clubes da Zona Sul e seus atletas brancos e "de família" a exclusividade do esporte. O Vasco, que nasceu na Saúde, que cresceu no subúrbio, que juntou todo mundo sob sua bandeira, preferiu ficar com seus atletas e disputar o campeonato de 1924 com clubes menores, vencendo suas 16 partidas, mas mostrando que ninguém derrotava nossos ideais de igualdade sócio-racial.
É este Vasco de que me orgulho. O Vasco da resposta histórica, assinada em 7 de abril de 1924, pelo presidente José Augusto Prestes, que reproduzo abaixo:
Rio de Janeiro, 7 de Abril de 1924.
Ofício nr. 261
Exmo. Sr. Dr. Arnaldo GuinleM.D. Presidente da Associação Metropolitana de Esportes AtléticosAs resoluções divulgadas hoje pela imprensa, tomadas em reunião de ontem pelos altos poderes da Associação a que V.Exa tão dignamente preside, colocam o Club de Regatas Vasco da Gama numa tal situação de inferioridade, que absolutamente não pode ser justificada nem pela deficiência do nosso campo, nem pela simplicidade da nossa sede, nem pela condição modesta de grande número dos nossos associados.Os privilégios concedidos aos cinco clubes fundadores da AMEA e a forma por que será exercido o direito de discussão e voto, e feitas as futuras classificações, obrigam-nos a lavrar o nosso protesto contra as citadas resoluções.Quanto à condição de eliminarmos doze (12) dos nossos jogadores das nossas equipes, resolve por unanimidade a diretoria do Club de Regatas Vasco da Gama não a dever aceitar, por não se conformar com o processo por que foi feita a investigação das posições sociais desses nossos consócios, investigações levadas a um tribunal onde não tiveram nem representação nem defesa.Estamos certos que V.Exa. será o primeiro a reconhecer que seria um ato pouco digno da nossa parte sacrificar ao desejo de filiar-se à AMEA alguns dos que lutaram para que tivéssemos entre outras vitórias a do campeonato de futebol da cidade do Rio de Janeiro de 1923.São esses doze jogadores jovens, quase todos brasileiros, no começo de sua carreira e o ato público que os pode macular nunca será praticado com a solidariedade dos que dirigem a casa que os acolheu, nem sob o pavilhão que eles, com tanta galhardia, cobriram de glórias.Nestes termos, sentimos ter que comunicar a V.Exa. que desistimos de fazer parte da AMEA.
Queira V.Exa. aceitar os protestos de consideração e estima de quem tem a honra de se subscrever, de V.Exa. At. Vnr. Obrigado(a) Dr. José Augusto PrestesPresidente
É esse o meu Vasco.
Claro, também é o campeão carioca de 23, 24, 29, 34, 36, 45, 47, 49, 50, 52, 56, 58, 70, 77, 82, 87, 88, 92, 93, 94, 98, 2003 e 2015, campeão do Rio-São Paulo em 58, 66 e 99, campeão da Copa do Brasil em 2011, campeão brasileiro em 74, 89, 97 e 2000, campeão sulamericano em 1948, da Libertadores em 1998 e da Mercosul em 2000, campeão dos pré-mundiais de 1953 e 1957 e de tantos outros títulos, em muitos esportes.
Mas o meu Vasco, o Vasco que me arrepia a alma, é o Vasco da igualdade, o Vasco que cai e se reergue, o Vasco que supera toda e qualquer manobra para tentar acabar com ele.
É o Vasco que constrói São Januário apenas com o dinheiro dos seus sócios, comprando campo, ferro e cimento, sem ajuda pública, e ainda com um presidente da República (Washington Luís) fazendo de tudo para atrapalhar - e que nós, em um gesto de grandeza, convidamos para inaugurá-lo.
É o Vasco que é vilipendiado pelos maus presidentes, pelos seus inimigos, mas nunca é destruído.
E sabem por que?
Por que existe o Vasco antes de todos nós e também existirá depois.
O Vasco, meus caros, é eterno, maior até que o homem que emprestou seu nome.
O Vasco é imortal. Está acima de tudo e de todos. E vive em cada um de nós, que não se conforma com a injustiça, a sacanagem, a desigualdade.
Por isso sempre haverá o Vasco.

