Amo Brasília.
Sempre sonhei em morar aqui. A paixão começou ainda menino, durante a novela "Escalada". Sonhava em ser uma espécie de João Dias (Tarcísio Meira) e vir construir uma cidade no meio do nada. Paixão que depois se intensificou na minha adolescência, quando a frase "Em Brasília, 19 horas" interrompia o programa que eu estava ouvindo em alguma rádio AM. Só não interrompia o "Polar caminhando pelo mundo", programa musical da Rádio JB AM, apresentado pelo Eliakim Araújo, nas noites, que embalava meu sono. Polar, para quem não conhece, era uma sapataria carioca. Nem ela, nem a JB AM existem mais. O Eliakim ainda existe, mas mora em Miami.
Pois bem, amava Brasília mesmo com a voz do Brasil, ou até por ela, por que sabia o que estava acontecendo no Congresso. Eu não morava em Brejal dos Guajás, mas no Rio de Janeiro, uma cidade em que todo mundo antipatizava com Brasília, pois "a capital saiu de lá para se esconder no meio do mato", com o diziam meus conterrâneos.
Eu achava todos uns bestas, inclusive meus pais. A capital no interior podia ter tirado o status do Rio (e tirou a riqueza, o prestígio e muitas outras coisas), mas me sentia mais seguro com o presidente e o poder morando "mais para dentro" do Brasil. Ali era difícil o inimigo pegá-los. Típica criação mental de um menino meio chegado a uma neurose...
Mas o amor por Brasília só crescia com o tempo. Torcia, secretamente, pelo Ceub no Campeonato Brasileiro, quando o Vasco não jogava. Depois, pelo Brasília. Achava que Brasília era o máximo. Queria vir trabalhar aqui.
Cresci, estudei, me formei, virei jornalista e, em 1998, trazido pelas mãos santas de Paulo Gusmão e do saudoso Massimo Manzolillo, aportei aqui para ficar, com uma breve saída em direção a BH. Fui e voltei. Brasília é e talvez será sempre a minha casa.
Em 14 anos de cidade, vi Brasília mudar muito. Cresceu, inchou. E por conta disso, ganhou problemas que eu não via em 1998, quando a terra vermelha, o tempo seco e o sol radiante me conquistaram para sempre.
Hoje de manhã, por exemplo, assisti dois episódios que me mostraram os novos problemas de Brasília. O primeiro deles é o trânsito. Com o crescimento rápido, a cidade inchou de gente e de carros, já que os governos se sucederam sem se preocupar com a qualidade de vida dos cidadãos. Na época em que estava no Jornal de Brasília, noticiamos que a cidade comportava mais de 1 milhão de veículos.
É carro para cacete. Hoje devemos ter chegado a 1,3 milhão. E o ritmo de crescimento vai continuar, já que entra governo, sai governo, a cidade segue sem um transporte público decente.
Carro demais na rua significa um crescimento exponencial de barbeiros e rodas-presas. Que o diga a Ponte JK. Lá é uma espécie de "pague para entrar, reze para sair", sem pedágio. Ao entrar, como não há áreas de saída durante vários quilômetros, a menor batidinha pode te relegar a um infernal congestionamento. Nada que assuste um carioca ou paulista. Mas sabemos que, mesmo olhando para o Lago Paranoá, é um saco ficar 40 minutos parado.
Mas hoje não teve acidente ou engarrafamento, mas só uma mostra de como se dirige mal por aqui. Entrei na ponte e quase fui atacado por um Picanto amarelo. É o típico carro cujo motorista está proibido de fazer barbeiragem. É fácil de marcar.
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Será que é em Brasília?
Bom, se não for, tá valendo mesmo assim |
Pois bem, a digníssima que dirigia o Picanto amarelo, depois de quase me abalroar, encaixou-se, sabe lá Deus como, na traseira de um carro, sendo seguida por outra tresloucada em um Uno. Encarapitaram-se na faixa da esquerda e... nada. Ficaram integrando o trenzinho de dezenas de carros, um perigo iminente de engavetamento, comum demais na faixa da esquerda por aqui. O cara faz de tudo para ocupar a faixa de rolamento rápido para ir lá, morcegando e freando o tempo todo.
Fui nesta toada até o final da Ponte JK. Não teve jeito. Passei para a pista do meio, igualmente um trenzinho. De repente, olho para a faixa da direita.
Parecia miragem. Não tinha ninguém. Nem ônibus, nem carro, nem moto. Vazia. Deserta.
Sinceramente, não titubeei. Fui para a direita, engatei a quinta e, sem precisar voar, me livrei do trenzinho em segundos. Tchau, Picanto! Tchau, Uno!
E viva a infração de trânsito que fui obrigado a cometer, por que os motoristas daqui não sabem, até hoje, que a faixa da esquerda é para ultrapassar e seguir, e que a da direita é para andar devagar, entre a metade da velocidade da via e a velocidade máxima.
Mas não foi só isso não. Horas mais tarde, ao passar pelo lado de um ônibus na Esplanada dos Ministérios, por pouco não fui atingido por uma latinha suicida de Pepsi Twist Light, que resolveu mergulhar do coletivo para a morte por amassamento na via.
Isso mesmo... Um porco arremessou, de dentro do ônibus, uma lata no meio da rua. Selvagem.
Do que adianta ter IDH alto, melhor índice de escolaridade e o cacete se a gente segue sem respeitar regras e sujando as ruas?
Nada. Por um mísero minuto, senti saudades do Rio. Mas me lembrei dos funkeiros ouvindo aquelas m... no celular no último volume no ônibus.
Horror por horror, prefiro o daqui. Por que ainda acho que pode ter jeito. Será?