terça-feira, 21 de agosto de 2012

O gigante imortal de 114 anos

A paixão avassaladora de milhões de brasileiros nasceu há exatos 114 anos. 
Surgiu da iniciativa de quatro caixeiros, hoje denominados comerciantes. Eram eles Henrique M. Ferreira Monteiro, Luiz Antônio Rodrigues, José Alexandre D'Avellar Rodrigues e Manoel Teixeira de Sousa Júnior. Todos nomes luso-brasileiros. Nada de Stewart, Edwin, Pullen. Só Luiz, Manoel, José. Jovens que gostavam do remo. Uma garotada que queria disputar regatas na sua cidade e que pretendia fundar um clube para rivalizar com o Clube de Regatas Botafogo, com o Grupo de Regatas Gragoatá, com o Clube de Regatas Icaraí, com o Clube de Regatas do Flamengo, com o Clube de Regatas Boqueirão do Passeio e com o Clube de Natação e Regatas, integrantes da União de Regatas Fluminense, que se preparava para organizar o primeiro certame carioca. 
Os rapazes moravam em sobrados simples, em cima dos comércios em que trabalhavam no Centro do Rio. De origem portuguesa (alguns nascidos lá, outros filhos de lusos), buscavam um nome que identificasse o clube com a colônia, numerosa em terras cariocas. Nas discussões que antecederam àquele 21 de agosto de 1898, muitas sugestões surgiram. Santa Cruz foi um deles. Álvares Cabral, outro. Mas Vasco da Gama prosperou. Pudera: mundo afora, naquele ano de 1898, pipocavam comemorações pelo quarto centenário do Caminho Marítimo das Índias, traçado pelo brilhante navegador, que jamais esteve em terras brasileiras. 
A ideia dos quatro rapazes já havia entusiasmado meia colônia. Os cinco irmãos Gonçalves Couto (Francisco Júnior, Antônio, Adolfo, Alfredo e José), donos de prósperos estabelecimentos comerciais no bairro da Saúde e em Botafogo, entusiasmaram-se com a iniciativa. Logo, Henrique Monteiro, por intermédio de José Lopes de Freitas, o Zé da Praia, foi procurá-los. E eles aderiram ao grupo.
A adesão foi mais que benéfica, já que Francisco, o mais velho dos Gonçalves Couto e dono de estabelecimentos na Rua Voluntários da Pátria, tinha barcos de regata e bons relacionamentos, entre eles o conselheiro municipal Henrique Lagden, que também se entusiasmou pela ideia de fundar um novo clube, genuinamente luso-brasileiro. 
Depois de várias reuniões preliminares no Clube Dançante e Recreativo Estudantina Arcas Comercial, localizado em um sobrado na esquina das ruas São Pedro e Andradas, e na Sociedade Dramática Particular Filhos de Talma, que sobrevive até os dias atuais, ficou acertado que, em 21 de agosto de 1898, um domingo, o grupo de adeptos, já na casa de 62 homens, se reuniria na Rua da Saúde, 293. Ali, em uma sala, deram o primeiro passo de uma história vitoriosa, registrado da seguinte forma a ata de fundação.

"Aos 21 dias do mês de agosto de 1898, as 2:30 horas da tarde, reunidos na sala do prédio da Rua da Saúde numero 293 os senhores constantes do livro de presenças, assumiu a presidência o Sr. Gaspar de Castro e depois de convidar para ocuparem as cadeiras de secretários os senhores Virgílio Carvalho do Amaral como 1o. e Henrique Ferreira como 2o., declarou que a presente reunião tinha o fito de fundar-se nesta Capital da Republica dos Estados Unidos do Brasil, uma associação com o título de Club de Regatas Vasco da Gama (...)"

Francisco Gonçalves do Couto Júnior foi eleito o presidente, com 52 votos, com Henrique Ferreira Monteiro como seu vice. Completaram a primeira diretoria os fundadores Luiz Antônio Rodrigues (primeiro secretário), João Belieni Salgado (segundo secretário), Antônio Martins Ribeiro (primeiro tesoureiro), Henrique Ladgen (segundo tesoureiro) e João C. Freitas (diretor de regatas). Nascia ali o nosso Vasco, com 62 abnegados, número que subiria para 185 sócios, quando da nossa filiação à União de Regatas Fluminense, em 24 de outubro de 1898. E eles ficaram sendo os fundadores oficiais do Vasco:

  1. Antônio Vieira Rosas
  2. Antônio Gonçalves Lopes
  3. Antônio Feliciano de Freitas
  4. Antônio Gomes
  5. Antônio Vieira
  6. Antônio Cruz
  7. Antônio José da Costa Oliveira
  8. Antônio Sá
  9. Antônio Pereira Gonçalves Silva
  10. Antônio Nicolau da Costa
  11. Antônio Frazão do Salgueiro
  12. Antônio Manoel Lopes
  13. Antônio Joaquim Pereira
  14. Antônio Ferreira Vale
  15. Antônio Joaquim de Andrade
  16. Antônio Mendes
  17. Antônio Monteiro de Moura
  18. Antônio Martins Ribeiro
  19. Antônio Nunes
  20. Antônio Menezes
  21. Antônio Augusto Cunha
  22. Antônio Gonçalves Couto Sobrinho
  23. Antônio Marciano Rosas
  24. Antônio C. Moura
  25. Antônio Pereira da Costa
  26. Antônio Fernando Seixas
  27. Augusto F. C. Glosl
  28. Alencar Pires Salgado
  29. Afonso Angladas
  30. Álvaro Coutinho
  31. Alberto Pinto C. Almeida
  32. Alfredo Teixeira Guimarães
  33. Abílio V. Quintela
  34. Affonso José Domingues
  35. Aurélio Raimundo dos Santos
  36. Alexandre Teixeira
  37. Arthur José da Costa Oliveira
  38. Alfredo Luiz de Brito Taborda
  39. Américo de O. Dutra
  40. Afonso Francisco Machado
  41. Alberto Augusto Cardoso
  42. Alberto Borges
  43. Áureo da Silva Lopes
  44. Arlindo Melo
  45. Altamirano Rangel
  46. Agostinho Lopes Cardoso
  47. Adelard Pires Salgado
  48. Augusto Borges
  49. Augusto Machado Frias
  50. Augusto Cezar de Abreu
  51. Artur Machado Azevedo
  52. Alberto Saraiva
  53. Ayres Martins Carneiro
  54. Adolpho Álvares da Silva
  55. Augusto Gomes Ferreira
  56. Artur Gonçalves do Couto
  57. Artur Fernandes Correia
  58. Augusto Machado
  59. Alfredo Alves
  60. Alberto Guimarães
  61. Bento Jose da Costa
  62. Bernardo Jose Monteiro Tôrres
  63. Bernardino Peixoto Ferreira
  64. Carlos M. Santos
  65. Crisanto Clelotte
  66. Domingues Gomes de Freitas
  67. Domingos Oliveira Monteiro
  68. Diogo Rodrigues Blanco
  69. Ernesto Ferreira da Silva
  70. Eugênio Germano
  71. Emilio Eusébio Silveira
  72. Ermando da Cunha Matos
  73. Eurico Teixeira de Almeida
  74. Edmundo F. Silva
  75. Ernesto Ferreira Alegria
  76. Ernesto Pereira da Costa
  77. Ernesto Rodrigues
  78. Emilio Gonçalves Roque
  79. Francisco Ayres Gomes
  80. Francisco de Paula Barreto
  81. Francisco França do Nascimento
  82. Francisco Velloso
  83. Francisco da Silva Lage
  84. Francisco Gonçalves Couto Junior
  85. Francisco Alberto da Silva
  86. Francisco Tomas D'Oliveira
  87. Francisco Abreu Pinheiro
  88. Francisco Rodrigues
  89. Feliciano Freire
  90. Frederico Ribeiro da Cunha
  91. Guilherme de Azevedo
  92. Guilherme Ferreira da Silva
  93. Gustavo Soares Pereira
  94. Gaspar de Castro
  95. Guarany Goulart
  96. Henrique Ferreira Monteiro
  97. Heitor Gama
  98. Horácio Cordeiro
  99. Henrique Ferreira Alegria
  100. Henrique A. Araújo Filho
  101. Henrique Lagden
  102. Herbert Hime
  103. Heitor Silva
  104. Honorato de Almeida Vilhena
  105. Ismael F. Cardoso Silva
  106. José Alexandre Avelar Rodrigues
  107. José Antônio Rodrigues Santos
  108. José Teixeira Bastos
  109. José Luiz Barros da Cruz
  110. José Augusto Dias de Freitas
  111. José de Souza Rozas
  112. José Domingos da Silva
  113. José Joaquim Severino Lopes
  114. José Augusto da Novoa Araújo
  115. José Teixeira Bastos de Carvalho
  116. José Joaquim Baptista Leite
  117. José Pires Velloso
  118. José Lopes de Freitas
  119. José Carlos Carneiro
  120. José Correia Sarmento
  121. José Castro
  122. José Carneiro
  123. João Belieni Salgado
  124. João Fernandes Ferreira
  125. João Pinto de Campos
  126. João Reis de Oliveira
  127. João Gomes Nora
  128. João Nepomuceno Campos Braga
  129. João Moreira Martins
  130. João José Soares Junior
  131. João Moreira de Souza
  132. João José de Alcântara
  133. João Luis de Valle
  134. João C. Freitas
  135. João Soares Fraxe
  136. João Amaral
  137. João Barboza Madureira
  138. Joaquim José Ernani de Oliveira
  139. Joaquim Costa Braga
  140. Joaquim dos Santos Silveira
  141. Joaquim Mendes
  142. Joaquim Oliveira
  143. Joaquim Oliveira Monteiro
  144. Joaquim Silva Pereira
  145. Joaquim Ferreira Pipa
  146. Júlio Alves de Oliveira
  147. Júlio Monteiro
  148. J. Bonifácio Pedroso
  149. Jerônymo J. Campos
  150. Luiz Antonio Rodrigues
  151. Luiz F. Carvalho
  152. Lourenço Ayres da Gama Bastos
  153. Leonel Campos Borda
  154. Manuel Cândido Pinto Azevedo Sobrinho
  155. Manuel C. Silva Braga
  156. Manuel Moraes Andrade
  157. Manuel Gonçalves Silva
  158. Manuel Costa Leal
  159. Manuel Joaquim Ribeiro
  160. Manuel Cerqueira D'Almeida
  161. Manuel Joaquim da Costa
  162. Manuel Domingues de Campos
  163. Manuel Leite da Silva Garcia
  164. Manuel Augusto S. Ramos
  165. Manuel Joaquim Pinto Fonseca
  166. Manuel Ferreira Dias Garcia
  167. Manuel Borges da Costa Avelar
  168. Manuel Gonçalves Pereira Rocha
  169. Manuel Avelino Cardoso
  170. Manuel Vieira Guimarães
  171. Manuel Teixeira de Oliveira Sisca
  172. Marcílio Vieira
  173. Mário Teixeira Lopes Guimarães
  174. Mario Delgado
  175. Odorico Pinheiro Carvalho
  176. Pedro Vieira
  177. Raul Armando Taveira
  178. Rodolpho Silveira Guimarães
  179. Seraphim Pacheco Vieira
  180. Theodoro Soares da Fonseca
  181. Thomaz B. Costa
  182. Virgílio da Silva Lopes
  183. Victorino Ferreira da Silva
  184. Virgílio Carvalho Amaral
  185. Vicente Alves Cruz




Mal sabiam estes homens que lançaram no solo uma semente fecunda.
Uma semente de vitórias e de lutas. De triunfos esportivos e de batalhas sociais.
Títulos, o Vasco angariou em quantidades expressivas, a começar pelo bicampeonato no remo, em 1905 e 1906, os primeiros de uma galeria que tem ainda os de 1912, 13, 14, 19, 21, 24, 27, 28, 29, 30, 31, 32, 34, 35, 36, 37, 38, 39, 44, 45, 46, 47, 48, 49, 50, 51, 52, 53, 54, 55, 56, 57, 58, 59, 61, 70, 82, 98, 99, 2000, 2001, 2002, 2005 e 2008. 
Uma galeria completada por glórias imensas no futebol, esporte que só em 1915 começa a fazer parte de nossa rotina, com a fusão com o Luzitânia FC. Se o começo, em 1916, foi com uma vexatória goleada de 10 x 1 para o Paladino, só um clube da grandeza do Vasco poderia, poucos anos depois, estar na elite carioca e conquistar o seu primeiro título, em 1923, com um time de negros, pobres, analfabetos. 

Em pé, Nicolino, Mingote, Nelson, Leitão, Arthur e Bolão.
Sentados, Pascoal, Torteroli, Arlindo, Ceci e Negrito.
Os campeões cariocas de 1923 que tanto irritaram a elite zona sul
E aí o Vasco escreve a maior página de sua grandeza, ao ensinar a uma elite racista e discriminatória, que exigia para os clubes da Zona Sul e seus atletas brancos e "de família" a exclusividade do esporte. O Vasco, que nasceu na Saúde, que cresceu no subúrbio, que juntou todo mundo sob sua bandeira, preferiu ficar com seus atletas e disputar o campeonato de 1924 com clubes menores, vencendo suas 16 partidas, mas mostrando que ninguém derrotava nossos ideais de igualdade sócio-racial.
É este Vasco de que me orgulho. O Vasco da resposta histórica, assinada em 7 de abril de 1924, pelo presidente José Augusto Prestes, que reproduzo abaixo:
Rio de Janeiro, 7 de Abril de 1924. 

Ofício nr. 261 

Exmo. Sr. Dr. Arnaldo Guinle 
M.D. Presidente da Associação Metropolitana de Esportes Atléticos 
            As resoluções divulgadas hoje pela imprensa, tomadas em reunião de ontem pelos altos poderes da Associação a que V.Exa tão dignamente preside, colocam o Club de Regatas Vasco da Gama numa tal situação de inferioridade, que absolutamente não pode ser justificada nem pela deficiência do nosso campo, nem pela simplicidade da nossa sede, nem pela condição modesta de grande número dos nossos associados. 
            Os privilégios concedidos aos cinco clubes fundadores da AMEA e a forma por que será exercido o direito de discussão e voto, e feitas as futuras classificações, obrigam-nos a lavrar o nosso protesto contra as citadas resoluções. 
            Quanto à condição de eliminarmos doze (12) dos nossos jogadores das nossas equipes, resolve por unanimidade a diretoria do Club de Regatas Vasco da Gama não a dever aceitar, por não se conformar com o processo por que foi feita a investigação das posições sociais desses nossos consócios, investigações levadas a um tribunal onde não tiveram nem representação nem defesa. 
            Estamos certos que V.Exa. será o primeiro a reconhecer que seria um ato pouco digno da nossa parte sacrificar ao desejo de filiar-se à AMEA alguns dos que lutaram para que tivéssemos entre outras vitórias a do campeonato de futebol da cidade do Rio de Janeiro de 1923. 
            São esses doze jogadores jovens, quase todos brasileiros, no começo de sua carreira e o ato público que os pode macular nunca será praticado com a solidariedade dos que dirigem a casa que os acolheu, nem sob o pavilhão que eles, com tanta galhardia, cobriram de glórias. 
            Nestes termos, sentimos ter que comunicar a V.Exa. que desistimos de fazer parte da AMEA. 

            Queira V.Exa. aceitar os protestos de consideração e estima de quem tem a honra de se subscrever, de V.Exa. At. Vnr. Obrigado 
(a) Dr. José Augusto Prestes 
Presidente 
É esse o meu Vasco. 
Claro, também é o campeão carioca de 23, 24, 29, 34, 36, 45, 47, 49, 50, 52, 56, 58, 70, 77, 82, 87, 88, 92, 93, 94, 98, 2003 e 2015, campeão do Rio-São Paulo em 58, 66 e 99, campeão da Copa do Brasil em 2011, campeão brasileiro em 74, 89, 97 e 2000, campeão sulamericano em 1948, da Libertadores em 1998 e da Mercosul em 2000, campeão dos pré-mundiais de 1953 e 1957 e de tantos outros títulos, em muitos esportes. 
Mas o meu Vasco, o Vasco que me arrepia a alma, é o Vasco da igualdade, o Vasco que cai e se reergue, o Vasco que supera toda e qualquer manobra para tentar acabar com ele.
É o Vasco que constrói São Januário apenas com o dinheiro dos seus sócios, comprando campo, ferro e cimento, sem ajuda pública, e ainda com um presidente da República (Washington Luís) fazendo de tudo para atrapalhar - e que nós, em um gesto de grandeza, convidamos para inaugurá-lo.  
É o Vasco que é vilipendiado pelos maus presidentes, pelos seus inimigos, mas nunca é destruído. 
E sabem por que?
Por que existe o Vasco antes de todos nós e também existirá depois. 
O Vasco, meus caros, é eterno, maior até que o homem que emprestou seu nome. 
O Vasco é imortal. Está acima de tudo e de todos. E vive em cada um de nós, que não se conforma com a injustiça, a sacanagem, a desigualdade.
Por isso sempre haverá o Vasco.

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