sexta-feira, 21 de junho de 2013

Tarifa zero: vamos pensar um pouco

A sequência de manifestações - e os consequentes atos de vandalismo inseridos no bojo delas - tem, em sua origem, a discussão sobre a chamada tarifa zero, ou seja, o transporte público gratuito em todos os modais integrantes do sistema - ônibus, metro, VLP e o que mais vier. Mais precisamente a partir de São Paulo, onde o aumento de R$ 0,20 em um sistema que beira o colapso provocou um levante popular que não foi serenado nem com o cancelamento do aumento. Muita gente foi às ruas contra o aumento, mas pouca gente sabe, de verdade, a motivação do chamado Movimento Passe Livre, que prega o transporte sem cobrança de tarifas.
Em um primeiro olhar, a ideia parece uma boa. Afinal, locomover-se sem pagar seria ótimo para todos: o trabalhador, que ganharia um aumento salarial imediato de 6%, percentual máximo de desconto do vale transporte; o empresário, que deixaria de bancar a diferença; os estudantes, mais livres para locomoverem-se pelas cidades.
Bom para todos.
Não, não seria.
A rigor, antes de fazer as contas, é preciso dizer que uma passagem não custa os R$ 3 que se paga, por exemplo, em São Paulo. Mesmo andando em sucatas ambulantes como as de Brasília, o que se deixa na catraca é apenas uma parte do que custa, efetivamente, a passagem. Em alguns casos, é 70% do valor. Mas nunca é os 100%. O subsídio estatal garante o lucro dos donos das empresas.
Mesmo transportando quase uma centena de pessoas, o ônibus, por exemplo, tem custos altos, como diesel, peças, salários e encargos, impostos, desgaste do bem e uma série de custos, nunca muito detalhados, já que as planilhas que baseiam as tarifas não chegam ao grande público, para serem analisadas por todos. E, quando chegam, não primam pela clareza. Sem falar do metrô, que é ainda mais caro.
Com base nestas planilhas, as prefeituras e/ou os estados, administradoras do sistema de transporte público das cidades, estabelecem a tarifa de cada modal e o tamanho do que podem subsidiar. Algumas aportam mais, outras menos. Mas todas aportam alguma coisa, para salgar um pouco menos a conta do morador.
Aqui temos o primeiro ponto que complica: como as planilhas não são muito conhecidas, e como os administradores das cidades e dos estados costumam ficar muito próximos dos donos de empresas de ônibus, por serem eles grandes contribuintes na época das campanhas eleitorais - para não acusar ninguém de receber mala preta de suborno no resto dos quatro anos -, tem-se, aí, uma relação que começa com promiscuidade. Você ajuda a me eleger e eu fecho os olhos para as planilhas malfeitas.
A essa altura você já está pensando o seguinte: "Porra, Jorge, o que você está me dizendo me leva a ser a favor da tarifa zero. Só assim a conta sai do meu bolso e vai para o da prefeitura".
Ledo engano.
Se você transformar o transporte público numa imensa gratuidade, a conta sairá integralmente das prefeituras e dos estados, em alguns casos. Como o ente estado não gera receitas por produção, ele se sustenta do seu imposto. Logo, os R$ 3 de cada roletada em um ônibus terão de ser pagos pelo estado, que vai precisar buscar estes recursos.
Há duas maneiras para custear isso: ou cortará algumas alíneas orçamentárias (e inclua-se aí a segurança, a saúde e a educação) ou vai ter de aumentar impostos, como IPTU, IPVA, ISS, ICMS... A resposta é clara: vai ter aumento de imposto.
Bom, você pode me dizer que se aumentar o IPVA, a coisa tem certa justiça, pois quem tem carro vai pagar  a conta. Mas será que elevando só o IPVA resolve esta conta? Duvido.
Vamos pegar apenas o incipiente metrô de Brasília, que movimenta 130 mil passageiros por dia. Estudantes, idosos e pessoas com deficiências não pagam. Num corte absolutamente aleatório, vamos supor que este grupo represente 50%. Logo, são 65 mil pagantes dia, a duas viagens, 130 mil viagens por dia, o que dá uma receita de R$ 390 mil por dia. Apenas contando os dias úteis, uma conta de R$ 8,5 milhões por mês e de R$ 103 milhões por ano.
Se pegarmos esta conta e dividirmos linearmente pela frota de aproximadamente 1,1 milhão de veículos, temos aí mais R$ 93 de tributos anuais per capita. Como parte desta frota está isenta do IPVA pela idade, apenas para custear o metrô, cada dono de automóvel deveria pagar algo como mais R$ 120 por ano.
Como aqui o grosso do transporte de passageiros é por meio do modal rodoviário e como não há estatísticas disponíveis atualizadas - a mais recente, incompleta e que pode ser conferida neste link oficial (http://www.dftrans.df.gov.br/informacoes/estatisticas.html -, vou usar apenas a quantidade de usuários do sistema de vizinhança, uma gota no mar. Pelos dados de 2007, ele transportava, mensalmente, 340 mil passageiros. Aplicando o mesmo corte de gratuidades, só para financiar este pedaço do transporte rodoviário, seriam necessários mais R$ 3 milhões por ano, ou mais R$ 2,78 por carro no global, ou uns R$ 3,10, retirando os isentos do IPVA.
Já viu como pode ser, em Brasília, o tamanho da conta quando se colocar aí o rodoviário convencional. Eu toparia pagar a minha parte numa boa, mas e quem tem carro e uma renda menor? Mesmo que este aumento seja, como deve ser, proporcional ao modelo e ao ano do carro, para o motorista lá de casa, que tem um Corsa Classic, é mais pesado que para mim. Sem contar que é bem provável que este custo seja rateado em todos os impostos, e não apenas no IPVA, que fugiria muito dos 3% anuais. Aí a conta é de todos e cai em produtos, serviços... E esta não separa por modelo: aumento no ICMS de alimento ou da cerveja é igual em percentual para todos, mas acaba sendo maior para quem ganha salário mínimo que para mim.
Mas não é só. Cabe lembrar que a tarifa na catraca restringe, e muito, as viagens. Não é toda hora que se usa ônibus, por ser, evidentemente, caro para quem ganha pouco. Mas imagine se nada for cobrado. Você está em Copacabana, na Princesa Isabel, e precisa ir para a Rua Ronald de Carvalho, esquina com Barata Ribeiro. O que faz, usualmente? Atravessa a rua e anda. É mais rápido e é grátis. Com a catraca livre, sem custo, quem garante que muita gente não preferirá pegar um ou dois ônibus para chegar no mesmo destino? E cada viagem destas, que normalmente não seria feita, acaba sendo computada na conta coletiva. E todo mundo paga.
Para piorar ainda mais, a catraca livre deixa à vontade os pregadores religiosos de ônibus, os vendedores de balinha, os pedintes. Nada contra a atividade deles, mas cada um deles em um ônibus é mais um custo a ser pago. E por todos.
O que se precisa não é tarifa zero, na minha opinião, mas tarifa baixa. Bem em conta. Transporte a R$ 1, por exemplo. Claro que a conta vai continuar ser dividida, que há necessidade de elevar impostos, que pode acabar aumentando o IPTU. Mas desafoga o bolso do mais pobre e coíbe os abusos - pois não cdeia que, com o "despertar do gigante", acabaram os jeitinhos, as chicanas e os "farinha pouca, meu pirão primeiro". Eu acho ótimo que quem precisa mais possa se movimentar de forma melhor. Mas, para isso, não basta reduzir tarifa, é preciso, antes de tudo, melhorar o transporte. Não adianta  nada cortar preço e o cara entrar em ônibus imundo, atrasado, que quebra no meio do caminho e que polui o ar. É preciso fazer novas licitações, quando os contratos expirarem, mandar os maus operadores do sistema de transporte para o inferno e exigir muito de quem for oferecer o serviço.
Também não adianta nada lutar por tarifa menor e não exigir que as planilhas de custo do transporte tenham uma a clareza maior que esta daqui: http://www.dftrans.df.gov.br/images/PDFs/composicao%20das%20tarifas.pdf.
Cadê a transparência em cada item? E não pensem que é pau no GDF. É geral. Todos os governos têm planilhas muito parecidas com estas.
Está na hora de mais transparência e fiscalização. Sobretudo nas doações de campanha. Quer ônibus mais baratos? Comece não votando em quem aceita doação de empresas de transporte em suas campanhas.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Sobre Copa/Olimpíadas, ônibus, polícia, educação, saúde e políticos

Uma das coisas que o tempo fez comigo foi aumentar a minha cautela. Quando jovem, não era muito chegado a arroubos. Sempre fui mais reflexivo que a média. Não ia no "vai da valsa". Gostava de pensar um pouquinho a mais a respeito de um tema antes de me posicionar. Foi por causa disso, por exemplo, que jamais assinei ficha de filiação no PT, partido que conquistou gente muito próxima a mim. Preferi, esquerda que era, filiar-me ao antigo partidão.
Isso não me impediu de participar de vários momentos da vida pública. Fiz discurso na Brizolândia contra as tarifas de ônibus, estive em comícios como os das Diretas Já e do Lula, em 1989. Cobri campanhas presidenciais e depois fui protestar para tirar o Collor, em 1992. Na paz, na calma. Sem juvenilidade. Sem pôr fogo em lixeiras ou carros de reportagem. Exercendo meu direito de cidadão.
Hoje em dia, esta característica se acentuou. Sou cada vez mais cauteloso com tudo. E observador. Não sou mais "de esquerda". Nem "de direita". Gravito numa faixa que muita gente acha incoerente, mas que combina comigo. Concordo, com especial entusiasmo, com o sistema de cotas raciais e sociais para ingresso no ensino público, por entender a necessidade de se corrigir o histórico preconceito contra negros e pobres neste país. Sou favorável à bolsa família no conteúdo, mas contra a forma, que não entrega aos beneficiários nenhum tipo de qualificação profissional ou estudantil, limitando essa última ação, mal e porcamente. aos seus filhos. Sou favorável à livre concorrência, por entender que ela, se for realmente livre, sem combinação de preços, me beneficia. Sou pela livre iniciativa, desde que se garanta ao pequeno empreendedor a condição de disputa em pé de igualdade com os gigantes.
Este posicionamento de vida, contraditório para muitos, moderado para uns e conservador para outros, me deu calma mais do que necessária para avaliar a movimentação que ocorre hoje em várias capitais do País, incluindo Brasília. O que começou como uma revolta contra um aumento de 20 centavos - o que, percentualmente, dá 6,7%, um tanto salgado - foi, aos poucos tomando muitas caras.
No frigir dos ovos, o cesto de reivindicações populares centra-se, principalmente, nos seguintes pontos:

A) Realização da Copa do Mundo/Jogos Olímpicos
B) Transporte público
C) Educação
D) Saúde
E) Violência policial
F) A classe política

Coloquei, de propósito, os dois grandes eventos desportivos no topo da lista. Eles foram uma espécie de combustível para que se desenhasse a conscientização sobre os demais. Uma conscientização tardia.
Quando fomos escolhidos, em 2007 e em 2009, para sediar os os dois eventos, a festa foi geral. Quase um êxtase coletivo. Éramos primeiro mundo. Estávamos na rota dos grandes eventos, iríamos crescer, entrar definitivamente em outros tempos.
Lembra? Nâo? Veja a festa dos Jogos Olímpicos...


Para isso, bastava construir estádios, hotéis, abrir vias urbanas. Tudo o que é combatido pela brasileira Carla Toledo Dauden, radicada em Los Angeles e que gravou este vídeo abaixo, que já tem mais de 1,5 milhão de acessos:


Em 2007, a Carla, autora do vídeo acima, tinha 17 anos e, provavelmente, boa parte da consciência de hoje. E já podia ter feito seu filme, sobre as consequências da Copa, pois todas eram previsíveis. Bastava olhar o que ocorrera com os Jogos Panamericanos de 2007. E olhar um bocadinho para as exigências que a Fifa faz a quem quer uma Copa.
Aos candidatos, ela encaminha um documento chamado Caderno de Encargos mostrando, com detalhes, tudo o que precisa para realizar uma Copa em um país. Ali fica claro que a brincadeira não se parece nada com a dos anos 1950, quando sediamos a competição pela primeira vez. Mas a mesma Fifa, que é dona do espetáculo e exige o que quer, alerta que o ideal é fazer negócio em nove estádios. Foi assim, por exemplo, na Alemanha.
Mas a classe governante, pela ganância, preferiu realizar em 12 cidades. Dava para desviar mais. Aí está a primeira chave da revolta: quanto vai sair a festa? E quem vai estar nela?
Quem já foi a uma Copa sabe que o preço do ingresso é caro. Não só na Copa do Mundo. Um jogo de Champions League é caríssimo. Motivos? Ali estão os melhores, o estádio é confortável e, ao contrário do que sempre foi, o futebol em campo deixou de ser programa popular. Certo ou errado, quem vive este meio decidiu, há muitos anos, que lugar de povo é em casa, vendo TV e recebendo toda a propaganda possível. No estádio, só quem pode pagar.
Não era assim no meu tempo de jovem. Mas isso também mudou. Acho que foi para pior. Mas é preciso ver onde isso vai chegar.
Ao longo dos últimos seis anos, fomos assistindo a um despautério de gastos com a Copa. Não por culpa do evento em si, que é, como disse acima, elitista e caro. Mas nós, como país, o queríamos. Queríamos ver a Copa. Até que, com o advento da Copa das Confederações, a ficha começou a cair: o negócio não é para todo mundo. E nem dá para descolar um troco, pois os entornos dos estádios são, também, administrados pela Fifa.
Caramba, privatizamos, sem querer as ruas do país.
Não, privatizamos querendo. Isso tudo estava lá, quando nossos governantes se dispuseram a trazer a Copa. E a culpa não é da "petralhada". Com o cenário daquela época, todo e qualquer sujeito que estivesse no comando iria querer a Copa e os Jogos Olímpicos. Todos os donos dos palácios ambicionavam e ambicionariam surfar na crista da onda do Brasil à prova de crises e marcar seu nome na história.
Só esqueceram-se de convidar o povo para a festa, de alguma forma. Pior: avisaram que iria ter uma festa paralela, mas não realizaram nada. Falaram em legado, em transporte de qualidade, em muitas outras soluções de primeiro mundo, como BRTs, VLTs e outras siglas pomposas, quase todas em inglês. E não realizaram nada.
Fizeram estádios. Caros, superfaturados. E contrariando tudo o que disseram. De infraestrutura, nada.
Na época da Copa, o papo era de Parcerias Público-Privadas (PPPs) para construí-los. O governo não colocaria um centavo. Contaram uma bela mentira. Ninguém se mexeu. Mas o contrato estava assinado e era preciso fazer a Copa. Então...
Então socaram todo dinheiro possível. A despesa já bateu em R$ 28 bilhões, segundo números oficiais (http://esportes.terra.com.br/futebol/custo-para-copa-de-2014-sobe-10-e-chega-a-r-28-bilhoes,f37d3d49d455f310VgnCLD2000000ec6eb0aRCRD.html), mas pode acabar em R$ 33 bi. E essa é a conta só da Copa. Falta a dos Jogos Olímpicos.
Festa cara para um país com saúde precária, educação sucateada e transporte público que é um caos.
E aqui vou emendar o ponto de contato com os protestos, que é a chamada Guerra do Transporte, como alguns jornais apelidaram o levante que começou por São Paulo e chegou a vários estados, carregando nele cenas lindas e lamentáveis, protestos conscientes e destruições babacas.
Ao aumentar em R$ 0,20 a tarifa em São Paulo, o neófito prefeito Fernando Haddad, cujo currículo ostentava vários problemas em seguidas provas do Enem, acendeu, sem saber o pavio da revolta. Não que ela não fosse estourar por outro motivo. Mas os 6,7% a mais (mesmo que não diretamente na carteira do povo, já que, como se sabe, o transporte para o trabalho é custeado pelos empregadores, com desconto até 6% dos salários, e se estes não aumentam, o percentual retido não varia), em uma hora em que pipocavam notícias de estádios com gasto acima de R$ 1 bilhão era a gasolina que faltava para o primeiro coquetel Molotov. Ainda mais em tempos de carestia acentuada, trazendo de volta um fantasma que nenhum jovem conhece: a inflação.
No bojo desta insatisfação (festa cara, sem minha presença, aumentos goela abaixo), a cabeça se levanta, olha em volta e percebe-se que, com a saúde segue precária (e, pior, com hospitais privados e os caríssimos planos de saúde atendendo de forma ridícula), a educação que segue aprovando o aluno sem que ele  aprenda e muitas outras mazelas, a hora é de ir para a rua. E sem nenhuma bandeira específica, mas com todas na mão.
O resultado de uma dispersão grande de insatisfações foi duro. E a repressão, como sempre violenta. Sem tiros de chumbo, mas com bombas, balas de borracha e cassetetes. A receita que passa de geração em geração, de PSDB para PT, de Arena para MDB.
Fora da festa, sem direitos ou garantias, apanhando, sem saúde, sem educação decente, sem diretriz, o caminho para o protesto anárquico e para o surgimento de todo o tipo de descontentes, de esquerda à direita, era inevitável. Viu-se, então, a imprensa mudar de lado, como sempre; a polícia deixar as ruas; e o poder central de todos os lugares se perder.
Ao fim disso, começam a pipocar as "lideranças". Ainda sem cara e com um discurso confuso. Repare neste vídeo abaixo, postado ontem:


Coberto com a máscara usada no filme "V de Vingança", ele desfila as primeiras causas. Cinco causas. Não é mais uma batalha por baixar tarifas, mas para "construir um novo Brasil". Sem polêmicas religiosas ou ideológicas e sem conotação partidária, mas "causas de cunho moral que são unanimimente aceitas" (como se isso fosse possível). Listo-as abaixo:

1) Não à PEC 37 (a que deixa o MP fora de investigações)
2) Saída de Renan Calheiros da presidência do Senado, por consequência do Congresso Nacional
3) Investigação e punição de irregularidades nas obras da Copa, pela PF e MPF
4) Lei que torne crime hediondo a corrupção no Congresso
5) Fim do foro privilegiado

Uma das exigências, feitas por um líder mascarado, é inexequível. Pela mesma constituição que ele defende, é impossível que PF e MPF punam as irregularidades nas obras da Copa. Podem investigar e denunciar, mas punir, nem pensar.
Todas as pedidas, reparem, são de cunho político. Onde está o ganho social? A cobrança por melhoras no transporte público? A exigência de gastos com saúde e educação para que se resolvam os problemas estruturais deste país?
Em lugar algum. A mira está em um único ponto: o Congresso. Ali foram identificados os inimigos: os parlamentares. Os mesmos que foram eleitos há três anos, por voto popular, e que de lá devem ser removidos, por não prestarem (e a maioria não presta mesmo), pelo mesmíssimo instrumento.
Eis aí o cerne da coisa. Tudo o que ocorre hoje é pano de fundo para uma mudança política. O que os líderes mascarados, os manifestantes, o povo (que não está nestes eventos, pois, pelo perfil dos manifestantes, 84% é apolítico e 71% tem nível superior), os jovens entusiasmados e até eu queremos é uma imediata reforma política. Uma reforma que permita maior participação, via referendos, da população em decisões, como, por exemplo, a organização de uma Copa ou Olimpíada - pois elas não são as culpadas diretas pelos despautérios, mas sim o jeito como as coisas são feitas, goela abaixo, por qualquer governo deste imenso país..
Essa pode ser a grande transformação do País: virar uma democracia popular, ouvindo a gente deste Brasil. Não só de quatro em quatro anos, mas sempre que for necessário. Mas, para que isso chegue, será preciso agir diferente. É realizar a Copa e as Olimpíadas, mas exigir, com civilidade, que haja uma contrapartida social para tudo o que foi gasto, com a utilização, por exemplo dos caríssimos aparelhos pelos alunos das escolas públicas. É manifestar-se sem depredar o que é público ou privado. É entregar os vândalos à polícia, para que esta os prenda e a Justiça os processe. É agir com absoluta cidadania, sem mais ceder espaço às pequenas transgressões individuais, como dar caixinha ao guarda ao fazer uma contramão. É votar com consciência, não por cabresto ou interesse. E, sim, exigir mudanças. As ruas devem ser ocupadas, mas com foco, com diretriz e com pedidas exequíveis e consensuais.
É o chamado pacto social.
Por ele, por exemplo, se um referendo apontar que não devemos proibir o porte de armas, como foi votado anos atrás, todos devem aceitar. Se outro referendo apontar a legalização do aborto, também. Mas também temos de acatar  a decisão caso a mesma sociedade decida que ele continue proibido. Ou se a população, em sua maioria, votar em favor do Estatuto do Nascituro. Porque é da democracia.
A não ser que tudo isso seja uma grande orquestração, movimentada por 250 mil pessoas (pouco mais de 0,12% da população) para controlar, de acordo com seu bel prazer, os destinos e as opiniões de 199.750.000 brasileiros. E o nome disso é um só: ditadura.
No aguardo, ainda preocupado com o rumo da coisa, sigo de olho, desconfiado. Ainda pode dar uma grande calamidade.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

O jornalista e a mídia são tão omissos quanto se pensa?

O surgimento das redes sociais foi uma maravilha. Apesar dos excessos em seu uso, com uma presença e uma importância exagerada em nossas vidas, elas podem ser muito positivas e importantes para as pessoas. Parentes e amigos do passado puderam reaparecer. A disseminação de informações ficou mais ágil. O contato, mais dinâmico. Muita coisa melhorou.
Mas as redes sociais, como a mãe delas, a internet, trazem vícios de origem. Nelas, algumas mentiras ganham contorno de verdade, repetidas à exaustão pelos mais ingênuos e, principalmente, pelos manipuladores de plantão.
E eis aí seu risco.
Uma destas mentiras é sempre recorrente: as mídias sociais desmoralizam as empresas tradicionais de comunicação e trazem a verdade à tona.
Mentira grossa. Deslavada. Mal intencionada.
As empresas tradicionais de comunicação são, como se sabe, mais ligadas ao espectro neoliberal ou de direita. São assim há décadas. Ninguém que compra O Globo, vê a TV Globo ou ouve a CBN espera algo diferente da opinião de Miriam Leitão, Merval Pereira, Arnaldo Jabor. Quem lê, ouve ou vê quer estas opiniões, seja para ajudar a forjar a sua, seja para se irritar com o que eles falam - porque tem gente que dá audiência só para ficar p... da vida.
O mesmo ocorre com quem lê Veja, Estadão e Folha.
No campo contrário, a gente sabe que a turma mais identificada com os ideários da esquerda corre para veículos como o Brasil 247, a TV Record, a Carta Capital e outros. A receita é a mesma. O que o leitor quer está lá, seja por identificação, seja por indignação.
Como isso é assim desde o começo do século passado, fica difícil, para mim, compreender porque pessoas cujo pensamento político não batem com os da TV Globo e de O Globo se revoltam tanto com o que a emissora exibe e o jornal publica. Por que, meu Deus, o Jornal Nacional, o Faustão, a novela das 8 e a Míriam Leitão o irritam tanto? Por que não muda de canal, não compra outro jornal, não sai do site daquela empresa?
Mas eu sei a resposta: porque lá, mesmo que seja para sua indignação, você acha, contado por jornalistas de qualidade, um dos ângulos de uma história. E se você for minimamente esperto, vai juntar os vários ângulos das diferentes coberturas e estabelecer a sua verdade.
É assim, por exemplo, que eu faço. Não porque a "mídia quer controlar o que eu penso", pois isso é mais outra mentira. Faço deste jeito porque já cresci e sei que a melhor opinião é a que é pensada exaustivamente, depois de olhar os mais diversos ângulos.
Inclusive o ângulo proposto pelas mídias sociais.
Lá, se você não for um bitolado, vai encontrar milhares de fotos, opiniões e mensagens. Nenhuma delas contém a verdade. Existem uma série de verdades, formadas a partir do jeito que se observa um fato. E quanto mais você o observa de forma isenta e distanciada, sem arroubos de paixão, mais fácil fica de chegar perto de uma verdade mais sólida.
Vou pegar como exemplo o confronto na porta do Mané Garrincha no sábado.
Em relação à mídia, por exemplo, a crítica é que "a cobertura é uma vergonha". Que a "mídia" omite fatos importantes. Que a imprensa "manipula a consciência".
Mas que cascata é essa?
Por acaso este pessoal sabe, por exemplo, qual foi o contingente de repórteres deslocados para a cobertura daquele evento? Sabe quantos seriam o ideal? Sabe como eles deveriam ser orientados?
Duvido. Mas logo esclareço: a cobertura de um fato como aquele conflito na porta do estádio precisaria de, pelo menos, dez repórteres e o mesmo contingente de fotógrafos. Para pegar todos os ângulos: o de quem foi para protestar na paz, como vi vários; o de quem foi lá para provocar quem queria assistir ao jogo, xingando de "rico, babaca, filho da puta e alienado" quem pagou 38 reais para ver o jogo; o de quem foi para lá fazer performance, vestindo trajes teatrais e desempenhar um papel em favor dos "removidos" sendo que, em Brasília, ninguém foi removido; do PM que babava de vontade de acertar umas porradas nos garotos, identificando neles a classe que o oprime; do PM que queria estar dentro do estádio, de folga, torcendo pelo Brasil; de quem foi para o jogo apoiando o protesto; de quem foi para o jogo achando que o protesto era coisa de "maconheiro da UnB"...
Se eu continuar, vamos ficar o dia todo expondo perfis.
Já deu para sentir que jornalismo não é mole. Parece mole: fala com uns caras espancados pela PM, dá a versão dele e faz "justiça social".
Aí eu pergunto: isso é jornalismo?
É jornalismo não noticiar que um PM arrebentou a própria viatura? Mas quem viu o PM arrebentar a viatura? Foi um jornalista? Duvido, amigo. PM jamais faz isso na frente de quem vai estampá-lo na capa de um jornal.
É jornalismo, por exemplo, omitir que depredaram agências bancárias em SP? Mas quem manda o manifestante ser exibido a ponto de fazer isso na cara de um repórter?
Por isso eu tenho a pior profissão do mundo, com mais gente assassinada que qualquer outra. Eu e meus colegas (menos eu, que hoje vivo de comunicação, mas fora de uma redação) temos de ter o dom da onipresença, relatar apenas o que um dos lados quer (quando temos o dever de ouvir ambos) e ainda levar na cara que minha linha de pensamento é a mesma da empresa que eu trabalho.
E, pior, ver todos os dias minha profissão ser esculhambada por um monte de caras que não sabe fazer a deles, mas que diz saber como nós devemos fazer a nossa.
Conselho final: leiam muito. Leiam de tudo. E pensem: um repórter é capaz de ver apenas o que está na frente dele. As empresas filtram o que chega. E sua timeline tem mais mentirosos do que você pensa. Junte isso, pense muito e boa sorte.

terça-feira, 11 de junho de 2013

A comunicação vive sua agonia

Completo, em agosto, 23 anos de formado em jornalismo. Desde um ano antes, milito neste front. Excetuando-se televisão, já fiz quase tudo o que pode ser feito em termos de jornalismo e comunicação. Fui repórter de rádio, jornal e veículos corporativos. Fui dono do empresa de comunicação. Fui assessor de imprensa de empresas e entidades empresariais. Fui editor de jornal. Editei quase tudo: esporte, política, economia, mercados, cidades, cadernos temáticos. Comandei a redação de três jornais. Fundei dois jornais que são campeões de circulação. Fundei um portal de notícias. Trabalhei no Rio, em Minas e em Brasília. Hoje, sou diretor de comunicação em uma organização empresarial.
Ou seja, experiência eu tenho de sobra.
Por tudo isso, posso dizer, sem medo de errar, que o jornalismo e a comunicação estão em agonia.
Não é o jornal impresso. É o jornalismo em si. A atividade, assim como a comunicação. E não é por causa da internet, nem das redes sociais. Nada disso eu vejo como ameaça.
São dois os motivo que fazem o jornalismo e a comunicação agonizarem: a importância exagerada que se dá aos palpiteiros e a falta de qualificação deles.
O tema não é novo e assola a vida de todo mundo que trabalha neste mercado, mas parece que, nos últimos tempos, a coisa piorou acentuadamente. Sempre tem um "sábio", que jamais militou no mercado de comunicação, para aconselhar e sugerir caminhos, linha editoriais e prioridades a quem tem décadas de vida neste negócio, a empresas estabelecidas e com capacidade comprovada e a profissionais que estudaram e trabalham com rigor e afinco, todos os dias, para comunicar.
Todo mundo que trabalha em comunicação vive isso. Eu não sou imune, ao contrário. O problema é que, nos tempos atuais, com o advento da internet, tem gente que sabe mais que você, que estuda e trabalha neste negócio há quase 30 anos - ou mais, dependendo da idade do profissional. Basta surfar bem nos programas, conhecer meandros de como se faz uma postagem ou a upagem de um blog e mexer na maldita (e incorreta) Wikipédia e, pronto, lá vem um mané sugerir absurdos, como se conhecesse mais que você, que deu a vida, parte das úlceras e dos cabelos por esta atividade.
Pergunte a quem milita nisso se a palpitada não cresceu... E se, o que é pior, não passaram a ouvir mais... Pois é, hoje, para entender de comunicação, parece que basta ter uns 19 anos e possuir conta na trinca Facebook-Instagram-Twitter que está tudo certo. Lá vem o sábio te aconselhar, palpitar e pedir a inversão das prioridades. Construção de imagem? Tempo de maturação? Linha editorial? Bobagem. O geniozinho com acne sabe mais do que você.
O que deixa qualquer um que milite na área irritado é o fato de a comunicação ser coisa muito séria, mas sempre encarada como menor.
Pagar por uma ilustração?
Você faz isso naqueles programas.
Pagar um diagramador?
Hoje qualquer um usa um InDesign.
Contratar um fotógrafo?
Por favor, use seu iPhone.
O pior é que essas teses absurdas vão encontrando ressonância. Recentemente, o Chicago Sun Times extinguiu sua editoria de fotografia, demitindo 28 profissionais, e mandando seus repórteres tirarem foto de iPhone. Não lembra? Duvida? Link aí, ó...
http://g1.globo.com/economia/midia-e-marketing/noticia/2013/06/fotografos-do-chicago-sun-times-protestam-contra-demissoes.html
E se em redação a coisa está assim, nem imaginem como anda no mundo corporativo. É uma improvisação só. Bagunça mesmo. As mais organizadinhas têm suas assessorias e agências de publicidade. Viva elas! Mas, para muitos, isso é "um luxo". Logo, sua comunicação é um lixo.
Domingo pensei seriamente mudar de ramo. Queria uma lotérica num shopping, para me trancar atrás da portinha e esquecer que existe comunicação e jornalismo. Assustei com o preço pedido: R$ 250 mil.
Segunda me assustei mais, ao ouvir certas coisas sobre comunicação. Mas não vem ao caso. Não foge muito do diapasão do que eu narrei acima.
Sinceramente, vou começar a juntar dinheiro para comprar a lotérica. Não que seja uma tarefa menor, ao contrário. É que loteria tem futuro. Todo mundo joga, pois todo mundo quer sair do buraco. Comunicação, não. Todo mundo quer levar ela para o buraco. Vou sair fora enquanto é tempo.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Patrocínios oficiais no mundo da bola

Ficar velho é um problema. Você vai vivendo, vendo as coisas, aprendendo algumas, armazenando arquivos em outras e sempre refletindo. Nasci há 48 anos e, portanto, já vivi tempos áureos e sinistros como vascaíno. A fase hoje é dura, mas ser Vasco entre 1960 e 1980 foi tarefa para fortes. Porque, neste tempo todo, só entraram em São Januário dois Cariocas (70 e 77), um Brasileiro (74) e um Rio-São Paulo (66). No Brasileiro, ninguém levava fé e o Rio-SP teve mais três campeões.
Ruim né? Muito.
Nasci nesta época e me forjei vascaíno com a dificuldade. Isso me fez ser crítico, mas torcedor. Primeiro eu torço, mas sempre com um pé no sofrimento. Não confio no time atual, acho que tem grande possibilidades de cair, mas é a última coisa que eu quero. Por isso, quando vejo o jogo, assisto de pé, ao lado da TV. Talvez na esperança de, se a bola sobrar, eu meter na rede. Ou dar um bicão e tirar da grande área.
Por conta da idade, apesar deste amor todo, uma certa moderação me invade. Não posso ser entusiasmado de lá ou de cá. Preciso ser mais neutro. Lições que vêm com os cabelos brancos.
Mas neutro com o quê? Com a questão do patrocínio.
Em primeiro lugar, como manda meu receituário de vida, pensei bem antes de escrever sobre a questão do patrocínio público aos clubes.
Em tese, mas só em tese, ele não deveria existir, embora por mais de duas décadas a camisa do maior rival tenha ostentado um produto de uma empresa de capital aberto, cujo acionista principal era o governo federal. A marca Lubrax (óleo que nunca entrou no motor do meu carro) financiou os times do rival durante anos. Ganhou, perdeu. Ficou ali, enquanto pôde, mas por um motivo em especial: exposição da marca. Se o espaço fosse ruim, mudaria de time. Botafoguense, o Zé Eduardo Dutra queria tirar e pôr no time de coração. Foi derrotado pelos números e calou-se.
A estratégia foi levada para outros países e a Petrobrás patrocinou River Plate, Racing e outros clubes argentinos. Não houve grita.
Ou seja, patrocínio oficial não é novidade, nem foi inventado agora. Isso é antigo. E se repete de muitas maneiras. As prefeituras do interior costumam dar uma grana aos times das cidades que participam de competições, seja para expor a marca, seja para badalar eventos. 
Agora é a Caixa. Já está no Corinthians, no rival, no Coritiba e negocia com o Atlético-PR, Figueirense, Avaí, São Paulo, Cruzeiro e Goiás. Nada mais natural que incluir-se aí o Vasco.
E por que?
Porque o Vasco é um time tradicional, porque sua camisa tem força e porque é interessante para uma instituição financeira que briga por um mercado chamado empréstimo compulsório com o BMG, que expõe sua marca em vários times. Alavancar esta carteira ajuda a limpar a cagada feita na compra do Banco Panamericano. E usar os grandes clubes é uma boa para isso. Perguntem aos economistas e marqueteiros se o que eu estou escrevendo é tolice.
A rigor, o governo não deveria nem ser anunciante. Deveria apenas usar os tributos em prol da sociedade. Mas o governo (instituição) é anunciante. E forte, único até, em muitas praças. Mudar isso é decretar falência de times e órgãos de imprensa país afora. Não há iniciativa privada que aguente a conta de todos os patrocínios de clubes, esportes, eventos e anúncios de rádio, TV, jornal e internet.
Por fim, cabe esclarecer que Banco do Brasil, Caixa, Petrobrás e outras não são "governo". São empresas controladas pelo governo. Disputam mercado. Precisam de clientes que não sejam só conta salário. Devem dar lucro. Algumas precisam remunerar seus acionistas. Investem em esporte para desenvolver o social do País (algo que todos os clubes fizeram por anos, sem nenhuma contrapartida, com suas escolinhas e divisões de base) e rejuvenescer suas marcas. O vôlei deu ao BB uma imagem moderna. Não foi por acaso que ele tirou outros gigantes deste esporte que, quando começou a captar patrocínio, era dividido pelas privadas Atlântica-Boavista, Bradesco e Pirelli.
Por tudo isso, se a Caixa fechar, será muito bem-vinda. E espero que seja uma parceria de anos. 
Pela atenção, obrigado.