terça-feira, 11 de setembro de 2012

O Uruguai e a Chatuba - Ou a pequena diferença entre José Pepe Mujica e Juninho Cagão

Foram enterrados hoje os corpos dos seis rapazes mortos na chacina de Parque de Gericinó, em Mesquita (Baixada Fluminense), ocorrida no final de semana. Christian Vieira, 19 anos; Victor Hugo Costa, Douglas Ribeiro e Glauber Siqueira, 17; e Josias Searles e Patrick Machado, 16 anos, não tinham envolvimento com o tráfico e foram mortos quando iam para uma cachoeira vizinha ao Campo de Gericinó, área do Exército que teoricamente deveria assustar criminosos. 
Os rapazes não foram só mortos. Sofreram muito antes dos tiros. Foram espancados, torturados e seviciados. Seus corpos foram desovados em lençóis, nus e amordaçados. 
Mas o que os condenou à morte? 
Eu respondo: o fato de morarem na Favela Ás de Ouro, vizinha e rival da Favela da Chatuba. 
Uma pessoa que mora na região explicou o problema com uma clareza inacreditável: 
"Sou cria (nasci e cresci) na Chatuba onde meu pai e muitos familiares ainda moram. Vamos aos fatos:A Chatuba, há mais de um ano, está em guerra com traficantes da Favela Ás de Ouro, onde os jovens moravam.Eles iam para a cachoeira e tem que passar pela área da mata onde fica a Chatuba. Eles estavam ouvindo proibidão com músicas da Favela Ás de Ouro, que é da facção A.D. A. (Amigos dos Amigos). A Chatuba é CV (Comando Vermelho). Os caras da Chatuba já estavam cheios de ódio porque os caras do Ás davam tiros do outro lado do rio quando eles colocavam baile. Aí já viu né?!"
É esse o motivo para tamanha bestialidade. E que pode incluir aí o pastor Alexandre Lima, um aspirante a PM e José Aldecir da Silva, que acompanhava o pastor e desapareceu.
Por conta disso, o senhor Remilton Moura da Silva Júnior, o popular Juninho Cagão, dono da Chatuba, condenou todo mundo à morte. E passando por cima do poderio do Exército Brasileiro. Quem manda ali é ele. 
Claro, será caçado e morto (ou preso), para satisfazer a nossa sede de Justiça. Tal como os rapazes mortos, vai virar estatística. Só.
Fatos como estes costumam ser encarados apenas com a frieza dos crimes. Mas escondem outros fatos mais perversos. Por trás disso tudo mora o verdadeiro problema: o consumo de drogas. Por favor, sem inocência: o tráfico não é a raiz do problema. É a consequência perversa dele. Só há tráfico e toda a sua estrutura porque alguém quer, precisa e paga pelas drogas. Se não pagasse ou não quisesse, não haveria tráfico.
Durante muito tempo, paguei por drogas. Fui um financiador desta situação. Há nove anos, deixei de pagar aos criminosos. Não por consciência, mas por sofrimento pessoal. O usuário e o dependente químico são tão egoístas que metem a sociedade nisso para satisfazer seus prazeres (ou dores) e só saem porque o seu calo aperta, não porque apertou o de todo mundo.
Portanto, banir as drogas é uma atitude impossível. Nada fará com que o ser humano deixe de se drogar. Ele acha isso seu “direito”. Mesmo destruindo a família, não abre mão da sua “liberdade”. Escraviza-se ao traficante e escraviza a sociedade por puro egoísmo. E só vai largar se incomodar muito a ele mesmo.
O fato de o ser humano ser, essencialmente, o predador da própria sociedade, no entanto, não deve conferir à sociedade o direito de ser predadora do ser humano. Ao contrário: deveríamos humanizar a besta fera chamada Gente. Mas, em vez disso, a besta fera vem tentando corromper a sociedade, para satisfazer seus desejos.
É o que está ocorrendo no Uruguai, neste momento.
Mujica, o Juninho Cagão da política uruguaia
Ali se discutem três projetos para legalizar a produção e venda de drogas. O consumo já é livre e feito na frente da polícia, como mostrou reportagem publicada na Revista O Globo, no domingo, que foi conferir in loco o que ocorre no vizinho ao sul, a outrora Província Cisplatina. Pecou em não ouvir as entidades que combatem as drogas e centrar sua atenção apenas nas autoridades e viciados. Mas não é uma reportagem malfeita, pois me fez pensar.
Primeiro, publiquei no Facebook minhas inquietações. Agora, estendo a conversa para cá.
A legalização de toda a cadeia produtiva da maconha transformará o presidente uruguaio, José Pepe Mujica, um outrora respeitado membro da esquerda, numa espécie de Juninho Cagão bem-amado. Será bem-amado porque todos os maconheiros do Cone Sul verão nele um “messias”, que criou o primeiro lugar onde a maconha terá chancela do estado, atestando sua lisura e qualidade, tal como os cassinos estatais que proliferam nas ruas de Punta.
Como a maconha embaça a visão, esse pessoal não consegue enxergar algumas realidades. A primeira delas é que o Uruguai, ao legalizar a produção e venda de drogas, terá de plantar, colher, controlar e distribuir a maconha. Será, oficialmente, o primeiro narcoestado do mundo. País cuja agropecuária é sua atividade principal, o Uruguai tem campos para plantar a erva. Resta saber se o solo será bom para isso.
Se for, não é difícil prever que acabe havendo uma migração das culturas atuais para a da maconha, teoricamente para abastecer o mercado interno. Aparentemente, isso não deve trazer grandes problemas, já que da população de 3,5 milhões de uruguaios, aproximadamente 75 mil fumam maconha, e em qualquer lugar, como mostrou a reportagem de O Globo.
Mas ninguém tem certeza que o número é exatamente este. Muito usuário de maconha morre de vergonha de admitir que é maconheiro, embora este pudor venham sendo diluído nas marchas que pedem a liberação da droga. Dei-me ao trabalho de fazer algumas contas. Pelo plano oficial, cada uruguaio pode consumir 40 gramas de maconha por mês. Multiplicando por 75 mil uruguaios, isso dá 3 mil quilos mensais. Como vai ser preciso certo estoque, é de se supor que a superfície agricultável dedicada à maconha seja significativa.
Agora vem uma pergunta: o que fazer caso metade da população uruguaia, ou 1.750.000 pessoas decidirem aderir à compra da erva? Porque, aí, o salto é para um consumo de 70 mil quilos por mês, fora os estoques reguladores. Sei não, mas acho que aí vai se abrir o segundo problema: haverá uma grande troca de culturas no campo pelo plantio da maconha. E isso pode causar desequilíbrios na balança comercial uruguaia. Ou então, o que é pior, caso não estabeleça esta rede de plantio interno, o Uruguai terá de importar a droga.
E aí vem uma série de questões: o país passará a transacionar com cartéis de traficantes internacionais? Ou incentivará o Paraguai, hoje principal fornecedor clandestino de maconha para lá (cerca de 80% do mercado), a aderir a esta aliança, criando não um, mas dois narcoestados no âmbito do Mercosul? E, se isso ocorrer, o que o Mercosul fará com estes dois países (um atualmente afastado)?
Uma coisa que me incomoda muito nesta história é o fato de países subdesenvolvidos preocuparem-se com questões como estas, de distribuir e garantir a pureza da maconha para os usuários/dependentes. Será, me pergunto, que não é mais eficiente governar para fazer o seu território progredir? Será que não é melhor, em vez de mobilizar a nação para plantar, colher e vender maconha, fazer um plano de metas para desenvolver a agricultura e a indústria? Será que não é melhor investir no turismo que no narcoturismo?
Alguém vai levantar a mão e dizer que o plano uruguaio é só para os cidadãos do país e que eles não querem os tais narcoturistas por lá. É isso que afirma Julio Calzada, secretário nacional de drogas do Uruguai. Mas quem garante que será deste jeito? Para muita gente, 40 gramas mensais é uma boa quantidade. Para outros, muito. Para terceiros, pouco. O mercado das drogas se ajusta e quem tem mais repassa a quem tem menos, em uma atitude de tráfico, entrando ou não dinheiro no negócio. E se um contingente maior de pessoas, incluindo-se nelas os não usuários, começar a comprar a droga, para onde vai o excedente? Para o tráfico. E ainda: nada impede que a diferença entre 1.750.000 uruguaios e 75.000 dependentes, ou seja, o contingente de mais de 1.600.000 pessoas reivindique o direito de comprar as 40 gramas, para depois batizá-las e vendê-las a gringos ávidos por um fumo. Temos aí o tráfico e o narcoturista, mas com a chancela estatal na dola (quem já usou drogas sabe do que eu estou falando).
Para quem usa só maconha, a proposta uruguaia parece perfeita e um golpe no narcotráfico. É uma falácia. A proposta concentra seus esforços na maconha e despreza dois fatos: há usuários de outras drogas no país e há os chamados dependentes cruzados, que podem utilizar, por exemplo, maconha e cocaína. Estes seguirão financiando os traficantes, para comprar o pó. E, assim, eu pergunto: como vai acabar o poderio deles, que cresce no Uruguai, se há consumidores de outras drogas? E qual será o capítulo seguinte? Será legalizar a cadeia produtiva da cocaína também?
É ingênuo achar que a legalização de uma droga acaba com o uso das demais. Se fosse assim, não precisaríamos legalizar nenhuma delas. Afinal, já temos duas legais: álcool e tabaco. E as pessoas seguem procurando novas drogas, cada vez mais poderosas. Quer um exemplo disso? Em Portugal, onde o uso foi descriminalizado, aumentou o consumo de cocaína e as mortes por uso de drogas. O bicho Gente usa mal esta tal de liberdade.
O que me incomoda nesta história uruguaia, e fazendo um paralelo com a situação da Chatuba, é que o poderio dos traficantes está sempre sendo associado apenas ao negócio. Não é verdade. O poderio vem de dois tripés: o que o usuário paga a ele pela droga e o que ele paga ao corrupto, para ter o salvo-conduto e as armas, que ele também usa em assaltos a banco e sequestros, atividades que o deixam mais poderoso. Não vejo como legalizar a cadeia produtiva e liberar o consumo vai combater o corrupto que recebe propina.
Há quem defenda, ainda mais ingenuamente, que se adote uma saída doméstica, liberando o plantio de maconha. Dá vontade de rir. Quem vai controlar a produção? Quem garante que, se houver excedente das tais 40 gramas, não haverá venda clandestina (tráfico)?
Para ir chegando ao fim, é sempre bom lembrar que experiências liberalizantes deram tão errado quanto às repressivas. Em Letten, na Suíça, a coisa foi liberada e saiu do controle. O lugar precisou ser fechado. Consumo legal é autorização para uso. Legal ou ilegal, em países ricos ou pobres, o consumo explode em certas épocas. Pode ser que isso esteja mais ligado à falta de perspectivas humanas do que a outros comportamentos. Os anos de trabalho e de uso de drogas me fizeram entender que a imensa maioria dos dependentes está anestesiando suas dores ao usar drogas. Dores pessoais ou sociais. Uma sociedade onde seu destino está definido, para o bem ou para o mal, te deixa vazio e sem perspectivas. E tome droga, em vez de procurar novas perspectivas.
Outro dado, este científico: a Associação Brasileira de Psiquiatria classifica a maconha como droga, alerta que ela causa dependência como qualquer outra e revela que seu uso deixa mais lento o mecanismo cerebral responsável pela tomada de decisões. Por isso é tão difícil admitir a dependência química em maconha e por isso é tão difícil largá-la. E quem diz isso é a comunidade científica.
Enfim, diante disso tudo, por que um país se interessaria em entrar neste negócio, atendendo aos reclamos de apenas 2% de sua população (o universo de 75 mil maconheiros no âmbito de 3,5 milhões de pessoas)? Por que legalizar a cadeia produtiva de uma droga que afeta justamente o mecanismo cerebral da tomada de decisões?
Não tenho dúvidas: para criar e comandar uma nação de zumbis, sem muita vontade própria. Um povo drogado é um povo mais fácil de manipular. E ainda com uma vantagem em relação à dentadura, à camiseta e ao bolsa família: em vez de pagar, o estado (e quem o governa) recebe uma grana preta. Numa conta conservadora, se o grama da maconha custar R$ 5, a produção de 3 mil quilos vai dar uma receita mensal em torno de US$ 7,5 milhões. Estimando um lucro de 50%, são US$ 3,75 milhões. E se a venda chegar à metade dos uruguaios, o bolo do faturamento salta para uns US$ 175 milhões, com lucro de US$ 86 milhões. Mensais...  E se houver tráfico para narcoturistas, o dinheiro deles acaba entrando para a economia, pois traficante também gasta. Isso pode girar quase três vezes os números que estimei acima, numa conta conservadora.
Um negoção, não?
Pois é, por isso que o Mujica e o Juninho Cagão são, em linhas gerais, a mesma coisa. Ambos só ligam para o seu quintal, querem lucro e quanto mais alienados e drogados, melhor para eles. Afinal, o plano de Mujica não fala em momento algum na criação de uma rede de clínicas de reabilitação de dependentes.
A diferença é que um vai acabar morto ou preso. O outro, periga ser reeleito. 

terça-feira, 21 de agosto de 2012

O gigante imortal de 114 anos

A paixão avassaladora de milhões de brasileiros nasceu há exatos 114 anos. 
Surgiu da iniciativa de quatro caixeiros, hoje denominados comerciantes. Eram eles Henrique M. Ferreira Monteiro, Luiz Antônio Rodrigues, José Alexandre D'Avellar Rodrigues e Manoel Teixeira de Sousa Júnior. Todos nomes luso-brasileiros. Nada de Stewart, Edwin, Pullen. Só Luiz, Manoel, José. Jovens que gostavam do remo. Uma garotada que queria disputar regatas na sua cidade e que pretendia fundar um clube para rivalizar com o Clube de Regatas Botafogo, com o Grupo de Regatas Gragoatá, com o Clube de Regatas Icaraí, com o Clube de Regatas do Flamengo, com o Clube de Regatas Boqueirão do Passeio e com o Clube de Natação e Regatas, integrantes da União de Regatas Fluminense, que se preparava para organizar o primeiro certame carioca. 
Os rapazes moravam em sobrados simples, em cima dos comércios em que trabalhavam no Centro do Rio. De origem portuguesa (alguns nascidos lá, outros filhos de lusos), buscavam um nome que identificasse o clube com a colônia, numerosa em terras cariocas. Nas discussões que antecederam àquele 21 de agosto de 1898, muitas sugestões surgiram. Santa Cruz foi um deles. Álvares Cabral, outro. Mas Vasco da Gama prosperou. Pudera: mundo afora, naquele ano de 1898, pipocavam comemorações pelo quarto centenário do Caminho Marítimo das Índias, traçado pelo brilhante navegador, que jamais esteve em terras brasileiras. 
A ideia dos quatro rapazes já havia entusiasmado meia colônia. Os cinco irmãos Gonçalves Couto (Francisco Júnior, Antônio, Adolfo, Alfredo e José), donos de prósperos estabelecimentos comerciais no bairro da Saúde e em Botafogo, entusiasmaram-se com a iniciativa. Logo, Henrique Monteiro, por intermédio de José Lopes de Freitas, o Zé da Praia, foi procurá-los. E eles aderiram ao grupo.
A adesão foi mais que benéfica, já que Francisco, o mais velho dos Gonçalves Couto e dono de estabelecimentos na Rua Voluntários da Pátria, tinha barcos de regata e bons relacionamentos, entre eles o conselheiro municipal Henrique Lagden, que também se entusiasmou pela ideia de fundar um novo clube, genuinamente luso-brasileiro. 
Depois de várias reuniões preliminares no Clube Dançante e Recreativo Estudantina Arcas Comercial, localizado em um sobrado na esquina das ruas São Pedro e Andradas, e na Sociedade Dramática Particular Filhos de Talma, que sobrevive até os dias atuais, ficou acertado que, em 21 de agosto de 1898, um domingo, o grupo de adeptos, já na casa de 62 homens, se reuniria na Rua da Saúde, 293. Ali, em uma sala, deram o primeiro passo de uma história vitoriosa, registrado da seguinte forma a ata de fundação.

"Aos 21 dias do mês de agosto de 1898, as 2:30 horas da tarde, reunidos na sala do prédio da Rua da Saúde numero 293 os senhores constantes do livro de presenças, assumiu a presidência o Sr. Gaspar de Castro e depois de convidar para ocuparem as cadeiras de secretários os senhores Virgílio Carvalho do Amaral como 1o. e Henrique Ferreira como 2o., declarou que a presente reunião tinha o fito de fundar-se nesta Capital da Republica dos Estados Unidos do Brasil, uma associação com o título de Club de Regatas Vasco da Gama (...)"

Francisco Gonçalves do Couto Júnior foi eleito o presidente, com 52 votos, com Henrique Ferreira Monteiro como seu vice. Completaram a primeira diretoria os fundadores Luiz Antônio Rodrigues (primeiro secretário), João Belieni Salgado (segundo secretário), Antônio Martins Ribeiro (primeiro tesoureiro), Henrique Ladgen (segundo tesoureiro) e João C. Freitas (diretor de regatas). Nascia ali o nosso Vasco, com 62 abnegados, número que subiria para 185 sócios, quando da nossa filiação à União de Regatas Fluminense, em 24 de outubro de 1898. E eles ficaram sendo os fundadores oficiais do Vasco:

  1. Antônio Vieira Rosas
  2. Antônio Gonçalves Lopes
  3. Antônio Feliciano de Freitas
  4. Antônio Gomes
  5. Antônio Vieira
  6. Antônio Cruz
  7. Antônio José da Costa Oliveira
  8. Antônio Sá
  9. Antônio Pereira Gonçalves Silva
  10. Antônio Nicolau da Costa
  11. Antônio Frazão do Salgueiro
  12. Antônio Manoel Lopes
  13. Antônio Joaquim Pereira
  14. Antônio Ferreira Vale
  15. Antônio Joaquim de Andrade
  16. Antônio Mendes
  17. Antônio Monteiro de Moura
  18. Antônio Martins Ribeiro
  19. Antônio Nunes
  20. Antônio Menezes
  21. Antônio Augusto Cunha
  22. Antônio Gonçalves Couto Sobrinho
  23. Antônio Marciano Rosas
  24. Antônio C. Moura
  25. Antônio Pereira da Costa
  26. Antônio Fernando Seixas
  27. Augusto F. C. Glosl
  28. Alencar Pires Salgado
  29. Afonso Angladas
  30. Álvaro Coutinho
  31. Alberto Pinto C. Almeida
  32. Alfredo Teixeira Guimarães
  33. Abílio V. Quintela
  34. Affonso José Domingues
  35. Aurélio Raimundo dos Santos
  36. Alexandre Teixeira
  37. Arthur José da Costa Oliveira
  38. Alfredo Luiz de Brito Taborda
  39. Américo de O. Dutra
  40. Afonso Francisco Machado
  41. Alberto Augusto Cardoso
  42. Alberto Borges
  43. Áureo da Silva Lopes
  44. Arlindo Melo
  45. Altamirano Rangel
  46. Agostinho Lopes Cardoso
  47. Adelard Pires Salgado
  48. Augusto Borges
  49. Augusto Machado Frias
  50. Augusto Cezar de Abreu
  51. Artur Machado Azevedo
  52. Alberto Saraiva
  53. Ayres Martins Carneiro
  54. Adolpho Álvares da Silva
  55. Augusto Gomes Ferreira
  56. Artur Gonçalves do Couto
  57. Artur Fernandes Correia
  58. Augusto Machado
  59. Alfredo Alves
  60. Alberto Guimarães
  61. Bento Jose da Costa
  62. Bernardo Jose Monteiro Tôrres
  63. Bernardino Peixoto Ferreira
  64. Carlos M. Santos
  65. Crisanto Clelotte
  66. Domingues Gomes de Freitas
  67. Domingos Oliveira Monteiro
  68. Diogo Rodrigues Blanco
  69. Ernesto Ferreira da Silva
  70. Eugênio Germano
  71. Emilio Eusébio Silveira
  72. Ermando da Cunha Matos
  73. Eurico Teixeira de Almeida
  74. Edmundo F. Silva
  75. Ernesto Ferreira Alegria
  76. Ernesto Pereira da Costa
  77. Ernesto Rodrigues
  78. Emilio Gonçalves Roque
  79. Francisco Ayres Gomes
  80. Francisco de Paula Barreto
  81. Francisco França do Nascimento
  82. Francisco Velloso
  83. Francisco da Silva Lage
  84. Francisco Gonçalves Couto Junior
  85. Francisco Alberto da Silva
  86. Francisco Tomas D'Oliveira
  87. Francisco Abreu Pinheiro
  88. Francisco Rodrigues
  89. Feliciano Freire
  90. Frederico Ribeiro da Cunha
  91. Guilherme de Azevedo
  92. Guilherme Ferreira da Silva
  93. Gustavo Soares Pereira
  94. Gaspar de Castro
  95. Guarany Goulart
  96. Henrique Ferreira Monteiro
  97. Heitor Gama
  98. Horácio Cordeiro
  99. Henrique Ferreira Alegria
  100. Henrique A. Araújo Filho
  101. Henrique Lagden
  102. Herbert Hime
  103. Heitor Silva
  104. Honorato de Almeida Vilhena
  105. Ismael F. Cardoso Silva
  106. José Alexandre Avelar Rodrigues
  107. José Antônio Rodrigues Santos
  108. José Teixeira Bastos
  109. José Luiz Barros da Cruz
  110. José Augusto Dias de Freitas
  111. José de Souza Rozas
  112. José Domingos da Silva
  113. José Joaquim Severino Lopes
  114. José Augusto da Novoa Araújo
  115. José Teixeira Bastos de Carvalho
  116. José Joaquim Baptista Leite
  117. José Pires Velloso
  118. José Lopes de Freitas
  119. José Carlos Carneiro
  120. José Correia Sarmento
  121. José Castro
  122. José Carneiro
  123. João Belieni Salgado
  124. João Fernandes Ferreira
  125. João Pinto de Campos
  126. João Reis de Oliveira
  127. João Gomes Nora
  128. João Nepomuceno Campos Braga
  129. João Moreira Martins
  130. João José Soares Junior
  131. João Moreira de Souza
  132. João José de Alcântara
  133. João Luis de Valle
  134. João C. Freitas
  135. João Soares Fraxe
  136. João Amaral
  137. João Barboza Madureira
  138. Joaquim José Ernani de Oliveira
  139. Joaquim Costa Braga
  140. Joaquim dos Santos Silveira
  141. Joaquim Mendes
  142. Joaquim Oliveira
  143. Joaquim Oliveira Monteiro
  144. Joaquim Silva Pereira
  145. Joaquim Ferreira Pipa
  146. Júlio Alves de Oliveira
  147. Júlio Monteiro
  148. J. Bonifácio Pedroso
  149. Jerônymo J. Campos
  150. Luiz Antonio Rodrigues
  151. Luiz F. Carvalho
  152. Lourenço Ayres da Gama Bastos
  153. Leonel Campos Borda
  154. Manuel Cândido Pinto Azevedo Sobrinho
  155. Manuel C. Silva Braga
  156. Manuel Moraes Andrade
  157. Manuel Gonçalves Silva
  158. Manuel Costa Leal
  159. Manuel Joaquim Ribeiro
  160. Manuel Cerqueira D'Almeida
  161. Manuel Joaquim da Costa
  162. Manuel Domingues de Campos
  163. Manuel Leite da Silva Garcia
  164. Manuel Augusto S. Ramos
  165. Manuel Joaquim Pinto Fonseca
  166. Manuel Ferreira Dias Garcia
  167. Manuel Borges da Costa Avelar
  168. Manuel Gonçalves Pereira Rocha
  169. Manuel Avelino Cardoso
  170. Manuel Vieira Guimarães
  171. Manuel Teixeira de Oliveira Sisca
  172. Marcílio Vieira
  173. Mário Teixeira Lopes Guimarães
  174. Mario Delgado
  175. Odorico Pinheiro Carvalho
  176. Pedro Vieira
  177. Raul Armando Taveira
  178. Rodolpho Silveira Guimarães
  179. Seraphim Pacheco Vieira
  180. Theodoro Soares da Fonseca
  181. Thomaz B. Costa
  182. Virgílio da Silva Lopes
  183. Victorino Ferreira da Silva
  184. Virgílio Carvalho Amaral
  185. Vicente Alves Cruz




Mal sabiam estes homens que lançaram no solo uma semente fecunda.
Uma semente de vitórias e de lutas. De triunfos esportivos e de batalhas sociais.
Títulos, o Vasco angariou em quantidades expressivas, a começar pelo bicampeonato no remo, em 1905 e 1906, os primeiros de uma galeria que tem ainda os de 1912, 13, 14, 19, 21, 24, 27, 28, 29, 30, 31, 32, 34, 35, 36, 37, 38, 39, 44, 45, 46, 47, 48, 49, 50, 51, 52, 53, 54, 55, 56, 57, 58, 59, 61, 70, 82, 98, 99, 2000, 2001, 2002, 2005 e 2008. 
Uma galeria completada por glórias imensas no futebol, esporte que só em 1915 começa a fazer parte de nossa rotina, com a fusão com o Luzitânia FC. Se o começo, em 1916, foi com uma vexatória goleada de 10 x 1 para o Paladino, só um clube da grandeza do Vasco poderia, poucos anos depois, estar na elite carioca e conquistar o seu primeiro título, em 1923, com um time de negros, pobres, analfabetos. 

Em pé, Nicolino, Mingote, Nelson, Leitão, Arthur e Bolão.
Sentados, Pascoal, Torteroli, Arlindo, Ceci e Negrito.
Os campeões cariocas de 1923 que tanto irritaram a elite zona sul
E aí o Vasco escreve a maior página de sua grandeza, ao ensinar a uma elite racista e discriminatória, que exigia para os clubes da Zona Sul e seus atletas brancos e "de família" a exclusividade do esporte. O Vasco, que nasceu na Saúde, que cresceu no subúrbio, que juntou todo mundo sob sua bandeira, preferiu ficar com seus atletas e disputar o campeonato de 1924 com clubes menores, vencendo suas 16 partidas, mas mostrando que ninguém derrotava nossos ideais de igualdade sócio-racial.
É este Vasco de que me orgulho. O Vasco da resposta histórica, assinada em 7 de abril de 1924, pelo presidente José Augusto Prestes, que reproduzo abaixo:
Rio de Janeiro, 7 de Abril de 1924. 

Ofício nr. 261 

Exmo. Sr. Dr. Arnaldo Guinle 
M.D. Presidente da Associação Metropolitana de Esportes Atléticos 
            As resoluções divulgadas hoje pela imprensa, tomadas em reunião de ontem pelos altos poderes da Associação a que V.Exa tão dignamente preside, colocam o Club de Regatas Vasco da Gama numa tal situação de inferioridade, que absolutamente não pode ser justificada nem pela deficiência do nosso campo, nem pela simplicidade da nossa sede, nem pela condição modesta de grande número dos nossos associados. 
            Os privilégios concedidos aos cinco clubes fundadores da AMEA e a forma por que será exercido o direito de discussão e voto, e feitas as futuras classificações, obrigam-nos a lavrar o nosso protesto contra as citadas resoluções. 
            Quanto à condição de eliminarmos doze (12) dos nossos jogadores das nossas equipes, resolve por unanimidade a diretoria do Club de Regatas Vasco da Gama não a dever aceitar, por não se conformar com o processo por que foi feita a investigação das posições sociais desses nossos consócios, investigações levadas a um tribunal onde não tiveram nem representação nem defesa. 
            Estamos certos que V.Exa. será o primeiro a reconhecer que seria um ato pouco digno da nossa parte sacrificar ao desejo de filiar-se à AMEA alguns dos que lutaram para que tivéssemos entre outras vitórias a do campeonato de futebol da cidade do Rio de Janeiro de 1923. 
            São esses doze jogadores jovens, quase todos brasileiros, no começo de sua carreira e o ato público que os pode macular nunca será praticado com a solidariedade dos que dirigem a casa que os acolheu, nem sob o pavilhão que eles, com tanta galhardia, cobriram de glórias. 
            Nestes termos, sentimos ter que comunicar a V.Exa. que desistimos de fazer parte da AMEA. 

            Queira V.Exa. aceitar os protestos de consideração e estima de quem tem a honra de se subscrever, de V.Exa. At. Vnr. Obrigado 
(a) Dr. José Augusto Prestes 
Presidente 
É esse o meu Vasco. 
Claro, também é o campeão carioca de 23, 24, 29, 34, 36, 45, 47, 49, 50, 52, 56, 58, 70, 77, 82, 87, 88, 92, 93, 94, 98, 2003 e 2015, campeão do Rio-São Paulo em 58, 66 e 99, campeão da Copa do Brasil em 2011, campeão brasileiro em 74, 89, 97 e 2000, campeão sulamericano em 1948, da Libertadores em 1998 e da Mercosul em 2000, campeão dos pré-mundiais de 1953 e 1957 e de tantos outros títulos, em muitos esportes. 
Mas o meu Vasco, o Vasco que me arrepia a alma, é o Vasco da igualdade, o Vasco que cai e se reergue, o Vasco que supera toda e qualquer manobra para tentar acabar com ele.
É o Vasco que constrói São Januário apenas com o dinheiro dos seus sócios, comprando campo, ferro e cimento, sem ajuda pública, e ainda com um presidente da República (Washington Luís) fazendo de tudo para atrapalhar - e que nós, em um gesto de grandeza, convidamos para inaugurá-lo.  
É o Vasco que é vilipendiado pelos maus presidentes, pelos seus inimigos, mas nunca é destruído. 
E sabem por que?
Por que existe o Vasco antes de todos nós e também existirá depois. 
O Vasco, meus caros, é eterno, maior até que o homem que emprestou seu nome. 
O Vasco é imortal. Está acima de tudo e de todos. E vive em cada um de nós, que não se conforma com a injustiça, a sacanagem, a desigualdade.
Por isso sempre haverá o Vasco.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O lado positivo de Londres 2012

Pouco falei dos Jogos Olímpicos neste espaço. Isso por conta da agilidade. Prefiro o Face para comunicações mais rápidas. Aqui eu gosto de escrever mais. Acho que os dois espaços se completam. Como eu passei boa parte dos Jogos Olímpicos com o olhar fixo na TV, era mais fácil dar meus palpites e venenos no FB. E iniciar agora, aqui, um balanço global de tudo que vi na TV, ainda indignado com as irritantes reclamações que pipocaram no Facebook o tempo todo.
Como atleta, sou um bom jornalista. Só. Pouco me arrisquei em atividades desportivas, devido a dois fatores: total falta de jeito e incapacidade de perder. Eu não sei perder. Há vários episódios de minha vida que mostram isso, mas um em especial. Tinha meus 13 anos e, entusiasmado com o João Carlos de Oliveira, o João do Pulo, que se tornara recordista mundial nos Jogos Panamericanos de 1975, no México, comecei a praticar salto em distância. Até consegui boas marcas para o meu biotipo, pouco recomendado a um saltador - tenho pernas curtas e muito grossas. Pois bem, cheguei às Olimpíadas do Colégio e saltei 3,50m, uma façanha. Minha categoria era de 13 a 15 anos, uma disparidade terrível, mas estava lá, com o bronze na mão. Ainda me lembro da cena: último salto do Marcos Pires, meu colega de sala e ultimo saltador. O cara pula 3,51m. Perdi por um centímetro. Fiquei tão puto que jamais voltei a saltar na vida.
A falta de esportividade e um biotipo esquisito (baixinho, atarracado, gordinho) me deixaram poucas opções. Halterofilismo, talvez. Mas detesto fazer força. E tem o lado da competição. Vou lá, quase me borro todo para levantar 150 quilos e chega depois um outro cara e levanta 150,1 quilos. Vou querer matá-lo. E a tiros. Eis por que não dava para arriscar em competições do tipo esgrima, judô, tiro, arco e flecha: a possibilidade de perder a cabeça e mandar o vencedor para a cova era enorme. E tenho horror de cadeia. Portanto, melhor mesmo era jogar uma peladinha, meter uns golzinhos às vezes e pronto. Sem maiores competições.
Por conhecer um bocado o que se passa em minha alma, passei a refletir direito sobre as capacidades humanas. Ainda mais que casei com uma ex-atleta. Mais fria que eu. Sabe ganhar. No tiro, era muito boa. Só não conseguia atuar com torcida contra. Aí ela se desconcentrava e perdia. Por isso, abandonou o esporte - tá bem, eu fiz força: um gordinho complexado como eu não quer que a mulher gostosa e competente conviva com caras vencedores e atléticos. Mas ela fazia tiro e havia também o risco à minha vida. Isso é um atenuante, não?
Pois bem, a soma destes componentes (o cara que não sabe perder e a atleta que perde quando há torcida contrária) me fizeram entender os milhares de tipos de esportistas que existem no mundo. Antes de mais nada, o atleta precisa de talento, algo que eu não tinha. Mas há caras que, além do talento, devem estar submetidos a uma disciplina de quartel. Caso do Michael Phelps, que teve de ser praticamente internado seis meses antes de Londres-2012 para conseguir chegar ao nível de maior atleta olímpico de todos os tempos. Portanto, não é mole ser atleta. É preciso talento, disciplina, força de vontade, superação das dores, patrocínio, agradar o patrocinador, obter bons resultados, treinar, treinar, treinar, suar, ter um preparo psicológico tremendo. E tudo isso entre os 15 e os 30 anos. No máximo, uns 38, como a ginasta Oksana Chusovitina, uma uzbeque que naturalizou-se alemã e ainda compete para custear o tratamento de leucemia do filho...
Bom, todo este blá-blá-blá é para dizer duas coisas: a participação brasileira em Londres foi excelente e o torcedor brasileiro é o mais mala do mundo. Aqui, se o cara não trouxer o ouro, é um merda. E o Facebook popularizou o direito à crítica. Mais: universalizou o direito ao protesto mais babaca, que é o que vem acompanhado de uma boa dose de desconhecimento, disfarçada com uma consulta rápida ao Wikipedia. O cara olha lá, faz uma breve avaliação do nada e resolve criticar um sujeito que passou a vida toda se preparando para chegar em décimo na olimpíada e conseguiu ser o nono. Para o atleta, é uma grande vitória. Afinal, ele é o nono no evento mais importante do mundo. Para o crítico ocasional, o cara é um bosta: tinham oito sujeitos melhores que ele.

Um bom desempenho

Vou me preocupar com o torcedor brasileiro mais à frente. Agora quero me dedicar a algumas análises da participação do País nos Jogos.
Fechamos Londres com 17 medalhas, sendo três de ouro, cinco de prata e nove de bronze, 22° lugar geral. Em termos de medalhas de ouro, a segunda melhor marca da história, atrás apenas dos Jogos de Atenas-2004, quando voltamos com cinco ouros. O desempenho dourado repetiu as marcas de Pequim-2008 e Atlanta-1996.
Vou me permitir publicar o quadro geral de medalhas do Brasil em Jogos, copiado do Wikipedia. E abaixo vou tecer algumas considerações sobre o desempenho olímpico.
EdiçãoAtletasMedalha de ouroMedalha de prataMedalha de bronzeTotal de medalhasPosição
1920 Antuérpia211113
1924 Paris120000
1928 Amsterdãnão competiu
1932 Los Angeles670000
1936 Berlim730000
1948 Londres700011
1952 Helsinque971023
1956 Melbourne441001
1960 Roma720022
1964 Tóquio610011
1968 Cidade do México760123
1972 Munique810022
1976 Montreal810022
1980 Moscou1092024
1984 Los Angeles1511528
1988 Seul1711236
1992 Barcelona1952103
1996 Atlanta22533915
2000 Sydney20506612
2004 Atenas *24752310
2008 Pequim27734815
2012 Londres25835917
Total2593233055108
Quem se deu ao trabalho de olhar Olimpíada a Olimpíada, deparou-se com o recorde em número de pódios  dos jogos atuais, mantendo um viés iniciado em Atlanta-1996. De lá para cá, nunca mais ficamos abaixo dos  dois dígitos em termos de medalhas.
Mas não é só. Vamos lá para o alto. Começamos a competir em 1920, quando ganhamos uma medalha de cada metal, todas no tiro, obtidas por militares brasileiros com armas emprestadas pelos norte-americanos. Ficamos sem mais nenhuma medalha até o pós-guerra. Em 48, um bronze, do basquete. 52 e 56, os dois ouros do Adhemar Ferreira da Silva, no salto triplo, e os bronzes de José Telles da Conceição no salto em altura e do Tetsuo Okamoto na natação. De 1960 a 1976, ou seja, nos cinco jogos seguintes, nenhum ouro. Apenas a prata do Nelson Prudêncio no México (ele traria o bronze em Munique, também no salto triplo). O resto? Dois bronzes no basquete, dois na vela, um na natação, um no boxe, um no judô e o primeiro bronze do João do Pulo no salto triplo, dando a única continuidade de formação olímpica, pois passamos do Adhemar para o Prudêncio, e dele para o João - homem punido cruelmente pelo destino. Para quem não se lembra, quase um ano depois do bronze em Moscou-80, ainda recordista mundial da modalidade, teve seu carro acertado por um motorista bêbado dois dias antes do Natal, ficou em coma e teve uma perna amputada. Seguiu carreira política por um tempo, mas depois de duas derrotas eleitorais, de uma prisão por não-pagamento da pensão alimentícia e de entregar-se ao alcoolismo, morreu de cirrose em 1999, com apenas 45 anos, ainda recordista brasileiro e sul-americano no triplo.
Mas vamos seguir. Moscou-80 e Los Angeles-84 foram Jogos com boicote, americano primeiro, da Cortina de Ferro depois. Três ouros, cinco pratas e quatro bronzes. 
E aqui temos duas marcas importantes. A primeira é o ensaio da profissionalização do esporte, com o vôlei, que chega à prata em Los Angeles. Estivemos presentes em todos os torneios masculinos do esporte desde que ele passou a ser olímpico, em 1964. Até 1984, o mais perto que chegamos foi o quinto lugar. Em Los Angeles, com o boicote de União Soviética, Cuba, Bulgária e Polônia, seleções importante à época, chegamos à final. Mas já havíamos chegado em terceiro na Copa do Mundo do esporte, em 1981, e fomos vice-campeões mundiais em 1982. Efetivamente, depois da entrada de Pirelli e Atlântica Boavista, o trabalho do presidente da CBV, Carlos Arthur Nuzman (hoje presidente do Comitê Olímpico Brasileiro), ficou mais fácil e o esporte se popularizou. O resultado olímpico disso é que o vôlei nos deus seis ouros, nove pratas e cinco bronzes, totalizando 20 medalhas, maior marca em quantidade e em ouros, ao lado da vela, que tem 17 pódios.
Outro destaque é o fim da exigência de atletas amadores no torneio de futebol. Até Moscou, mandávamos juvenis e juniores para enfrentar os titulares das seleções dos países do Leste Europeu. O mais perto que chegamos foi um quarto lugar, em 1976. Enquanto isso, de 1952 a 1980, apenas três seleções que subiram ao pódio não eram satélites soviéticos: Suécia (bronze em 52), Dinamarca (prata em 60) e o Japão (bronze em 68). Todos os demais pódios foram de Hungria, Bulgária, Polônia, Alemanha Oriental, Tchecoslováquia e União Soviética. Infelizmente, em 1984, mandamos um combinado do Internacional, enxertado por alguns jovens como Gilmar Popoca, do Flamengo. Veio prata. Se mandássemos uma seleção de verdade, poderia ter sido diferente. 
Tirando estas duas pratas, deste ciclo olímpico temos dois ouros na vela, em Moscou, e o de Joaquim Cruz, nos 800 metros. Trouxemos mais três pratas no judô, natação e vela e dois bronzes no judô, o do João do Pulo e um na natação.
Até aqui, nosso grupo de esportes era muito reduzido, mas vai se ampliando. Nos Jogos seguintes, em Seul-88 e Barcelona-92, começamos a colher alguns frutos. O vôlei chega ao ouro, o judô consegue dois, ganhamos bonzes na vela e natação, prata e bronze no atletismo e o futebol deixa escapar o ouro na final de Seul, montando então um time de bons jovens, que nos dariam, seis anos depois, o tetracampeonato da Copa do Mundo, no Estados Unidos.
A partir dos anos 1990, com a entrada maciça dos patrocínios estatais, vamos evoluindo a cada olimpíada. Entre 1996 e 2012, ou seja, em 16 anos, conquistamos 69 medalhas, ou 64% de todas as que conseguimos na história olímpica de 92 anos. Ampliamos as categorias, agregando ao grupo vôlei-atletismo-natação-judô-vela-futebol-basquete os novos futebol feminino, hipismo, ginástica e pentatlo moderno, resgatando ainda o boxe. Se continuarmos com investimentos sólidos no esporte, podemos chegar ao grupo dos dez países mais medalhados em breve. Continuar por lá é outra história. Mas prefiro deixar isso para outro post, pois este já está longo demais. 

Torcer é complicado

Voltando a Londres, estatisticamente, não temos do que reclamar. Mas reclamamos. E muito. E agora me permito entrar na cabeça do torcedor.
Nestes jogos, trouxemos as seguintes medalhas: 

Ouro
Prata
Bronze
Sarah Menezes (Judô)
Thiago Pereira (Natação)
Felipe Kitadai (Judô)
Arthur Zanetti (Ginástica)
Voleibol de praia masculino
Mayra Aguiar (Judô)
Voleibol Feminino
Futebol masculino
Rafael Silva (Judô)

Voleibol masculino
César Cielo (Natação)

Esquiva Falcão (Boxe)
Bruno Prada e Robert Scheidt (Vela)


Adriana Araújo (Boxe) 


Voleibol de praia feminino


Yamaguchi Falcão (Boxe)


Yane Marques (Pentatlo Moderno)


Em vez de valorizar conquistas importantes, como as três medalhas do boxe, as quatro no judô ou as quatro do vôlei, o que eu mais vi foi uma espinafração geral. Primeiro, crucificaram a Fabiana Murer, por refugar na hora do salto. Claro que ela teve medo. Atleta é gente. Logo, pode ter medo. Mas para nós, entendidos de internet, a mulher tinha que meter a vara no chão e voar. Já Maurren Maggi foi poupada, talvez pelo ouro que trouxe em Pequim. Mas o time de vôlei apanhou muito. Foi chamado de amarelão por tomar uma virada histórica, depois de ter dois match points a favor. 
Duvido que os russos tenham feito o mesmo com as russas, que tiveram seis contra o Brasil e perderam o jogo e a chance de medalha, ainda nas quartas-de-final. 
Nossa arrogância é tamanha que não admitimos a falha. Nem que o adversário pode ser melhor, como foi a Rússia na final do vôlei. Mas nada é mais horripilante que o que foi feito com a seleção de futebol. Os caras foram e estão sendo execrados por não trazer o ouro. Era obrigação ser campeão olímpico, ainda mais depois da eliminação da Espanha.
Pera lá... A Espanha, a badalada Espanha, rodou na primeira fase, em um torneio traiçoeiro. Ela pode. Nós não? Ela pode vazar após derrotas vexatórias, uma delas para Honduras. Nós não podemos perder o título para o bom México. Inacreditável.
O problema do futebol, o nosso esporte, é patológico. Mais grave ainda que o nosso desprezo ao esforço alheio, à capacidade limitada do atleta. Como a CBF virou um antro de ilegalidades, associamos os jogadores e à seleção a este lodaçal. A seleção e os jogadores não são os dirigentes. Quem escolhe jogar em Londres é o patrocinador e a regra atual, que limita o deslocamento continental de jogadores em amistosos. Portanto, os caras não têm culpa. Cheguei a ler que esta seleção não representa o Brasil por não saber cantar o hino nacional. Parei. Qual seleção soube cantar?
No frigir dos ovos, o que temos é o seguinte: estamos com raiva da seleção. Torcemos contra. Tá bom, o Mano não é o técnico ideal, os jogadores não são como os de antigamente, mas precisa passar a torcer pela Argentina? Vestir a camisa deles? 
Parece mais ou menos como ocorre com os vascaínos. Em São Januário, se aos dez minutos do primeiro tempo o placar não marcar 1 x 0 para o Vasco, começa um zum-zum-zum. Aos 15, vira reclamação. Aos 30, uma vaia. Impossível manter os nervos em ordem e sempre tem uma crise, mesmo quando o time vence. O torcedor corneta o técnico que há mais de 40 rodadas está com o time no Top-4 do Brasileirão. E o  mesmo ocorre na torcida da Portuguesa de Desportos, segundo um conhecido da minha esposa. Filho de português, ele acha que o sofrimento do luso, expresso no fado, está entranhado na alma do torcedor da Lusa. Por causa disso, ele virou Corinthians. Para desgosto (e mais sofrimento) do pai. Haja carma de reclamão.
Paulo Roberto: o oitavo lugar é,
sim uma grande conquista
Espero, sinceramente, que na Copa e nos Jogos de 2016 a gente resolva torcer pelo Brasil e apóie incondicionalmente os nossos atletas, deixando se ser torcedor à moda vascaína ou lusitana. Temos uma seleção que pode chegar em 2014 e bons atletas olímpicos sendo formados, mas não temos a obrigação de título ou medalha de ouro, muito menos de liderar o quadro geral em 2016. É bom compreender que, em certos esportes, chegar em oitavo é uma honra. Pergunte ao Paulo Roberto, da maratona, o que ele sentiu. E tente entender a resposta. 
Para terminar: Copa e Jogos Olímpicos podem deixar um legado interessante. Não em resultados ou instalações e equipamentos públicos, mas sim em cidadania. Se nosso projeto visar a construção de uma geração de brasileiros desportistas, vamos ganhar mais que ouro, prata, bronze ou hexa. Vamos ganhar menos traficantes, menos drogados, mais pessoas que respeitam os direitos alheios, mais gente disciplinada, mais cidadãos que seguem a lei. Mas isso, como eu disse antes, é papo para outra hora e outro post.