quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O lado positivo de Londres 2012

Pouco falei dos Jogos Olímpicos neste espaço. Isso por conta da agilidade. Prefiro o Face para comunicações mais rápidas. Aqui eu gosto de escrever mais. Acho que os dois espaços se completam. Como eu passei boa parte dos Jogos Olímpicos com o olhar fixo na TV, era mais fácil dar meus palpites e venenos no FB. E iniciar agora, aqui, um balanço global de tudo que vi na TV, ainda indignado com as irritantes reclamações que pipocaram no Facebook o tempo todo.
Como atleta, sou um bom jornalista. Só. Pouco me arrisquei em atividades desportivas, devido a dois fatores: total falta de jeito e incapacidade de perder. Eu não sei perder. Há vários episódios de minha vida que mostram isso, mas um em especial. Tinha meus 13 anos e, entusiasmado com o João Carlos de Oliveira, o João do Pulo, que se tornara recordista mundial nos Jogos Panamericanos de 1975, no México, comecei a praticar salto em distância. Até consegui boas marcas para o meu biotipo, pouco recomendado a um saltador - tenho pernas curtas e muito grossas. Pois bem, cheguei às Olimpíadas do Colégio e saltei 3,50m, uma façanha. Minha categoria era de 13 a 15 anos, uma disparidade terrível, mas estava lá, com o bronze na mão. Ainda me lembro da cena: último salto do Marcos Pires, meu colega de sala e ultimo saltador. O cara pula 3,51m. Perdi por um centímetro. Fiquei tão puto que jamais voltei a saltar na vida.
A falta de esportividade e um biotipo esquisito (baixinho, atarracado, gordinho) me deixaram poucas opções. Halterofilismo, talvez. Mas detesto fazer força. E tem o lado da competição. Vou lá, quase me borro todo para levantar 150 quilos e chega depois um outro cara e levanta 150,1 quilos. Vou querer matá-lo. E a tiros. Eis por que não dava para arriscar em competições do tipo esgrima, judô, tiro, arco e flecha: a possibilidade de perder a cabeça e mandar o vencedor para a cova era enorme. E tenho horror de cadeia. Portanto, melhor mesmo era jogar uma peladinha, meter uns golzinhos às vezes e pronto. Sem maiores competições.
Por conhecer um bocado o que se passa em minha alma, passei a refletir direito sobre as capacidades humanas. Ainda mais que casei com uma ex-atleta. Mais fria que eu. Sabe ganhar. No tiro, era muito boa. Só não conseguia atuar com torcida contra. Aí ela se desconcentrava e perdia. Por isso, abandonou o esporte - tá bem, eu fiz força: um gordinho complexado como eu não quer que a mulher gostosa e competente conviva com caras vencedores e atléticos. Mas ela fazia tiro e havia também o risco à minha vida. Isso é um atenuante, não?
Pois bem, a soma destes componentes (o cara que não sabe perder e a atleta que perde quando há torcida contrária) me fizeram entender os milhares de tipos de esportistas que existem no mundo. Antes de mais nada, o atleta precisa de talento, algo que eu não tinha. Mas há caras que, além do talento, devem estar submetidos a uma disciplina de quartel. Caso do Michael Phelps, que teve de ser praticamente internado seis meses antes de Londres-2012 para conseguir chegar ao nível de maior atleta olímpico de todos os tempos. Portanto, não é mole ser atleta. É preciso talento, disciplina, força de vontade, superação das dores, patrocínio, agradar o patrocinador, obter bons resultados, treinar, treinar, treinar, suar, ter um preparo psicológico tremendo. E tudo isso entre os 15 e os 30 anos. No máximo, uns 38, como a ginasta Oksana Chusovitina, uma uzbeque que naturalizou-se alemã e ainda compete para custear o tratamento de leucemia do filho...
Bom, todo este blá-blá-blá é para dizer duas coisas: a participação brasileira em Londres foi excelente e o torcedor brasileiro é o mais mala do mundo. Aqui, se o cara não trouxer o ouro, é um merda. E o Facebook popularizou o direito à crítica. Mais: universalizou o direito ao protesto mais babaca, que é o que vem acompanhado de uma boa dose de desconhecimento, disfarçada com uma consulta rápida ao Wikipedia. O cara olha lá, faz uma breve avaliação do nada e resolve criticar um sujeito que passou a vida toda se preparando para chegar em décimo na olimpíada e conseguiu ser o nono. Para o atleta, é uma grande vitória. Afinal, ele é o nono no evento mais importante do mundo. Para o crítico ocasional, o cara é um bosta: tinham oito sujeitos melhores que ele.

Um bom desempenho

Vou me preocupar com o torcedor brasileiro mais à frente. Agora quero me dedicar a algumas análises da participação do País nos Jogos.
Fechamos Londres com 17 medalhas, sendo três de ouro, cinco de prata e nove de bronze, 22° lugar geral. Em termos de medalhas de ouro, a segunda melhor marca da história, atrás apenas dos Jogos de Atenas-2004, quando voltamos com cinco ouros. O desempenho dourado repetiu as marcas de Pequim-2008 e Atlanta-1996.
Vou me permitir publicar o quadro geral de medalhas do Brasil em Jogos, copiado do Wikipedia. E abaixo vou tecer algumas considerações sobre o desempenho olímpico.
EdiçãoAtletasMedalha de ouroMedalha de prataMedalha de bronzeTotal de medalhasPosição
1920 Antuérpia211113
1924 Paris120000
1928 Amsterdãnão competiu
1932 Los Angeles670000
1936 Berlim730000
1948 Londres700011
1952 Helsinque971023
1956 Melbourne441001
1960 Roma720022
1964 Tóquio610011
1968 Cidade do México760123
1972 Munique810022
1976 Montreal810022
1980 Moscou1092024
1984 Los Angeles1511528
1988 Seul1711236
1992 Barcelona1952103
1996 Atlanta22533915
2000 Sydney20506612
2004 Atenas *24752310
2008 Pequim27734815
2012 Londres25835917
Total2593233055108
Quem se deu ao trabalho de olhar Olimpíada a Olimpíada, deparou-se com o recorde em número de pódios  dos jogos atuais, mantendo um viés iniciado em Atlanta-1996. De lá para cá, nunca mais ficamos abaixo dos  dois dígitos em termos de medalhas.
Mas não é só. Vamos lá para o alto. Começamos a competir em 1920, quando ganhamos uma medalha de cada metal, todas no tiro, obtidas por militares brasileiros com armas emprestadas pelos norte-americanos. Ficamos sem mais nenhuma medalha até o pós-guerra. Em 48, um bronze, do basquete. 52 e 56, os dois ouros do Adhemar Ferreira da Silva, no salto triplo, e os bronzes de José Telles da Conceição no salto em altura e do Tetsuo Okamoto na natação. De 1960 a 1976, ou seja, nos cinco jogos seguintes, nenhum ouro. Apenas a prata do Nelson Prudêncio no México (ele traria o bronze em Munique, também no salto triplo). O resto? Dois bronzes no basquete, dois na vela, um na natação, um no boxe, um no judô e o primeiro bronze do João do Pulo no salto triplo, dando a única continuidade de formação olímpica, pois passamos do Adhemar para o Prudêncio, e dele para o João - homem punido cruelmente pelo destino. Para quem não se lembra, quase um ano depois do bronze em Moscou-80, ainda recordista mundial da modalidade, teve seu carro acertado por um motorista bêbado dois dias antes do Natal, ficou em coma e teve uma perna amputada. Seguiu carreira política por um tempo, mas depois de duas derrotas eleitorais, de uma prisão por não-pagamento da pensão alimentícia e de entregar-se ao alcoolismo, morreu de cirrose em 1999, com apenas 45 anos, ainda recordista brasileiro e sul-americano no triplo.
Mas vamos seguir. Moscou-80 e Los Angeles-84 foram Jogos com boicote, americano primeiro, da Cortina de Ferro depois. Três ouros, cinco pratas e quatro bronzes. 
E aqui temos duas marcas importantes. A primeira é o ensaio da profissionalização do esporte, com o vôlei, que chega à prata em Los Angeles. Estivemos presentes em todos os torneios masculinos do esporte desde que ele passou a ser olímpico, em 1964. Até 1984, o mais perto que chegamos foi o quinto lugar. Em Los Angeles, com o boicote de União Soviética, Cuba, Bulgária e Polônia, seleções importante à época, chegamos à final. Mas já havíamos chegado em terceiro na Copa do Mundo do esporte, em 1981, e fomos vice-campeões mundiais em 1982. Efetivamente, depois da entrada de Pirelli e Atlântica Boavista, o trabalho do presidente da CBV, Carlos Arthur Nuzman (hoje presidente do Comitê Olímpico Brasileiro), ficou mais fácil e o esporte se popularizou. O resultado olímpico disso é que o vôlei nos deus seis ouros, nove pratas e cinco bronzes, totalizando 20 medalhas, maior marca em quantidade e em ouros, ao lado da vela, que tem 17 pódios.
Outro destaque é o fim da exigência de atletas amadores no torneio de futebol. Até Moscou, mandávamos juvenis e juniores para enfrentar os titulares das seleções dos países do Leste Europeu. O mais perto que chegamos foi um quarto lugar, em 1976. Enquanto isso, de 1952 a 1980, apenas três seleções que subiram ao pódio não eram satélites soviéticos: Suécia (bronze em 52), Dinamarca (prata em 60) e o Japão (bronze em 68). Todos os demais pódios foram de Hungria, Bulgária, Polônia, Alemanha Oriental, Tchecoslováquia e União Soviética. Infelizmente, em 1984, mandamos um combinado do Internacional, enxertado por alguns jovens como Gilmar Popoca, do Flamengo. Veio prata. Se mandássemos uma seleção de verdade, poderia ter sido diferente. 
Tirando estas duas pratas, deste ciclo olímpico temos dois ouros na vela, em Moscou, e o de Joaquim Cruz, nos 800 metros. Trouxemos mais três pratas no judô, natação e vela e dois bronzes no judô, o do João do Pulo e um na natação.
Até aqui, nosso grupo de esportes era muito reduzido, mas vai se ampliando. Nos Jogos seguintes, em Seul-88 e Barcelona-92, começamos a colher alguns frutos. O vôlei chega ao ouro, o judô consegue dois, ganhamos bonzes na vela e natação, prata e bronze no atletismo e o futebol deixa escapar o ouro na final de Seul, montando então um time de bons jovens, que nos dariam, seis anos depois, o tetracampeonato da Copa do Mundo, no Estados Unidos.
A partir dos anos 1990, com a entrada maciça dos patrocínios estatais, vamos evoluindo a cada olimpíada. Entre 1996 e 2012, ou seja, em 16 anos, conquistamos 69 medalhas, ou 64% de todas as que conseguimos na história olímpica de 92 anos. Ampliamos as categorias, agregando ao grupo vôlei-atletismo-natação-judô-vela-futebol-basquete os novos futebol feminino, hipismo, ginástica e pentatlo moderno, resgatando ainda o boxe. Se continuarmos com investimentos sólidos no esporte, podemos chegar ao grupo dos dez países mais medalhados em breve. Continuar por lá é outra história. Mas prefiro deixar isso para outro post, pois este já está longo demais. 

Torcer é complicado

Voltando a Londres, estatisticamente, não temos do que reclamar. Mas reclamamos. E muito. E agora me permito entrar na cabeça do torcedor.
Nestes jogos, trouxemos as seguintes medalhas: 

Ouro
Prata
Bronze
Sarah Menezes (Judô)
Thiago Pereira (Natação)
Felipe Kitadai (Judô)
Arthur Zanetti (Ginástica)
Voleibol de praia masculino
Mayra Aguiar (Judô)
Voleibol Feminino
Futebol masculino
Rafael Silva (Judô)

Voleibol masculino
César Cielo (Natação)

Esquiva Falcão (Boxe)
Bruno Prada e Robert Scheidt (Vela)


Adriana Araújo (Boxe) 


Voleibol de praia feminino


Yamaguchi Falcão (Boxe)


Yane Marques (Pentatlo Moderno)


Em vez de valorizar conquistas importantes, como as três medalhas do boxe, as quatro no judô ou as quatro do vôlei, o que eu mais vi foi uma espinafração geral. Primeiro, crucificaram a Fabiana Murer, por refugar na hora do salto. Claro que ela teve medo. Atleta é gente. Logo, pode ter medo. Mas para nós, entendidos de internet, a mulher tinha que meter a vara no chão e voar. Já Maurren Maggi foi poupada, talvez pelo ouro que trouxe em Pequim. Mas o time de vôlei apanhou muito. Foi chamado de amarelão por tomar uma virada histórica, depois de ter dois match points a favor. 
Duvido que os russos tenham feito o mesmo com as russas, que tiveram seis contra o Brasil e perderam o jogo e a chance de medalha, ainda nas quartas-de-final. 
Nossa arrogância é tamanha que não admitimos a falha. Nem que o adversário pode ser melhor, como foi a Rússia na final do vôlei. Mas nada é mais horripilante que o que foi feito com a seleção de futebol. Os caras foram e estão sendo execrados por não trazer o ouro. Era obrigação ser campeão olímpico, ainda mais depois da eliminação da Espanha.
Pera lá... A Espanha, a badalada Espanha, rodou na primeira fase, em um torneio traiçoeiro. Ela pode. Nós não? Ela pode vazar após derrotas vexatórias, uma delas para Honduras. Nós não podemos perder o título para o bom México. Inacreditável.
O problema do futebol, o nosso esporte, é patológico. Mais grave ainda que o nosso desprezo ao esforço alheio, à capacidade limitada do atleta. Como a CBF virou um antro de ilegalidades, associamos os jogadores e à seleção a este lodaçal. A seleção e os jogadores não são os dirigentes. Quem escolhe jogar em Londres é o patrocinador e a regra atual, que limita o deslocamento continental de jogadores em amistosos. Portanto, os caras não têm culpa. Cheguei a ler que esta seleção não representa o Brasil por não saber cantar o hino nacional. Parei. Qual seleção soube cantar?
No frigir dos ovos, o que temos é o seguinte: estamos com raiva da seleção. Torcemos contra. Tá bom, o Mano não é o técnico ideal, os jogadores não são como os de antigamente, mas precisa passar a torcer pela Argentina? Vestir a camisa deles? 
Parece mais ou menos como ocorre com os vascaínos. Em São Januário, se aos dez minutos do primeiro tempo o placar não marcar 1 x 0 para o Vasco, começa um zum-zum-zum. Aos 15, vira reclamação. Aos 30, uma vaia. Impossível manter os nervos em ordem e sempre tem uma crise, mesmo quando o time vence. O torcedor corneta o técnico que há mais de 40 rodadas está com o time no Top-4 do Brasileirão. E o  mesmo ocorre na torcida da Portuguesa de Desportos, segundo um conhecido da minha esposa. Filho de português, ele acha que o sofrimento do luso, expresso no fado, está entranhado na alma do torcedor da Lusa. Por causa disso, ele virou Corinthians. Para desgosto (e mais sofrimento) do pai. Haja carma de reclamão.
Paulo Roberto: o oitavo lugar é,
sim uma grande conquista
Espero, sinceramente, que na Copa e nos Jogos de 2016 a gente resolva torcer pelo Brasil e apóie incondicionalmente os nossos atletas, deixando se ser torcedor à moda vascaína ou lusitana. Temos uma seleção que pode chegar em 2014 e bons atletas olímpicos sendo formados, mas não temos a obrigação de título ou medalha de ouro, muito menos de liderar o quadro geral em 2016. É bom compreender que, em certos esportes, chegar em oitavo é uma honra. Pergunte ao Paulo Roberto, da maratona, o que ele sentiu. E tente entender a resposta. 
Para terminar: Copa e Jogos Olímpicos podem deixar um legado interessante. Não em resultados ou instalações e equipamentos públicos, mas sim em cidadania. Se nosso projeto visar a construção de uma geração de brasileiros desportistas, vamos ganhar mais que ouro, prata, bronze ou hexa. Vamos ganhar menos traficantes, menos drogados, mais pessoas que respeitam os direitos alheios, mais gente disciplinada, mais cidadãos que seguem a lei. Mas isso, como eu disse antes, é papo para outra hora e outro post.

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