terça-feira, 26 de junho de 2012

Era uma casa muito engraçada

Que segredos e mistérios abrigam estas paredes?
A imagem ao lado é de uma casa. Não se trata de uma casa qualquer, como vocês vêem. É uma boa casa. Uma bela casa. Pode-se dizer até que se trata de uma mansão, pois há uma quadra de tênis em seu terreno e uma boa piscina. 
A residência em si tem 550 metros de área construída e está localizada no Setor de Mansões dom Bosco, no Lago Sul. Foi comprada por seu dono em 2007. Hoje, uma casa destas, considerando apenas a casa, a um preço médio de R$ 10 mil o metro quadrado, sairia por R$ 5,5 milhões. Mas poderia custar ainda mais, graças a seu terreno. Casa de gente com bom patrimônio, com renda alta. Casa de gente fina e influente.
De fato, a casa é de alguém influente. E de uma pessoa que sabe fazer bons negócios. Pois esta casa, esta belíssima mansão, custou a seu dono, em 2007, a bagatela de R$ 400 mil. O dono desta casa pagou pouco mais de R$ 727 por metro quadrado construído.
O dono da casa poderia argumentar que se trata do preço da época. Vou ter de contrariá-lo. Tenho uma casa em um condomínio, distante uns oito quilômetros da mansão da foto. Ergui a casa em 2001. Tem 139 metros quadrados (ou seja, um quarto do tamanho). E em 2001, o metro quadrado me custou exatamente R$ 1 mil. Ou seja, seis anos depois, no meio do boom imobiliário, numa área mais valorizada, ele conseguiu comprar uma casa por um preço menos do que eu paguei.
Quem faz um negócio bom destes nunca esquece. Eu acho que minha casa foi um bom negócio. Comprei o terreno um ano antes, por R$ 8 mil. Pertencia a uma jornalista. Paguei quatro parcelas de R$ 500 e os R$ 6 mil restantes foram pagos com meu décimo terceiro do ano 2000.
A obra da casa foi paga com uma entrada de R$ 31.000, que foram parcelados em dois anos. Depois,  mais 36 parcelas de R$ 3 mil, após a obra pronta, pagos à Construtora Santa Ignez. Pagava via boleto bancário. Às vezes, atrasava uma parcela e conseguia a isenção dos juros. Sacava o dinheiro, o responsável da construtora ia na minha sala, no Jornal de Brasília, recebia a grana e dava o recibo.
O muro foi por fora. Eu paguei direto ao empreiteiro. Custou mais R$ 10 mil. Ainda tomei uma volta do primeiro empreiteiro. Pagava toda sexta, em dinheiro. Foram dez semanas, R$ 1 mil a cada semana. Já o portão custou R$ 1 mil e eu paguei ao serralheiro em cinco vezes de R$ 200.
Por que tanto detalhe? Para mostrar que quem faz um negócio bom não esquece. A minha casa é meu reino. Moro lá por prazer. Nunca esqueci da inauguração, ainda sem gramado (comprado junto à Lolô, seis meses depois, por R$ 7 mil, graças a meu décimo terceiro de 2001). Lá estavam a Andreia, as meninas Tita e Vavá e a Lolô. Nós e uma garrafa de champanhe.
Pois bem, se eu me lembro de tantos detalhes, o dono da casa, que pagou só R$ 400 mil deveria lembrar também. Mas não lembra. Não sabe se pagou em TED, em cheque, em DOC. Um ano antes de a casa aparecer no seu IR, o dono do imóvel declarou ter bens de apenas R$ 200 mil. Ou seja, além de bom negociador, é também um mágico, pois fez surgir grana de onde não havia.
A essa altura, você já sabe que a casa é do Agnelo Queiroz, digníssimo governador do Distrito Federal
Segundo a escritura, em 2007, Agnelo comprou a casa de Jamil Suaiden, promotor de eventos de Brasília. Jamil tem um cunhado, Glauco Santos, que tinha interesses na Anvisa. Agnelo foi nomeado para a Anvisa em 24 de outubro de 2007. Embora tenha escriturado a casa em 2007, Agnelo foi acusado, em 2006, de invadir área pública para abrigar, nesta mesma casa, a quadra de tênis, um laguinho e um campo de futebol.
Agnelo alega que comprou a casa antes de ir para a Anvisa. Mas esquece de dizer que era ministro do Esporte entre 2003 e 2006, quando surgiu a história da invasão de área pública. Jamil Suaiden faz eventos esportivos, em especial corridas.
Há muita coisa mal amarrada e explicada nesta história. Preço da casa, condição de compra e como foi paga. Mas, em especial, a grande dúvida é como um médico do serviço público, que desde 1990 largou a medicina para se tornar político conseguiu comprar a bela casa lá de cima.
Agnelo, à mulher de César não basta ser honesta; tem de parecer honesta.

Um comentário:

  1. Jorjão, isso me faz lembrar parte da letra de uma música do Lobão.Será que "É tudo que nos resta no país do carnaval"?. Não há nada de engraçado nesse mar de lama, e o pior, é que muita gente aplaudiu a performance do Agnulo na CPMI. Não consigo encontrar coerência em mais nada no panorama político atual... ...me tira o tubo (mesmo porque o sistema de saúde continua uma merrrr... ...cadoria)

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