quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O jeito como a porca torce o rabo

Olhar o Facebook todos os dias, várias vezes por dia, me traz um misto de prazer, curtição, espanto e indignação. Prazer, por ver que muitos dos meus amigos ainda plantam boas ideias por lá, transformando aquele mundo de mensagens atribuídas a pessoas que jamais as escreveram com teorias, frases e opiniões que, estas sim, têm tudo a ver. Curtição, por encontrar amigos distantes, parentes queridos, familiares espalhados por este Brasil continental, com direito a irmão em Manaus e ao filho dele, meu sobrinho, em Porto Alegre, extremo quase oposto. Há um bocado de espanto em fatos e vídeos que pipocam aqui e e ali, trazendo em seu bojo comentários que me deixam encucado: como pode existir gente capaz de fazer e falar certas coisas em público sem se corar...
Mas o que me move ali, naquele terreno fértil de tudo e nada ao mesmo tempo, é a indignação. Acho que só frequento o Face por pura indignação.
Tenho amigos (se é que se pode chamar todo mundo ali de amigo) cujos escritos me irritam 100% das vezes. Uns por discordarem da minhas opiniões com tamanha coerência que quase me fazem concordar com eles - e muitas vezes acabo mesmo concordando, sem dar o braço a torcer (ou até fazendo isso). Outros por postarem as coisas mais imbecis que um ser humano é capaz de pensar. E não falo em fotinhas, vídeos ou coisas semelhantes, já comentadas lá em cima. Falo de conceitos que estão em um patamar entre a demência e a visão unilateral do mundo, dois caminhos que levam, no mais otimista dos planos, a uma miopia da realidade que beira à estupidez.
Mas nada me irrita mais que o falso discurso apolítico ou de suposto protesto político. Incomoda mais que a ignorância espalhada em mensagens e fotos fakes, algo que me dá certo prazer de perder horas para desmascarar, por que a burrice, se não for combatida em tempo, vira verdade, e em geral atribuída a gênios que jamais diriam tamanhas obviedades.
A crítica política constante me tira do sério por um catálogo de motivos. O primeiro deles é que, em geral, ela é um biombo para a mais absoluta omissão. Ocorre quase todos os dias, com exortações ao voto nulo para anular eleições ou ao boicote às urnas ou ao não reeleja ninguém. Três bobagens proferidas por quem "não liga para a política" e que acha que "todo político é ladrão".
Saibam todos os que lerem este texto que anular voto não anula eleição. Se, um dia, essa tese conquistar 99,99% de um eleitorado, vocês serão governados pelos votos dados por 0,01% da população. Por que? Porque a lei é assim. Voto nulo não conta. Só voto válido.
Boicote às urnas é outra bobagem por que, do mesmo jeito, não há hipótese de anulação de eleição por falta de quórum. Serão eleitos os caras votados pelos que forem às urnas. A não ser que matem todo o eleitorado, alguém vai lá. E vai eleger alguém.
Não reeleger ninguém é outra bobagem. Há gente honesta nos Legislativos ou Executivos deste país. Não reeleger os bons significa deixar mais espaço para aumentar o índice de ladrões ou corruptos. Em vez de não reeleger os bons, comece a votar neles, mesmo que não concorde com sua corrente ideológica. Eu sou contra a maioria das coisas que o Marcelo Freixo pensa, não gosto do partido dele, o Psol, mas votaria nele. Não por que é honesto, já que isso é uma obrigação básica a todos os seres humanos, especialmente aos políticos. Votaria por que ele é bom parlamentar e tem boas ideias para o Rio, o que faria dele um bom prefeito da Cidade Maravilhosa.
Mas não são só estas apologias, todas baseadas na mais canhestra ignorância da leis e da coerência, que me irritam. Outro discursos desagradável é o que gira em torno do salário pago ao parlamentar, em especial quando este é comparado com a remuneração de professores, PMs e bombeiros. O mal, em primeiro lugar, não é quanto se paga ou quanto custa um parlamentar e seu gabinete, mas sim quanto se paga a um professor, a um PM e a um bombeiro no País, valores que beiram o ridículo. Não é rebaixando o salário de um parlamentar que alguma coisa será resolvida, mas elegendo quem vai brigar por aumento para estas categorias.
Aliás, neste ponto da remuneração do parlamentar, paremos para pensar: se um deputado ou senador, no sistema político atual, passar a ganhar salário mínimo, como muitos propõem, como será que ele vai conseguir viver? Não precisa pensar muito: o caminho já existe, expresso em mensalões, subornos, propinas, achaques. Ah, mas aí não vamos gastar dinheiro com essa gente... Errado de novo. Vamos dar um cheque em branco para a bandalheira. No fim, tudo ainda vai piorar mais.
Para que, um dia, tenhamos parlamentares sem remuneração, precisaríamos de outro sistema eleitoral, de outra mentalidade do eleitor e do eleito, o que só vem com educação em longo prazo. Uma educação em duas pontas: a do eleitor, de só eleger quem efetivamente vai contribuir com o progresso social, e não o "meu camarada" ou alguém que paga seu voto com emprego, dentadura, camiseta ou projeto de obra; e a do político, para que este seja capaz de encarar um parlamento sem remuneração e sem aceitar "amaciamentos", atuando única e exclusivamente pelo bem social.
Em curtas palavras: esperemos alguns séculos.
Sobre os servidores e assessores dos políticos, o errado não é o quanto se paga ao cara, mas a política que está no entorno disso. Errados são os critérios de escolha dos cargos de confiança, sempre difusas, baseadas em indicações, em pedidos, em promessas, em toma-lá-dá-cá. Errado é existirem cargos de confiança com remuneração acima da paga aos servidores, o que faz com que o servidor tenha a desculpa de não trabalhar por inveja do salário alheio e com que o terceirizado se esconda do trabalho por que não tem a estabilidade do servidor, armadilha montada pelo sistema atual, completamente perverso e feito para não funcionar.
De mais a mais, no meio da bandalheira, há servidores e assessores que trabalham muito e ganham muito e há servidores e assessores que trabalham muito e ganham pouco. Infelizmente, em medida maior, há servidores e assessores que não trabalham, ganhando muito ou pouco, e são estes que oneram as contas. Um passeio pelos gabinetes na Câmara, no Senado e em várias esferas do Executivo vai mostrar que, por incrível que pareça, há gente trabalhando. E bastante. Mas também vai faltar gente por lá. Por que tem mais gente vagando, como um fantasma, apenas em busca do contracheque e do plano de saúde.
A solução? Ponto eletrônico biométrico e proibição de regime especial de frequência, aquele em que o sujeito é dispensado de "bater o ponto". Pergunte se alguém quer isso? Ninguém. Nem mesmo os que ainda estão estudando para concurso e que querem, no futuro, entrar no serviço público, não para atender os desvalidos e necessitados, mas para "não ter patrão", esquecendo-se que o patrão de um servidor é o povo, ou seja, é ele mesmo, em última análise.
No fundo, todo o problema político relaciona-se ao problema básico desta nação: a educação. Não apenas a educação formal, primário, ginásio, científico e universidade, hoje dividido em Ensinos Fundamental, Médio e Superior. É de educação política, de educação moral e de educação cívica. E isso começa na base, em casa, de criança.
O pai e a mãe têm de ensinar o filho e a filha a fazer o caminho certo na porta da escola, mesmo que isso implique em o moleque chegar atrasado e perder o primeiro tempo, e não sair cortando os outros ou largando ele no meio da rua, engarrafando o trânsito, ligando o "foda-se" social.
O pai e a mãe têm de ensinar o filho e a filha a pensar e a se comportar adequadamente na sociedade, e não transferir esta tarefa para professores, responsáveis apenas (e já é muito) pelo ensino formal de física, matemática, química, português, literatura, filosofia, história, geografia, biologia e muitas outras disciplinas que formam o cadinho de conhecimento que precisamos ter para um vida minimamente inteligente.
O pai e a mãe têm de ensinar o filho e a filha a votar sempre com consciência e escolher o melhor candidato ou a analisar a plataforma política, os projetos e a linha de atuação dos parlamentares, e não dizer que vai votar no vizinho por que, se o cara conseguir ser deputado, ele (pai ou mãe) "está feito".
O pai e a mãe têm de ensinar o filho e a filha a privilegiar as escolhas coletivas, em detrimento da obra na rua ou de mais PM no Lago Sul, tirando policiais das áreas carentes, onde eles são imperativamente necessários para dar àqueles cidadãos a mesma segurança que eu mereço.
O pai e a mãe têm de ensinar o filho e a filha a respeitar os outros, em qualquer situação.
O pai e a mãe têm de ensinar o filho e a filha a exigir seus direitos, mas respeitar os direitos alheios, em qualquer situação.
Enfim, se eu for enumerar tudo, não paro de escrever.
Já chega, né? Deu para descobrir que, se você quer um futuro e um presente diferentes, tem de encarar agora a responsabilidade, mudar seu jeito de pensar e parar de postar qualquer besteira no Face. A revolução é individual. Faça logo a sua parte.
Em tempo: não sou candidato a porra nenhuma. No máximo, a continuar sendo seu amigo no Face. Mas entendo se você me bloquear. Peguei pesado com você.

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