quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Voltei amargo

A parada foi longa. Nada nos últimos dias. Não voltei nem para comemorar a melhora dos meus palpites, por ter saltado de quatro para cinco acertos. Nada de Jogos Olímpicos. E nem comemorei aqui os 38 anos do Campeonato Brasileiro de 1974, ganho pelo Vasco em 1° de agosto daquele ano. Nada. Sumi daqui por quase cinco dias.
Tem motivo.
Pode ser trabalho
Ou pode ser uma tremenda digressão.
Foi mais por aí. Ando mergulhado em meus pensamentos. Em geral, quando estou assim, é por que enfrento meu maior desafiante, amigo e inimigo, aliado e espectador perverso: o tempo.
Sim, o tempo, o invisível companheiro de jornada nesta vida. Está comigo desde que nasci, desde minha infância. Me viu crescer, amadurecer, namorar, casar, separar, namorar, namorar, namorar, casar, ter filhas, me realizar. Sempre ali do lado, me vigiando. Tal como nesta linda música de Cristóvão Bastos e Aldir Blanc, que a Nana Caymmi imortalizou.


Pois é, o tempo é engraçado. É amigo e rival, um grande filho da puta e muito participativo. Me permite pensar e me tira da linha dos pensamentos. É companheiro e é valor ao mesmo tempo. Nada é mais valioso que ele. Nunca mensurável em reais, dólares ou euros, o tempo é uma onda que eu surfo, numa prancha pequena, sem saber onde e como vou chegar. Pode estar faltando muito, pode ser amanhã, a única coisa que sei é que o meu tempo está passando, acabando aos poucos, areia correndo na ampulheta da vida. Vagarosamente, sem que eu sinta. Ou numa pressa que eu não percebo.
Às vezes, vejo isso mais claramente. Basta olhar estas fotos abaixo...


Sou eu bebê, menino e me formando. Três momentos de vida, três  caras diferentes. Em comum, ali, eu e o tempo. Eu vivendo, ele passando, me espreitando, olhando o que estou sendo ou fazendo. Mas sempre em sua marcha inexorável, tic-tac, tic-tac, tic-tac, todo dia, todo ano.
O tempo é veloz e lento. Lento em um dia chato, veloz numa vida. Mal saí do calor do cueiro, me vi na vida, sendo pai e marido, profissional e trabalhador, com minhas dívidas e dúvidas existenciais de pano de fundo. Rápido demais. Dormi ontem, recém-casado, em outubro de 1992. Acordei hoje, com 20 anos de casado. Ao lado da mesma mulher. Raridade atípica e atemporal.
Meu Deus, como passou rápido. Ainda ontem eu estava jogando bola, driblando a vigilância da dona Nair, sempre pronta a mandar um assovio e o indefectível "sobe" se eu arriscasse a jogar pelo meio da rua sem carros, e não na grande calçada da Praia da Guanabara, em frente ao 731 e ao 737, de piso liso, onde a bola Dente de Leite rolava quase macia. Hoje, sou eu quem tenho de vigiá-la, mesmo à distância. Meus olhos chamam-se Isabel, Fernanda, Débora e Virgínia. Duas sobrinhas e duas cuidadoras.
Hoje de manhã, na fragilidade que os 83 anos trouxeram repentinamente, com o tempo, ela caiu. Machucou-se de leve, mas caiu. Doeu lá e aqui. Lá, em todo mundo, que correu para socorrê-la. Aqui, em mim, por não dar conta de estar por perto. Me cobro uma proximidade que não posso oferecer.
Não consigo lidar com alguns sentimentos. Detesto ver criança abandonada. E detesto ver pessoas antes produtivas (especialmente se eu as amar) irem se apagando, aos poucos, com a ação do tempo. Como ocorre com minha mãe. Podem me chamar de mau filho, de ingrato, de tudo, mas não dou conta de ficar muito tempo perto dela nos dias atuais. Tenho raiva da situação que ela vive, vontade de chorar, me ataca uma descrença. Me faz mal. Muito mal. Então eu fujo, ela sofre e sofremos cada vez mais.
Culpa do tempo, que fez com que ela, em questão de meses, experimentasse uma total decadência física e mental. Até bem pouco tempo, ela parecia com esta mulher aí do lado. Hoje, está cada vez menos parecida. Pouco restou da mulher decidida, que vivia mandando na vida alheia, que encheu meu pai, minha irmã e eu com seus excessos, mas que tinha virtudes.
Tenho um encontro marcado com ela no fim do mês. E temo o que verei. E ainda uma nova questão: será que a verei? Será que ela estará viva? Será que me reconhecerá? Será que eu terei coragem?
Sei que certas coisas são inevitáveis. Talvez ela tenha Alzheimer e esteja vivendo seus últimos momentos de esforço, de vontade de resistir à face destruidora do tempo, sua cara mais tenebrosa, a que acaba com o que construímos. O tempo e seus aliados, muitas vezes, são cruéis. E aí me dá também um bocado de autopiedade: e se eu estiver no mesmo caminho? E se o que o tempo me reserva for o mesmo que reservou a ela? Afinal, ambos somos dependentes químicos, ela do tabaco, eu da cocaína. A diferença é que eu larguei. Mas serei sempre um dependente. Jamais posso chegar perto. Ela nunca largou. Melhor: agora, está largando. Não por vontade, mas por que, hoje, a vontade dela está à mercê do que nós, filho e netos, queremos. Tudo, aliás, que ela sempre repeliu e me ensinou a repelir. E agora, o que faço com as lições que tive? Rejeito? Abandono?
A religião que abracei fala em reforma íntima. Bonito demais, mas difícil de cumprir. Não avancei nem 10%. Também lembra que não podemos desperdiçar o tempo. Mas ele vai passando e me pego imerso ainda nas mesmas dicotomias, nos mesmos problemas, nas mesmas falhas. E ele lá, me olhando e passando.
São 47 anos. Não sei mais quantos serão. Não sei se eles terminarão da maneira como estão terminando os de mamãe. Só sei que esta é minha angústia, que tem tirado minha vontade de escrever.
Desabafo feito. Desculpe o mau jeito. Eu não queria estragar o seu dia. Nem o meu.

Nenhum comentário:

Postar um comentário