Uma das coisas que o tempo fez comigo foi aumentar a minha cautela. Quando jovem, não era muito chegado a arroubos. Sempre fui mais reflexivo que a média. Não ia no "vai da valsa". Gostava de pensar um pouquinho a mais a respeito de um tema antes de me posicionar. Foi por causa disso, por exemplo, que jamais assinei ficha de filiação no PT, partido que conquistou gente muito próxima a mim. Preferi, esquerda que era, filiar-me ao antigo partidão.Isso não me impediu de participar de vários momentos da vida pública. Fiz discurso na Brizolândia contra as tarifas de ônibus, estive em comícios como os das Diretas Já e do Lula, em 1989. Cobri campanhas presidenciais e depois fui protestar para tirar o Collor, em 1992. Na paz, na calma. Sem juvenilidade. Sem pôr fogo em lixeiras ou carros de reportagem. Exercendo meu direito de cidadão.
Hoje em dia, esta característica se acentuou. Sou cada vez mais cauteloso com tudo. E observador. Não sou mais "de esquerda". Nem "de direita". Gravito numa faixa que muita gente acha incoerente, mas que combina comigo. Concordo, com especial entusiasmo, com o sistema de cotas raciais e sociais para ingresso no ensino público, por entender a necessidade de se corrigir o histórico preconceito contra negros e pobres neste país. Sou favorável à bolsa família no conteúdo, mas contra a forma, que não entrega aos beneficiários nenhum tipo de qualificação profissional ou estudantil, limitando essa última ação, mal e porcamente. aos seus filhos. Sou favorável à livre concorrência, por entender que ela, se for realmente livre, sem combinação de preços, me beneficia. Sou pela livre iniciativa, desde que se garanta ao pequeno empreendedor a condição de disputa em pé de igualdade com os gigantes.
Este posicionamento de vida, contraditório para muitos, moderado para uns e conservador para outros, me deu calma mais do que necessária para avaliar a movimentação que ocorre hoje em várias capitais do País, incluindo Brasília. O que começou como uma revolta contra um aumento de 20 centavos - o que, percentualmente, dá 6,7%, um tanto salgado - foi, aos poucos tomando muitas caras.
No frigir dos ovos, o cesto de reivindicações populares centra-se, principalmente, nos seguintes pontos:
A) Realização da Copa do Mundo/Jogos Olímpicos
B) Transporte público
C) Educação
D) Saúde
E) Violência policial
F) A classe política
Coloquei, de propósito, os dois grandes eventos desportivos no topo da lista. Eles foram uma espécie de combustível para que se desenhasse a conscientização sobre os demais. Uma conscientização tardia.
Quando fomos escolhidos, em 2007 e em 2009, para sediar os os dois eventos, a festa foi geral. Quase um êxtase coletivo. Éramos primeiro mundo. Estávamos na rota dos grandes eventos, iríamos crescer, entrar definitivamente em outros tempos.
Lembra? Nâo? Veja a festa dos Jogos Olímpicos...
Para isso, bastava construir estádios, hotéis, abrir vias urbanas. Tudo o que é combatido pela brasileira Carla Toledo Dauden, radicada em Los Angeles e que gravou este vídeo abaixo, que já tem mais de 1,5 milhão de acessos:
Em 2007, a Carla, autora do vídeo acima, tinha 17 anos e, provavelmente, boa parte da consciência de hoje. E já podia ter feito seu filme, sobre as consequências da Copa, pois todas eram previsíveis. Bastava olhar o que ocorrera com os Jogos Panamericanos de 2007. E olhar um bocadinho para as exigências que a Fifa faz a quem quer uma Copa.
Aos candidatos, ela encaminha um documento chamado Caderno de Encargos mostrando, com detalhes, tudo o que precisa para realizar uma Copa em um país. Ali fica claro que a brincadeira não se parece nada com a dos anos 1950, quando sediamos a competição pela primeira vez. Mas a mesma Fifa, que é dona do espetáculo e exige o que quer, alerta que o ideal é fazer negócio em nove estádios. Foi assim, por exemplo, na Alemanha.
Mas a classe governante, pela ganância, preferiu realizar em 12 cidades. Dava para desviar mais. Aí está a primeira chave da revolta: quanto vai sair a festa? E quem vai estar nela?
Quem já foi a uma Copa sabe que o preço do ingresso é caro. Não só na Copa do Mundo. Um jogo de Champions League é caríssimo. Motivos? Ali estão os melhores, o estádio é confortável e, ao contrário do que sempre foi, o futebol em campo deixou de ser programa popular. Certo ou errado, quem vive este meio decidiu, há muitos anos, que lugar de povo é em casa, vendo TV e recebendo toda a propaganda possível. No estádio, só quem pode pagar.
Não era assim no meu tempo de jovem. Mas isso também mudou. Acho que foi para pior. Mas é preciso ver onde isso vai chegar.
Ao longo dos últimos seis anos, fomos assistindo a um despautério de gastos com a Copa. Não por culpa do evento em si, que é, como disse acima, elitista e caro. Mas nós, como país, o queríamos. Queríamos ver a Copa. Até que, com o advento da Copa das Confederações, a ficha começou a cair: o negócio não é para todo mundo. E nem dá para descolar um troco, pois os entornos dos estádios são, também, administrados pela Fifa.
Caramba, privatizamos, sem querer as ruas do país.
Não, privatizamos querendo. Isso tudo estava lá, quando nossos governantes se dispuseram a trazer a Copa. E a culpa não é da "petralhada". Com o cenário daquela época, todo e qualquer sujeito que estivesse no comando iria querer a Copa e os Jogos Olímpicos. Todos os donos dos palácios ambicionavam e ambicionariam surfar na crista da onda do Brasil à prova de crises e marcar seu nome na história.
Só esqueceram-se de convidar o povo para a festa, de alguma forma. Pior: avisaram que iria ter uma festa paralela, mas não realizaram nada. Falaram em legado, em transporte de qualidade, em muitas outras soluções de primeiro mundo, como BRTs, VLTs e outras siglas pomposas, quase todas em inglês. E não realizaram nada.
Fizeram estádios. Caros, superfaturados. E contrariando tudo o que disseram. De infraestrutura, nada.
Na época da Copa, o papo era de Parcerias Público-Privadas (PPPs) para construí-los. O governo não colocaria um centavo. Contaram uma bela mentira. Ninguém se mexeu. Mas o contrato estava assinado e era preciso fazer a Copa. Então...
Então socaram todo dinheiro possível. A despesa já bateu em R$ 28 bilhões, segundo números oficiais (http://esportes.terra.com.br/futebol/custo-para-copa-de-2014-sobe-10-e-chega-a-r-28-bilhoes,f37d3d49d455f310VgnCLD2000000ec6eb0aRCRD.html), mas pode acabar em R$ 33 bi. E essa é a conta só da Copa. Falta a dos Jogos Olímpicos.
Festa cara para um país com saúde precária, educação sucateada e transporte público que é um caos.
E aqui vou emendar o ponto de contato com os protestos, que é a chamada Guerra do Transporte, como alguns jornais apelidaram o levante que começou por São Paulo e chegou a vários estados, carregando nele cenas lindas e lamentáveis, protestos conscientes e destruições babacas.
Ao aumentar em R$ 0,20 a tarifa em São Paulo, o neófito prefeito Fernando Haddad, cujo currículo ostentava vários problemas em seguidas provas do Enem, acendeu, sem saber o pavio da revolta. Não que ela não fosse estourar por outro motivo. Mas os 6,7% a mais (mesmo que não diretamente na carteira do povo, já que, como se sabe, o transporte para o trabalho é custeado pelos empregadores, com desconto até 6% dos salários, e se estes não aumentam, o percentual retido não varia), em uma hora em que pipocavam notícias de estádios com gasto acima de R$ 1 bilhão era a gasolina que faltava para o primeiro coquetel Molotov. Ainda mais em tempos de carestia acentuada, trazendo de volta um fantasma que nenhum jovem conhece: a inflação.
No bojo desta insatisfação (festa cara, sem minha presença, aumentos goela abaixo), a cabeça se levanta, olha em volta e percebe-se que, com a saúde segue precária (e, pior, com hospitais privados e os caríssimos planos de saúde atendendo de forma ridícula), a educação que segue aprovando o aluno sem que ele aprenda e muitas outras mazelas, a hora é de ir para a rua. E sem nenhuma bandeira específica, mas com todas na mão.
O resultado de uma dispersão grande de insatisfações foi duro. E a repressão, como sempre violenta. Sem tiros de chumbo, mas com bombas, balas de borracha e cassetetes. A receita que passa de geração em geração, de PSDB para PT, de Arena para MDB.
Fora da festa, sem direitos ou garantias, apanhando, sem saúde, sem educação decente, sem diretriz, o caminho para o protesto anárquico e para o surgimento de todo o tipo de descontentes, de esquerda à direita, era inevitável. Viu-se, então, a imprensa mudar de lado, como sempre; a polícia deixar as ruas; e o poder central de todos os lugares se perder.
Ao fim disso, começam a pipocar as "lideranças". Ainda sem cara e com um discurso confuso. Repare neste vídeo abaixo, postado ontem:
Coberto com a máscara usada no filme "V de Vingança", ele desfila as primeiras causas. Cinco causas. Não é mais uma batalha por baixar tarifas, mas para "construir um novo Brasil". Sem polêmicas religiosas ou ideológicas e sem conotação partidária, mas "causas de cunho moral que são unanimimente aceitas" (como se isso fosse possível). Listo-as abaixo:
1) Não à PEC 37 (a que deixa o MP fora de investigações)
2) Saída de Renan Calheiros da presidência do Senado, por consequência do Congresso Nacional
3) Investigação e punição de irregularidades nas obras da Copa, pela PF e MPF
4) Lei que torne crime hediondo a corrupção no Congresso
5) Fim do foro privilegiado
Uma das exigências, feitas por um líder mascarado, é inexequível. Pela mesma constituição que ele defende, é impossível que PF e MPF punam as irregularidades nas obras da Copa. Podem investigar e denunciar, mas punir, nem pensar.
Todas as pedidas, reparem, são de cunho político. Onde está o ganho social? A cobrança por melhoras no transporte público? A exigência de gastos com saúde e educação para que se resolvam os problemas estruturais deste país?
Em lugar algum. A mira está em um único ponto: o Congresso. Ali foram identificados os inimigos: os parlamentares. Os mesmos que foram eleitos há três anos, por voto popular, e que de lá devem ser removidos, por não prestarem (e a maioria não presta mesmo), pelo mesmíssimo instrumento.
Eis aí o cerne da coisa. Tudo o que ocorre hoje é pano de fundo para uma mudança política. O que os líderes mascarados, os manifestantes, o povo (que não está nestes eventos, pois, pelo perfil dos manifestantes, 84% é apolítico e 71% tem nível superior), os jovens entusiasmados e até eu queremos é uma imediata reforma política. Uma reforma que permita maior participação, via referendos, da população em decisões, como, por exemplo, a organização de uma Copa ou Olimpíada - pois elas não são as culpadas diretas pelos despautérios, mas sim o jeito como as coisas são feitas, goela abaixo, por qualquer governo deste imenso país..
Essa pode ser a grande transformação do País: virar uma democracia popular, ouvindo a gente deste Brasil. Não só de quatro em quatro anos, mas sempre que for necessário. Mas, para que isso chegue, será preciso agir diferente. É realizar a Copa e as Olimpíadas, mas exigir, com civilidade, que haja uma contrapartida social para tudo o que foi gasto, com a utilização, por exemplo dos caríssimos aparelhos pelos alunos das escolas públicas. É manifestar-se sem depredar o que é público ou privado. É entregar os vândalos à polícia, para que esta os prenda e a Justiça os processe. É agir com absoluta cidadania, sem mais ceder espaço às pequenas transgressões individuais, como dar caixinha ao guarda ao fazer uma contramão. É votar com consciência, não por cabresto ou interesse. E, sim, exigir mudanças. As ruas devem ser ocupadas, mas com foco, com diretriz e com pedidas exequíveis e consensuais.
É o chamado pacto social.
Por ele, por exemplo, se um referendo apontar que não devemos proibir o porte de armas, como foi votado anos atrás, todos devem aceitar. Se outro referendo apontar a legalização do aborto, também. Mas também temos de acatar a decisão caso a mesma sociedade decida que ele continue proibido. Ou se a população, em sua maioria, votar em favor do Estatuto do Nascituro. Porque é da democracia.
A não ser que tudo isso seja uma grande orquestração, movimentada por 250 mil pessoas (pouco mais de 0,12% da população) para controlar, de acordo com seu bel prazer, os destinos e as opiniões de 199.750.000 brasileiros. E o nome disso é um só: ditadura.
No aguardo, ainda preocupado com o rumo da coisa, sigo de olho, desconfiado. Ainda pode dar uma grande calamidade.
Nenhum comentário:
Postar um comentário