segunda-feira, 17 de junho de 2013

O jornalista e a mídia são tão omissos quanto se pensa?

O surgimento das redes sociais foi uma maravilha. Apesar dos excessos em seu uso, com uma presença e uma importância exagerada em nossas vidas, elas podem ser muito positivas e importantes para as pessoas. Parentes e amigos do passado puderam reaparecer. A disseminação de informações ficou mais ágil. O contato, mais dinâmico. Muita coisa melhorou.
Mas as redes sociais, como a mãe delas, a internet, trazem vícios de origem. Nelas, algumas mentiras ganham contorno de verdade, repetidas à exaustão pelos mais ingênuos e, principalmente, pelos manipuladores de plantão.
E eis aí seu risco.
Uma destas mentiras é sempre recorrente: as mídias sociais desmoralizam as empresas tradicionais de comunicação e trazem a verdade à tona.
Mentira grossa. Deslavada. Mal intencionada.
As empresas tradicionais de comunicação são, como se sabe, mais ligadas ao espectro neoliberal ou de direita. São assim há décadas. Ninguém que compra O Globo, vê a TV Globo ou ouve a CBN espera algo diferente da opinião de Miriam Leitão, Merval Pereira, Arnaldo Jabor. Quem lê, ouve ou vê quer estas opiniões, seja para ajudar a forjar a sua, seja para se irritar com o que eles falam - porque tem gente que dá audiência só para ficar p... da vida.
O mesmo ocorre com quem lê Veja, Estadão e Folha.
No campo contrário, a gente sabe que a turma mais identificada com os ideários da esquerda corre para veículos como o Brasil 247, a TV Record, a Carta Capital e outros. A receita é a mesma. O que o leitor quer está lá, seja por identificação, seja por indignação.
Como isso é assim desde o começo do século passado, fica difícil, para mim, compreender porque pessoas cujo pensamento político não batem com os da TV Globo e de O Globo se revoltam tanto com o que a emissora exibe e o jornal publica. Por que, meu Deus, o Jornal Nacional, o Faustão, a novela das 8 e a Míriam Leitão o irritam tanto? Por que não muda de canal, não compra outro jornal, não sai do site daquela empresa?
Mas eu sei a resposta: porque lá, mesmo que seja para sua indignação, você acha, contado por jornalistas de qualidade, um dos ângulos de uma história. E se você for minimamente esperto, vai juntar os vários ângulos das diferentes coberturas e estabelecer a sua verdade.
É assim, por exemplo, que eu faço. Não porque a "mídia quer controlar o que eu penso", pois isso é mais outra mentira. Faço deste jeito porque já cresci e sei que a melhor opinião é a que é pensada exaustivamente, depois de olhar os mais diversos ângulos.
Inclusive o ângulo proposto pelas mídias sociais.
Lá, se você não for um bitolado, vai encontrar milhares de fotos, opiniões e mensagens. Nenhuma delas contém a verdade. Existem uma série de verdades, formadas a partir do jeito que se observa um fato. E quanto mais você o observa de forma isenta e distanciada, sem arroubos de paixão, mais fácil fica de chegar perto de uma verdade mais sólida.
Vou pegar como exemplo o confronto na porta do Mané Garrincha no sábado.
Em relação à mídia, por exemplo, a crítica é que "a cobertura é uma vergonha". Que a "mídia" omite fatos importantes. Que a imprensa "manipula a consciência".
Mas que cascata é essa?
Por acaso este pessoal sabe, por exemplo, qual foi o contingente de repórteres deslocados para a cobertura daquele evento? Sabe quantos seriam o ideal? Sabe como eles deveriam ser orientados?
Duvido. Mas logo esclareço: a cobertura de um fato como aquele conflito na porta do estádio precisaria de, pelo menos, dez repórteres e o mesmo contingente de fotógrafos. Para pegar todos os ângulos: o de quem foi para protestar na paz, como vi vários; o de quem foi lá para provocar quem queria assistir ao jogo, xingando de "rico, babaca, filho da puta e alienado" quem pagou 38 reais para ver o jogo; o de quem foi para lá fazer performance, vestindo trajes teatrais e desempenhar um papel em favor dos "removidos" sendo que, em Brasília, ninguém foi removido; do PM que babava de vontade de acertar umas porradas nos garotos, identificando neles a classe que o oprime; do PM que queria estar dentro do estádio, de folga, torcendo pelo Brasil; de quem foi para o jogo apoiando o protesto; de quem foi para o jogo achando que o protesto era coisa de "maconheiro da UnB"...
Se eu continuar, vamos ficar o dia todo expondo perfis.
Já deu para sentir que jornalismo não é mole. Parece mole: fala com uns caras espancados pela PM, dá a versão dele e faz "justiça social".
Aí eu pergunto: isso é jornalismo?
É jornalismo não noticiar que um PM arrebentou a própria viatura? Mas quem viu o PM arrebentar a viatura? Foi um jornalista? Duvido, amigo. PM jamais faz isso na frente de quem vai estampá-lo na capa de um jornal.
É jornalismo, por exemplo, omitir que depredaram agências bancárias em SP? Mas quem manda o manifestante ser exibido a ponto de fazer isso na cara de um repórter?
Por isso eu tenho a pior profissão do mundo, com mais gente assassinada que qualquer outra. Eu e meus colegas (menos eu, que hoje vivo de comunicação, mas fora de uma redação) temos de ter o dom da onipresença, relatar apenas o que um dos lados quer (quando temos o dever de ouvir ambos) e ainda levar na cara que minha linha de pensamento é a mesma da empresa que eu trabalho.
E, pior, ver todos os dias minha profissão ser esculhambada por um monte de caras que não sabe fazer a deles, mas que diz saber como nós devemos fazer a nossa.
Conselho final: leiam muito. Leiam de tudo. E pensem: um repórter é capaz de ver apenas o que está na frente dele. As empresas filtram o que chega. E sua timeline tem mais mentirosos do que você pensa. Junte isso, pense muito e boa sorte.

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