Enquanto celebrava o campeonato dos segundos quadros da Segunda Divisão, seu modesto primeiro título no futebol, o Vasco assistia os então grandes cariocas realizarem seu esporte favorito: a
virada de mesa. Reclamando que o Carioca de 1920 tinha sido inchado, com dez
clubes na primeira divisão, o Fluminense, presidido por Arnaldo Guinle (que até 1920 era o mandachuva da CBD, organismo máximo do futebol brasileiro), conseguiu convencer a Liga Metropolitana de Desportes Terrestres (LMDT) a
reorganizar a Primeira Divisão em dois grupos, a partir de 1921.
No grupo A (a primeira divisão de fato) ficaram os sete primeiros colocados em 1920, Fluminense,
Flamengo, Botafogo, América, Andaraí, Bangu e São Cristóvão. Palmeiras, Villa
Isabel e Mangueira, os três últimos do Campeonato Carioca da primeira divisão, juntaram-se ao Carioca (campeão da
Segundona de 1920), Mackenzie, Americano e Vasco, no chamado grupo B.
Na
verdade, houve uma puxada no tapete do Carioca, time que armou contra o Vasco o quanto pôde em 1920. A equipe do Jardim Botânico ficou no grupo inferior e perdeu o direito de disputar a vaga na primeira divisão na partida eliminatória contra o Mangueira. Além disso, a manobra comandada pelo Fluminense decretou o rebaixamento na marra de Palmeiras e Villa Isabel, que teoricamente tinham se garantido em campo. Mas, como todos eram times pequenos, engoliram a humilhação sem choro, nem vela, nem fita amarela.
Para compensar e justificar essa "reforma" na primeira divisão, os grandes criaram um monstrengo para definir o campeão: quem vencesse a Série B teria de disputar um jogo contra o último colocado da Série A. Caso vencesse, além de trocar a posição nos grupos com o perdedor no ano seguinte, ainda poderia enfrentar o campeão da Série A pelo título de campeão carioca. Se, no entanto, perdesse para o último colocado, o time ficaria na Série B, ostentando somente o título de campeão da Série B da Primeira Divisão.
Deu para entender? Pois é...
Essa "unificação" ainda prejudicou SC Brasil, Esperança FC, Hellênico AC, Progresso FC, SC Rio de Janeiro e River FC, que foram formar a Série A da Segunda Divisão (de fato, a terceira divisão), com o Metropolitano AC. Ou seja, os seis primeiros acabaram rebaixados, apesar dos resultados em campo. Na Série B da Segundona (a querta divisão) ficaram Bonsucesso FC, Campo Grande AC, SC Everest, Modesto FC e Ypiranga FC. Na prática, a Liga desenhou, a partir da ideia do Fluminense, quatro divisões, com sete times, no máximo, em cada uma. Para isso, valeu rebaixar até quem não devia.
Outra compensação que serviu também para justificar a mudança foi levar os clubes da chamada Série B da Primeira Divisão a participarem, pela primeira vez, do Torneio Início principal, torneio criado pelo jornalista Mario Polo, do Correio da Manhã. E eles mostraram ao que vieram, especialmente Vasco e Palmeiras.
Em 27 de março de 1921, nosso time alinhou com Nelson, Carlos Cruz e Bueno; Adão Antonio Brandão, Palhares e Barreira; Leão, Dutra, Medina, Torterolli e Fernandes. E começou eliminando o América, terceiro colocado da Primeira Divisão em 1920 por 2 escanteios a 1, após empate por 0 x 0 nos dois tempos de 10 minutos cada. Na sequência, com um gol de Bueno, o Vasco superou o Mangueira, vencendo por 1 x 0, e se classificou para a final com o Palmeiras, mas acabou derrotado também por 1 x 0.
Era um indício de que o ano seria
bom. O Vasco estava forte, inegavelmente. E ficaria ainda mais com a promoção de Mingote para o time principal e a contratação de Arthur, do Helênico, e de Godoy e Nolasco, peneirados nas ligas amadoras, uma prática cada vez maior no clube.
Forte como o Vasco, porém, era o sentimento antilusitano que varria a capital do Brasil de então, o Rio de Janeiro. João Manuel Casquinha Malaia Santos, importante historiador e doutor em História, discorre sobre o tema em livros, compêndios e teses. E prova, com farta documentação, como os jornais eram aliados nesta perseguição aos portugueses e ao Vasco, identificado como o "clube da Colônia".
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| Em pé, Palhares, Carlos Cruz, Nelson, Ernani Van Erven, Adão Antônio Brandão e Godoy. Agachados: Leão, Dutra, Torteroli, Negrito e Fernandes |
O segundo jogo, em 17 de abril, foi contra o Vila Isabel, no campo do Jardim Zoológico, que tinha um claro desnível, do qual o dono da casa se aproveitava e jogava o primeiro tempo na descida com força total, obrigando o adversário a encarar a subida. O resultado foi uma goleada por 4 x 1 dos donos da casa, que tinham um craque em campo: Sílvio Moreira, o Cecy, que faria história no Vasco pouco tempo depois deste encontro.
Atraindo um público sempre superior a mil pessoas e pagando 10% de sua bilheteria aos donos
dos estádios, o Vasco também começou a acalentar a ideia de ter seu próprio campo de jogo e engrossar sua receita. Enquanto isso
não ocorria, ia correndo de estádio em estádio, como nos 4 x 2 aplicados em 22 de maio sobre o Mackenzie, pela terceira
rodada, no campo do Botafogo, jogo teve renda de mais de um conto de réis - e mais de cem mil réis ficaram nos cofres do time de General Severiano.
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| O time do Vasco que empatou com o Carioca. O jogo marcou a estreia de Mingote, miscigenando ainda mais equipe |
O problema é que veio junho, e com ele um mês sem vitórias e uma terrível queda técnica. Primeiro, o empate com o Carioca (0 x 0), no dia 5, em Campos Sales, partida que marcou a estreia de Mingote no time principal e o reencontro de Esquerdinha e Quintanilha com seu ex-clube. Que, diga-se de passagem, não foi pacato. Irritados com a suspeita de corpo mole do ano anterior, vascaínos mais exaltados tentaram agredir Esquerdinha, como registrou o jornal O Imparcial - sempre ele...
Uma semana depois do encontro com o Carioca, um 2 x 2 com o Americano, na Rua Figueira de Melo, em São Cristóvão, voltou a atrapalhar. No dia 26, uma inesperada derrota em General Severiano, para o Mangueira, por 2 x 1, partida inicialmente marcada para 15 de maio, e adiada por causa das chuvas, causou um estrago na tabela. O péssimo mês de junho iria cobrar a conta. Com seis jogos, o Vasco fechou o turno em
terceiro lugar, somando seis pontos. Pouco diante das pretensões dos luso-brasileiros.
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| Torcida do Vasco na partida contra o Carioca, no turno em foto do jornal Sport Illustrado. O público só crescia |
Assim, era preciso força máxima no returno. A estreia, em 3 de julho, na Campos Sales, foi contra o forte Villa Isabel, que, mesmo sem seu campo desnivelado, vendeu caro a derrota, mas perdeu por 3 x 2. Um jogo cercado de expectativa e que rendeu ao Vasco um conto e quinhentos mil réis, o que demonstrava o crescimento da torcida. Porém, no dia 17, no campo da Estrada Dona Castorina, no Jardim Botânico, uma derrota também por 3 x 2 ante o Carioca praticamente decretou o afastamento vascaíno da briga pelo título.
Duas goleadas iriam acender as esperanças. Em 24 de julho, o time fez 4 x 0 sobre o Mangueira no campo da Rua Prefeito Serzedello Corrêa, hoje Barão de São Francisco, no Andaraí. E, em 7 de agosto, o Vasco marcou 5 x 1 no Mackenzie, na Rua Campos Salles, voltando ter chances de brigar pelo campeonato.
Só que a rodada de 21 de agosto iria sepultar de vez as nossas pretensões. Enquanto o Villa Isabel metia 5 x 2 no Mangueira, nós ficamos no 1 x 1 com o Palmeiras, na Rua Figueira de Melo. Com três pontos a menos que Carioca e Villa, nos restava manter a honra e o terceiro lugar na partida de encerramento do campeonato, contra o Americano, que estava em crise e só mandou dez jogadores a campo. Em 28 de agosto, nas Laranjeiras, vencemos por 2 x 0 e asseguramos o terceiro posto. No mesmo dia, o Villa venceu o Carioca por 1 x 0, em seu campo de subidas e descidas, e garantiu o direito de jogar as duas partidas valendo o título, como previa o complicado
regulamento da Liga.
Os deuses do futebol decidiram punir um pouquinho o então presidente do Fluminense, Arnaldo Guinle, articulador principal da virada de mesa. Com três vitórias, dois empates e sete derrotas, o tricolor das Laranjeiras foi o lanterna da Série A e teve de encarar o Villa Isabel para se manter, vejam só, na tropa de elite carioca... A partida foi realizada no feriado de 7 de setembro, em
General Severiano, mas o Villa Isabel perdeu por 3 x 1 e permaneceu na Série B em 1922. A derrota também confirmou,
sem necessidade de jogo decisivo, o título de campeão da cidade para o
Flamengo, vencedor da Série A após jogo-desempate com o America.
Para nós, o ano acabaria com bons resultados. Havia o costume de realizar festivais, nada mais que jogos amistosos conjugados com atividades sociais, para buscar renda. Como era proibido aos jogadores da LMDT participar dos festivais de times ou ligas não filiadas à entidade, todo mundo disfarçava o time como se fosse de uma empresa. Assim, em 9 de outubro de 1921, o Vasco, com a alcunha de Casa Portella Team, encarou o Bangu, terceiro colocado da Série A, na Rua Figueira de Melo. A goleada vascaína por 4 x 1 foi o primeiro sinal de que o time estava mais forte e iria brigar por título em 1922.
Uma semana depois, no festival da Caixa Beneficente da Guarda Civil, em Campos Sales, o jogo foi contra outra equipe da Série A, o Andarahy, que terminara o campeonato empatado com o Bangu. O empate em 1 x 1 reforçou a impressão de que o time estava pronto. Mas um novo encontro com o mesmo adversário, em 13 de novembro, deu o sinal de que era preciso ainda caminhar mais, já que formos derrotados por 2 x 1.
O fechamento da temporada viria em 27 de novembro, quando o time subiu a serra rumo a Petrópolis para disputar a Taça Atlas contra o Serrano FC, campeão da cidade e então um time forte. Vitória por 3 x 0 e o troféu conquistado, embora o time petropolitano tenha tido três gols anulados...
Fora de campo, a ideia de ter estádio próprio amadureceu de vez e a chance apareceu no mesmo novembro. O SC Rio de Janeiro, tradicional clube formador de jogadores, anunciou sua dissolução e o campo da Rua Moraes e Silva, já aprovado para jogos, ficou disponível para aluguel. Em dezembro, o dono da área, Alfredo Novis, ligado às corridas de cavalo (ali perto, onde hoje é o Maracanã, ficava o chamado Turf Club, nome da estação de trens), fechou um acordo com os vascaínos. O clube pagaria 650 mil réis por mês, os impostos e o seguro contra incêndio e ficaria com o campo demarcado, a área vizinha e uma pequena construção, com um salão, dois cômodos que serviriam para alojamento, cozinha e banheiros. Ali iria treinar o futebol, o atletismo e o basquete. Assim, o campo da Rua Barão de Itapagipe, onde o Vasco costumava treinar, foi devolvido.
O fim do ano era animador e um prenúncio do que estava por vir em 1922. Seria um grande ano, diga-se de passagem.



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