terça-feira, 28 de janeiro de 2014

A história do futebol no Vasco - as armações anti-vascaínas de 1920

O desafio de subir para o grupo de elite do futebol carioca começaria novamente em 1920, mas com uma mudança na Segundona: o Palmeiras subiu, no lugar do Carioca, time do Jardim Botânico. Não sem uma disputa complicada, já que, no primeiro jogo, o Carioca fez 4 x 1 e seria mantido na primeira divisão. Só que escalou Sebastião Pinheiro, o Villa, e Horácio Veiga, que não tinham condição de jogo, e a partida foi anulada. No jogo remarcado, vitória palmeirense por 4 x 2 e vaga na elite.

Com o Carioca e o Helênico, tradicional clube do Rio Comprido, campeão da Terceira Divisão e que foi promovido no lugar do Cattete, que desistiu do futebol, a segundona de 1920 seria ainda mais difícil. Para isso, era preciso reforçar o time. E o Vasco começou trazendo um jogador da primeira divisão: Jayme Fructuoso, ex-Andarahy, que se associou ao cruzmaltino. Além dele, vieram Carlos Medina, do SC Rio de Janeiro, Domingos Passini, o Mingote, descoberto num time amador da Saúde e que seria um dos titulares da campanha de 1923, e Alípio Martins, o Negrito, do Lapa FC. 

Estreamos bem, vencendo o Americano, por 4 x 2, em 21 de março, na Rua Campos Salles. Ali já se podia ver o desenho do time que, mais tarde, dominaria o futebol carioca. Naquele dia, foram a campo Nélson Conceição, Horário Rosa, Carlos Cruz, Manoel Barreira Benedito Palhares e Arnaldo Quintanilha; Negrito, Leão, João Lamego, Antonio Silva e Aristides Batista, o Esquerdinha. 

Na sequência, duas vitórias atuando em Campos Sales: em 2 de maio, 2 x 1 no Rio de Janeiro; no dia 16, Vasco 4 x 0 no Brasil. O time era líder invicto.  Porém, a derrota para o Mackenzie por 2 x 0, no campo do Andarahy, em 30 de maio, complicou um pouco. Só que, com uma sequência de quatro vitórias consecutivas, o time voltaria à ponta. Primeiro, um 6 x 3 no Esperança, na Rua Campos Sales, em 13 de junho; depois, 3 x 0 sobre o Helênico, em 20 de junho, em plena Rua Itapiru; a seguir, um suado 2 x 1 no Ríver, na Piedade, em 27 de junho; e 4 x 1 sobre o Progresso, no campo da Rua João Rodrigues, no dia 4 de julho.

E aí veio o jogo chave: Vasco x Carioca, em 1° de agosto. 

A semana deste jogo fora complicada. Os dois times, e o Mackenzie, disputavam a ponta jogo a jogo. Com um ponto a mais que o rival, o Vasco estava empatado com o Mackenzie e, se vencesse, poderia abrir boa vantagem, numa época em que a vitória só valia dois pontos. Se, em campo, o Vasco ia bem, fora dele faltava a articulação de bastidores, o que sobrava no Carioca. Um mês antes do jogo, o time do Jardim Botânico já colocava em dúvida a condição de jogo de Esquerdinha e de Quintanilha. E tudo com o auxílio da mídia, em especial do jornal O Imparcial - que de neutro não tinha nada.

Ainda sem notar o tamanho da articulação contrária ao Vasco, o time entrou em campo e atropelou: 4 x 1 no Carioca. O time já sonhava com a promoção à primeira divisão e torcida ia em peso ao estádio. Nesta partida, o Vasco conseguiu sua primeira renda acima de um conto de réis, batendo em um conto e 264 mil réis.

Mas o Carioca não digeriu bem a derrota e a liderança vascaína. E logo formalizou uma denúncia sobre a condição de jogo da dupla, acusando Esquerdinha e Quintanilha de serem profissionais - ou seja, receberem para jogar futebol. Era evidente a má vontade com o Vasco, como mesmo atestou o presidente Marcílio Telles - que, ainda por cima, tinha de encarar uma feroz oposição dentro do clube. Tumultuado internamente e sob fogo cruzado do time da Zona Sul (sempre esse pessoal da Zona Sul contra o Vasco...), a partida acabou sendo anulada e remarcada para o dia 7 de novembro.

O bafafá envolvendo os atletas acabou afetando a estreia do Vasco no returno e criando um clima anti-vascaíno, que não seria novidade em nossa história. Assim, em 8 de agosto, o time da cruz de malta iria enfrentar o Rio de Janeiro e o ódio dos rivais. O encontro foi na Rua Moraes e Silva e ficou marcado pela violência contra torcedores e jogadores vascaínos. Em campo, Negrito foi agredido por um adversário e estourou uma briga, contida pelos policiais com golpes em cima dos vascaínos. Sem garantias, o presidente tirou o time de campo com o placar adverso de 2 x 1, como registra o livro do historiador vascaíno José da Silva Rocha. Uma atitude contra a violência que deveria ter sido copiada por outros presidentes cruzmaltinos, se eles conhecessem a história do clube.

Mas, na imprensa... Na imprensa, o discurso era diferente. Ela via a torcida do Vasco como culpada. Até o jornal O Paiz, do português João Lage, criticou o comportamento dos torcedores naquele encontro. 

Sem se importar ainda com esta questão de bastidores, a reabilitação vascaína viria num maiúsculo 5 x 0 sobre o Ríver, em Campos Sales, no dia 29 de agosto. Só que, depois, viria o estranho jogo contra o Helênico... No dia 5 de setembro, em General Severiano, o Vasco acabou derrotado por 3 x 2, com uma atuação abaixo do esperado. Tal fato fez com que alguns sócios voltassem sua atenção para a dupla Esquerdinha e Quintanilha, mais tarde acusando um deles de ter recebido suborno do time rival, fato nunca comprovado.

Atacado por fora e por dentro, o Vasco voltou a colher uma outra derrota por 3 x 2, desta vez para o Americano, em 10 de outubro, na Rua Paysandu, campo do Flamengo. Enquanto nossa espiral era de queda, a do Carioca era de alta, vencendo partidas seguidas. Uma breve reação, com vitórias por 3 x 1 sobre o Progresso, em 24 de outubro, na Rua Figueira de Melo, e por 1 x 0 sobre o Esperança, no Marco VI, deixou o time pronto para encarar o Carioca outra vez.  

O jogo na Rua das Laranjeiras foi disputado. Só que, sem poder escalar Quintanilha e Esquerdinha, o Vasco perdeu por 2 x 1. Uma derrota que atrapalhou definitivamente as pretensões do clube, pois, com a nova desistência do SC Brasil, o Vasco levou os pontos da partida que seria disputada em 12 de novembro. Dentro do clube, a situação de Esquerdinha e Quintanilha ficou cada vez mais complicada e os dois acabaram eliminados do Vasco.

Com isso, a 19 de dezembro, Vasco e Carioca voltariam a se enfrentar, em uma partida repleta apenas de rivalidade, pois o campeonato já estava decidido em favor do time do Jardim Botânico. A derrota por 2 x 0 só confirmou o título. Na partida final, em 26 de dezembro, um empate por 3 x 3 com o Mackenzie tirou do Vasco até mesmo o vice-campeonato, deixando o time em quarto lugar, um ponto atrás de Americano e Mackenzie, empatados em segundo, e a seis do Carioca, campeão da Segundona de 1920.

Curiosamente, os questionados Esquerdinha e Quintanilha teriam clube novo em 1921. Sim, foram jogar no Carioca... E a única gritaria que houve contra isso foi do Vasco. O time do Jardim Botânico só recebeu uma moção de censura por ter contratado jogadores eliminados por um rival. Mais uma lição para aprender.

Um título para chamar de nosso

A compensação pela frustração na temporada de 1920 seria o primeiro título do Vasco no futebol. Uma conquista modesta, mas que evidenciava que o trabalho estava sendo feito com capricho. Naquele ano, o clube conquistou o título de campeão dos segundos quadros da Segundona. Como o futebol, à época, não previa substituições, as equipes possuíam os chamados segundos quadros (algumas, como o Vasco, devido ao interesse dos associados, também tinham o terceiro), com os jogadores reservas. Este torneio deu origem, mais tarde, ao chamado campeonato de aspirantes, disputado por jovens subidos dos juniores e reservas, com jogos nas preliminares das competições principais, que sobreviveu até 1970.

Durante a disputa do campeonato dos segundos quadros de 1920, Vasco e Helênico terminaram a disputa com 30 pontos. Os nossos foram conquistados da seguinte maneira: 2 x 0 no Americano; 0 x 4 para o Rio de Janeiro, que perdeu os pontos por escalar jogadores sem condição; 4 x 1 no Mackenzie; 2 x 0 no Esperança; 1 x 4 para o Helênico; 6 x 1 no Ríver; 4 x 0 no Progresso; 1 x 0 no Carioca; 5 x 3 no Rio de Janeiro; 4 x 0 no Ríver; 0 x 2 para o Helênico; 0 x 2 para o Americano; 4 x 1 no Progresso; 7 x 2 no Esperança; 1 x 0 no Carioca; e 5 x 1 no Mackenzie - o Brasil entregou os pontos de seus jogos.  

Por causa das marchas e contramarchas da Liga, que veremos no próximo capítulo desta série, as duas equipes só puderam disputar o título em março de 1921, em um jogo extra. Alinhando com Miguel Cavalier, Ernani Van Erven e Carlos Pinto da Silva; Antonio Borges, Eudino Wubert e Djalma Alves de Sousa; Aquiles Pederneiras, Nicomedes Conceição (o Torteroli), Carlos Gomes Faria, Adão Antônio Brandão e Alfredo Godoy, o Vasco venceu por 4 x 2 e levou para a casa o seu primeiro troféu no futebol.

O título dos segundos quadros foi muito comemorado pelo Vasco
Um título modesto, mas muito festejado. Para celebrar, o clube cunhou medalhas de ouro 18 quilates e as ofereceu aos jogadores, bem como um jantar comemorativo, um chá de sexta-feira e um baile na Associação dos Empregados do Comércio.

Era o prenuncio de um grande ano. Mas 1921 começaria com mais uma virada de mesa... Mas vamos falar disso somente amanhã, em mais um capítulo da saga vascaína pelos campos e tapetões do futebol.

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