Nascido em 21 de agosto de 1898,
o Club de Regatas Vasco da Gama tornou-se, logo nos primeiros anos, o maior
campeão do remo carioca. Em 1905 e 1906 vieram os dois primeiros títulos. De 1914
a 1916, o primeiro tricampeonato, desbancando os maiores papões de títulos as
regatas à época, o Gragoatá e o Santa Luzia. Mas, na sociedade carioca daqueles
tempos, um esporte começava a ganhar corpo e desviar a atenção de homens e
mulheres de todas as idades, o recém-introduzido football.
Não só na Cidade Maravilhosa, mas
em todos os estados do país começava a haver um interesse crescente naquele
esporte jogado por 11 de cada lado e com uma bola. Em terras cariocas,
Fluminense, Botafogo e América ganharam a companhia de outro clube, o Flamengo.
As torcidas cresciam, arrebatavam público das regatas de tal forma que foi
preciso até mudar o horário das provas do remo...
No meio desse movimento, vários
clubes de lusitanos começaram a se organizar. O Luzitania Sport Club, o Luso
Football Club, o Centro Português de Desportos, o Sport Club Luzitano... A
maioria, porém, exclusiva para portugueses. Tal como ocorria com os ingleses no
Paysandu e no Rio Cricket, até mesmo a colônia lusa, sempre adepta da
miscigenação, preferiu separar-se dos brasileiros em seu início futebolístico.
Assim, em 1915, comandado por
Raul da Silva Campos, o Vasco, clube em que brasileiros e portugueses podiam se
associar livremente e que já tivera o mulato Cândido José de Araújo a
presidi-lo, passou a considerar a hipótese de se aventurar pelo mundo da bola.
À época, uma cisão dividiu o Luzitania em dois, o que era uma oportunidade para
se criar o departamento de football. A ideia era simples: fundir o Luzitania
com o Vasco. O problema seria quebrar a resistência de alguns tradicionalistas,
que não queriam abrir este departamento competitivo no clube.
Em assembleia no dia 26 de
novembro de 1915, mesmo com parecer contrário de uma comissão formada para
analisar a fusão, a maioria dos dirigentes vascaínos votou pela fusão. O time
passou a usar os vestiários da Rua Santa Luzia, no centro do Rio de Janeiro,
com o campo da Praia do Russel, na Glória, sendo utilizado para os
treinamentos. Era preciso caminhar 3 quilômetros para treinar, o que não
assustava os amadores da época. Também foi autorizada a compra de duas bolas,
calções, camisas e chuteiras, já que o material que veio do Luzitania não
poderia mais ser aproveitado.
Mas faltou a filiação à Federação
de Football. Com despesas altas, gastar quinhentos mil réis, naquele momento,
era um luxo. Ademais, haveria eleições em dezembro e a filiação foi,
temporariamente adiada.
Dois meses mais tarde, em 28 de
fevereiro de 1916, após algumas listas com os sócios, finalmente o clube pôde
formalizar a inscrição na Federação Metropolitana de Football. O Vasco foi,
então, alojado na Terceira Divisão do Rio de Janeiro. Ao contrário de outros
times, que entraram direto na primeira divisão, caberia ao Vasco trilhar o
caminho dentro do campo. Sem virada de mesa e sem vaga pela janela (como a que o Flamengo conquistou, em 1912, indo para a elite do futebol mesmo sem ter títulos no remo até então e sem ter jogado a segunda divisão do Carioca, regulamente disputada desde 1910).
Enquanto se preparava para a
estreia nos campos, o Vasco ia formando seu primeiro time. Chegavam mais sócios
interessados em ingressar na equipe – à época, os atletas eram associados dos
clubes. Disputou dois amistosos, contra o Parc Royal e o Catete, cujos
resultados se perderam com o tempo. A estreia oficial do Vasco ficou, então,
para o primeiro jogo da Terceirona carioca de 1916, contra o Paladino F.C.,
marcado para 3 de maio, uma quarta-feira, feriado nacional, no campo do
Botafogo, na Rua General Severiano.
Do lado vascaíno, vestindo a
camisa preta com a cruz no peito, estavam Antonio Pereira de Azevedo, Frederico
Eisenwelker, Alvaro Araujo Sampaio, Vitorino Rezende Silva, Antonio Bebiano
Barreto, Augusto Pereira d’Azevedo, Adão Antonio Brandão (foto), Oscar Guimarães,
Mario Morais Joaquim d’Oliveira e Manoel d’Oliveira.
O resultado foi desastroso e
acachapante para o Vasco: derrota por 10
x 1, com o gol solitário de Adão Antonio Brandão, um dos maiores atletas da
história do clube. A goleada mostrou que o caminho seria longo. Muitos clubes
desistiram ali mesmo. Não o Vasco.
Já o Paladino... O clube teria
vida curta no futebol. Fundado na Rua da Quitanda, no Centro, peregrinou entre
a Praça da Bandeira, a Aldeia Campista, a Piedade e Campo Grande. Vestia azul e
vermelho e acabou virando Campo Grande Athletico Club em 1920, desaparecendo
logo depois. Apesar de ser quase homônimo, não tem parentesco com o Campusca
moderno. Mas escreveu seu nome na história naquele dia 3 de maio, que marcou a
estreia dos times no campeonato da Terceira Divisão.
A campanha do Vasco no primeiro
turno da Terceirona seria marcada por sucessivas derrotas por goleada. Em 13 de
maio, S. C. Brasil 5 x 1 Vasco. Quinze dias depois, Icarahy 4 x 0 Vasco. Em 25
de julho, Parc Royal 4 x 2 Vasco. Por fim, em 16 de julho, River 4 x 3 Vasco. O
primeiro turno mostrou o abismo da equipe em relação aos seus adversários, com
cinco derrotas consecutivas.
O returno foi, igualmente, um
tormento. Mas deu mais esperanças, com o ingresso de novos jogadores. No dia 3
de setembro, já com o ingresso do goleiro Ary Correa, do zagueiro Jayme
Fernandes Guedes (que presidiria o Vasco no glorioso ano de 1945) e do
centromédio João Lamego, o time reencontrou o Paladino. Perdeu apenas por 2 x
0. Já era uma evolução.
Em 7 de setembro, contra o Parc
Royal, nova derrota por 3 x 0. Contra o Icarahy, em 22 de outubro, outra
goleada, por 4 x 1. Até aquele momento, oito jogos, oito derrotas. Mas a série
foi interrompida em 29 de outubro, na partida contra o Ríver. O placar de 2 x 1
refletiu o nervosismo dos vascaínos, que tinham dois jogadores a mais que
o adversário. Mas era uma vitória, na última partida da temporada, já que o time
não compareceu ao jogo contra o Brasil, campeão da Terceirona.
Era para desanimar. O Vasco
fechou seu primeiro ano de competições em último lugar, com apenas dois pontos
em dez jogos, conquistados contra um time com nove jogadores. Abandonara a
última partida. Tudo indicava que a aventura nos campos seria curta. Mas o time
persistiria. Como veremos nos próximos capítulos...
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| O time de 1916. Um ano repleto de derrotas |


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