quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

A história do futebol no Vasco - uma aventura em campo

Nascido em 21 de agosto de 1898, o Club de Regatas Vasco da Gama tornou-se, logo nos primeiros anos, o maior campeão do remo carioca. Em 1905 e 1906 vieram os dois primeiros títulos. De 1914 a 1916, o primeiro tricampeonato, desbancando os maiores papões de títulos as regatas à época, o Gragoatá e o Santa Luzia. Mas, na sociedade carioca daqueles tempos, um esporte começava a ganhar corpo e desviar a atenção de homens e mulheres de todas as idades, o recém-introduzido football.

Não só na Cidade Maravilhosa, mas em todos os estados do país começava a haver um interesse crescente naquele esporte jogado por 11 de cada lado e com uma bola. Em terras cariocas, Fluminense, Botafogo e América ganharam a companhia de outro clube, o Flamengo. As torcidas cresciam, arrebatavam público das regatas de tal forma que foi preciso até mudar o horário das provas do remo...

No meio desse movimento, vários clubes de lusitanos começaram a se organizar. O Luzitania Sport Club, o Luso Football Club, o Centro Português de Desportos, o Sport Club Luzitano... A maioria, porém, exclusiva para portugueses. Tal como ocorria com os ingleses no Paysandu e no Rio Cricket, até mesmo a colônia lusa, sempre adepta da miscigenação, preferiu separar-se dos brasileiros em seu início futebolístico.

Assim, em 1915, comandado por Raul da Silva Campos, o Vasco, clube em que brasileiros e portugueses podiam se associar livremente e que já tivera o mulato Cândido José de Araújo a presidi-lo, passou a considerar a hipótese de se aventurar pelo mundo da bola. À época, uma cisão dividiu o Luzitania em dois, o que era uma oportunidade para se criar o departamento de football. A ideia era simples: fundir o Luzitania com o Vasco. O problema seria quebrar a resistência de alguns tradicionalistas, que não queriam abrir este departamento competitivo no clube.

Em assembleia no dia 26 de novembro de 1915, mesmo com parecer contrário de uma comissão formada para analisar a fusão, a maioria dos dirigentes vascaínos votou pela fusão. O time passou a usar os vestiários da Rua Santa Luzia, no centro do Rio de Janeiro, com o campo da Praia do Russel, na Glória, sendo utilizado para os treinamentos. Era preciso caminhar 3 quilômetros para treinar, o que não assustava os amadores da época. Também foi autorizada a compra de duas bolas, calções, camisas e chuteiras, já que o material que veio do Luzitania não poderia mais ser aproveitado.

Mas faltou a filiação à Federação de Football. Com despesas altas, gastar quinhentos mil réis, naquele momento, era um luxo. Ademais, haveria eleições em dezembro e a filiação foi, temporariamente adiada.

Dois meses mais tarde, em 28 de fevereiro de 1916, após algumas listas com os sócios, finalmente o clube pôde formalizar a inscrição na Federação Metropolitana de Football. O Vasco foi, então, alojado na Terceira Divisão do Rio de Janeiro. Ao contrário de outros times, que entraram direto na primeira divisão, caberia ao Vasco trilhar o caminho dentro do campo. Sem virada de mesa e sem vaga pela janela (como a que o Flamengo conquistou, em 1912, indo para a elite do futebol mesmo sem ter títulos no remo até então e sem ter jogado a segunda divisão do Carioca, regulamente disputada desde 1910).

Enquanto se preparava para a estreia nos campos, o Vasco ia formando seu primeiro time. Chegavam mais sócios interessados em ingressar na equipe – à época, os atletas eram associados dos clubes. Disputou dois amistosos, contra o Parc Royal e o Catete, cujos resultados se perderam com o tempo. A estreia oficial do Vasco ficou, então, para o primeiro jogo da Terceirona carioca de 1916, contra o Paladino F.C., marcado para 3 de maio, uma quarta-feira, feriado nacional, no campo do Botafogo, na Rua General Severiano.

Do lado vascaíno, vestindo a camisa preta com a cruz no peito, estavam Antonio Pereira de Azevedo, Frederico Eisenwelker, Alvaro Araujo Sampaio, Vitorino Rezende Silva, Antonio Bebiano Barreto, Augusto Pereira d’Azevedo, Adão Antonio Brandão (foto), Oscar Guimarães, Mario Morais Joaquim d’Oliveira e Manoel d’Oliveira.

O resultado foi desastroso e acachapante para o Vasco: derrota por 10 x 1, com o gol solitário de Adão Antonio Brandão, um dos maiores atletas da história do clube. A goleada mostrou que o caminho seria longo. Muitos clubes desistiram ali mesmo. Não o Vasco.

Já o Paladino... O clube teria vida curta no futebol. Fundado na Rua da Quitanda, no Centro, peregrinou entre a Praça da Bandeira, a Aldeia Campista, a Piedade e Campo Grande. Vestia azul e vermelho e acabou virando Campo Grande Athletico Club em 1920, desaparecendo logo depois. Apesar de ser quase homônimo, não tem parentesco com o Campusca moderno. Mas escreveu seu nome na história naquele dia 3 de maio, que marcou a estreia dos times no campeonato da Terceira Divisão.

A campanha do Vasco no primeiro turno da Terceirona seria marcada por sucessivas derrotas por goleada. Em 13 de maio, S. C. Brasil 5 x 1 Vasco. Quinze dias depois, Icarahy 4 x 0 Vasco. Em 25 de julho, Parc Royal 4 x 2 Vasco. Por fim, em 16 de julho, River 4 x 3 Vasco. O primeiro turno mostrou o abismo da equipe em relação aos seus adversários, com cinco derrotas consecutivas.

O returno foi, igualmente, um tormento. Mas deu mais esperanças, com o ingresso de novos jogadores. No dia 3 de setembro, já com o ingresso do goleiro Ary Correa, do zagueiro Jayme Fernandes Guedes (que presidiria o Vasco no glorioso ano de 1945) e do centromédio João Lamego, o time reencontrou o Paladino. Perdeu apenas por 2 x 0. Já era uma evolução.

Em 7 de setembro, contra o Parc Royal, nova derrota por 3 x 0. Contra o Icarahy, em 22 de outubro, outra goleada, por 4 x 1. Até aquele momento, oito jogos, oito derrotas. Mas a série foi interrompida em 29 de outubro, na partida contra o Ríver. O placar de 2 x 1 refletiu o nervosismo dos vascaínos, que tinham dois jogadores a  mais que o adversário. Mas era uma vitória, na última partida da temporada, já que o time não compareceu ao jogo contra o Brasil, campeão da Terceirona.

O time de 1916. Um ano repleto de derrotas
Era para desanimar. O Vasco fechou seu primeiro ano de competições em último lugar, com apenas dois pontos em dez jogos, conquistados contra um time com nove jogadores. Abandonara a última partida. Tudo indicava que a aventura nos campos seria curta. Mas o time persistiria. Como veremos nos próximos capítulos...

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