Falei ontem do Zaïre aqui no blog e me lembrei de outro time impressionantemente frágil que disputou a Copa do Mundo de 1974. Trata-se do Haiti, outro país que só descobri existir graças à competição (lembrando que na época eu tinha 9 anos). A presença dos haitianos na Copa do Mundo foi, por si só, uma grande surpresa, já que eles deixaram de fora um cliente tradicional das Copas, o México, ganhando a única vaga reservada à época para a Concacaf (confederação que reúne países das Américas do Norte e Central e do Caribe).
Lembro que, na época, a bandeirinha haitiana me chamou a atenção. Reproduzida ao lado, ela, ao lado do álbum de figurinhas, que mostro abaixo, foram os primeiros contatos com aquela seleção que se tornaria uma das piores da Copa – o Mundial de 1974, aliás, produziu duas das três piores seleções do ranking de todas as copas, com o Haiti em 74º e o Zaïre em 75º, seleções que ficam à frente apenas de El Salvador, a pior de todas as Copas, com duas participações, seis derrotas em seis jogos, 22 gols sofridos e o único marcado justamente na goleada por 10 x 1 da Hungria, em 1982, a maior de todos os Mundiais.
Passeio nas eliminatórias
A campanha do Haiti nas eliminatórias foi repleta de vitórias, justificando a conquista do título de campeã da Concacaf em 1973. Para começar, um 7 x 0, em casa, sobre Porto Rico e um 5 x 0 fora. Depois, no hexagonal final, a surpresa: em cinco jogos, quatro vitórias (3 x 0 nas Antilhas Holandesas, 2 x 1 em Trinidad e Tobago, 1 x 0 em Honduras e 2 x 1 na Guatemala) e uma derrota (México 1 x 0). A campanha foi tão boa que a vaga veio com uma rodada de antecedência.
O problema não era a classificação. Era o que fazer na Copa. Os 22 jogadores convocados por Antoine Tassy iriam encarar as seleções do Grupo 4: Itália, então vice-campeã mundial, mas com um time envelhecido, Argentina e a Polônia, esta uma surpresa nas eliminatórias por tirar nada menos que a Inglaterra da Copa.
Sanon surpreende o mundo
A estreia, em 15 de junho de 1974, foi contra a Itália. O primeiro tempo foi todo dos europeus, que perderam chances incríveis na cara do excelente goleiro Henri Francillon. A primeira etapa fechou num surpreendente 0 x 0 e, logo a 1 minuto do segundo tempo, o Haiti deixou o mundo de boca aberta. Emanuel Manno Sanon, maior atleta haitiano do século passado, recebeu um lançamento em um contra-ataque, passou pela defesa, driblou Dino Zoff (que em 1982 levantaria a taça de campeão do Mundo) e estufou as redes italianas.
Sanon, que morreu em 21 de fevereiro de 2008, vítima de um câncer de pâncreas, lembrou, em entrevista concedida pouco antes de morrer, que ele e os colegas ficaram muito abalados com o fato de os jornais alemães, na véspera do jogo, ignorarem a seleção haitiana. O gol era uma forma de desabafo diante do descaso. Veja uma foto de Sanon e de Zoff após o jogo.
Mas o jogo foi todo em favor da Itália, que perdeu gols inacreditáveis, embora quase tenha tomado os segundo. No final, os 3 x 1 foram justos pela incompetência dos italianos ao marcar e pela aplicação dos haitianos em defender. Confira abaixo os lances da partida.
A máquina de triturar dos poloneses
O bom astral dos haitianos iria acabar no segundo jogo, em 19 de junho de 1974. A Polônia – seleção que faria a invejável campanha de seis vitórias e uma derrota apenas, igual à da campeã mundial Alemanha Ocidental e superior à da sempre badalada seleção da Holanda – foi impiedosa e meteu 7 x 0, com três gols de Szarmach, dois de Lato, artilheiro daquela Copa, e um de Deyna e outro de Gorgon. Um massacre que, se você quiser, confere abaixo.
Mais um de Sanon
Como a Polônia parecia imbatível e Itália e Argentina terminaram o encontro empatadas em 1 x 1, a última rodada do grupo trazia para essas seleções desafios distintos. Os italianos tinham de conseguir um empate contra os poloneses, já que a Argentina perdera por apenas um gol de diferença. Os portenhos tinham de vencer o Haiti por mais de dois gols de diferença e torcer para a Itália perder da Polônia.
A Argentina jogou sério, abriu 2 x 0 no primeiro tempo, fez o terceiro logo no início do segundo período, mas eis que Manno Sanon resolveu complicar as coisas e fez o segundo dele na Copa. Como a Polônia vencia por 2 x 0, a vaga estava garantida, mas era preciso mais um. Yazalde fez 4 x 1 para a Argentina e mesmo com Capello (o hoje treinador da Inglaterra, Fábio Capello) diminuindo no fim, a vaga estava garantida.
Eu no Haiti
O Haiti nunca mais me saiu da cabeça, desde então. Mantive uma relação de carinho com o país caribenho, de população negra e que fala francês, sempre acompanhando o que ocorria em sua política, com a derrubada da ditadura de Papa Doc e Baby Doc e o fim dos temidos Tontons Macoutes, a guarda presidencial que cometia atrocidades em nome do regime.
Acompanhei os governos que se sucederam e a deposição de Jean-Bertrand Aristide. E tive a oportunidade de ver de perto a situação desesperadora dos haitianos ao ser convidado para cobrir o Jogo da Paz, o Brasil 6 x 0 Haiti, ocorrido em 2004. Uma experiência de bagunçar o interior de qualquer um. Nas ruas da capital Porto Príncipe, a caminho do estádio, em um veículo de guerra, vi uma mãe dar banho no filho na água imunda de um esgoto, a única disponível. Vi também gente pobre e humilde que cercava a delegação, da qual eu fazia parte, desde sua chegada ao aeroporto. Milhares de haitianos, à espera de um aceno, de um beijo jogado, de uma camisa do Brasil ou de um autógrafo de um brasileiro, mesmo de um jornalista como eu.
Quer sentir um pouco da minha emoção? Veja este vídeo e diga o que achou.
Um dia, quem sabe, o mundo se lembrará do Haiti. Eu nunca esqueci.



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