quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Um pouco de religião

O terceiro assunto deste blog tem andado de lado. Não é por acaso. Pouca coisa tem ocorrido na área. Mas um tema eu deixei para 2011: a campanha da Associação de Ateus e Agnósticos, a Atea, nos ônibus, brecada pelas empresas de transporte e publicitárias.
Para começar, já é complicado colocar no mesmo bolo ateus e agnósticos. Ateu é quem não acredita em Deus (eu acredito, pois o grafo com maíuscula). Agnóstico é aquele que analisa a questão de forma pragmática e, como não há comprovação científica de que existe, nem de que não existe um (ou o) Deus, coloca-se em "compasso de espera" e segue a vida.
Estas duas correntes, porém, resolveram andar juntas. E queriam veicular as quatro peças abaixo.


As peças, como se vê, demonstram uma forte intolerância, preconceito e atitude manipuladora.

Vamos analisar uma a uma
Primeiro, a que diz que "Religião não define caráter", que coloca lado a lado Hitler e Chaplin, ligando a imagem de quem acredita em Deus na figura de um assassino sanguinário e os ateus a de um cineasta humanitário – a despeito da fantástica obra cinematográfica, e sem nenhuma hipocrisia, Chaplin foi um homem que casou-se com três menores de idade, situação que hoje configuraria, no mínimo, uma tendência à pedofilia ou à sedução de menores.
Pois bem, esta peça é manipuladora ao extremo. Dá a impressão que todo o homem que crê em Deus é um demônio e que todo ateu é bonzinho. Nem a religião define caráter, nem a falta dela. Há ateus dos dois lados. Também há religiosos. Aliar imagens assim chega a ser imoral de tão farsesco.
Vamos agora à segunda: "Se Deus existe, tudo é permitido", com foto do avião atingindo o World Trade Center. Esta, talvez, seja a peça mais equilibrada. Mas peca pela ignorância. Deus não autoriza todos os atos dos humanos, muito menos endossa cada um deles. Para isso temos a nossa justiça. Como não temos compreensão para entender o que é Deus, nos achamos no direito de cometer crimes em seu nome. Também julgamos que podems colocar neste mesmo balaio um pacifista como Mahatma Gandhi, que derrubou a dominação inglesa com paz e morreu perdoando seu assassino. Se Deus não existir, tudo também é permitido, submetido à mesma Justiça. Condenável, mas permitido. Deus não é um proibidor. É um pai que ama até os filhos que o desprezam. A imagem de Deus carrasco, autorizando a morte de inocentes, é medieval e se iguala à ação dos ateus modernos, que julgam que só religiosos podem ser genocidas.
Vamos ao terceiro cartaz: "A fé não dá respostas. Só impede perguntas.", mostrando mãos masculinas atrás das grades, folheando um livro, talvez a Bíblia. Gozado, aqui está o maior tiro no pé da própria Atea. Quantos ateus vocês conhecem que vão atrás das grades recuperar os bandidos? Eu não conheço nenhum. Deve até ter. Mas desconheço sua existência. Agora, quantos religiosos vão se embrenhar nos porões das cadeias, em busca de resgatar estes homens da condição mais miserável? A fé pode não dar respostas, mas enxuga lágrimas. Quantas mães que perderam seus filhos foram consoladas pelo ateísmo? Quantos filhos foram amparados pelo materialismo após perderem seus pais? Nenhum, claro. Ateus e materialistas não conhecem palavras de consolo e esperança, pois tudo termina com a morte.
E, de mais a mais, essa peça coloca no balaio todas as religiões. A minha, por exemplo, não só permite, como incentiva as perguntas, os questionamentos, a capacidade de raciocinar da fé. É muita ignorância e manipulação dos ateus junta...
Por fim, a peça mais cretina de todos. Não há outro adjetivo. É a que está escrito "Somos todos ateus com os deuses dos outros", e mostra fotos de três luminares religiosos de distintas crenças, um deles um Cristo. Não há deuses para monoteístas, mas sim O DEUS. Ora, Cristo não é Deus, Shiva não é Deus, Buda não é Deus. São seus representantes, seus pregadores, seus propagadores, mas não o Deus. O que há é a imcompreensão em entender os mecanismos da fé alheia, mas não o Deus, pois este  é, rigorosamente, o mesmo. Manipulação barata de quem não sabe o que é Deus e tenta impor sua ignorância a todos, com um discurso pasteurizado da publicidade.

A campanha da Atea lembra muito a dos que apoiam a liberação das drogas
No Brasil, segundo dados do Censo de 2000, 7,4% da população (ou 12,4 milhões de brasileiros, de acordo com os mesmos dados) não têm religião – e aí estariam incluídos ateus, agnósticos e deístas. Enquetes recentes mostram que 60% dos brasileiros são contrários à liberação das drogas – e os 40% restantes dividem-se entre os que liberam tudo e os que liberam só as chamadas drogas leves, como se isso existisse.
Ateus e pessoas favoráveis ao consumo livre de entorpecentes são uma minoria barulhenta. Minoria que quer impor suas opiniões à maioria silenciosa. Têm o direito de se expressar, claro, desde que seja de forma pacífica, ordeira e sem agressões. Mas o que fazem é agredir com suas peças publicitárias e suas marchas pró isto ou aquilo.

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