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| Lugo e Hugo. Uma dupla e tanto... |
Sobre o Paraguai há muitas mentiras e poucas verdades. Algumas mentiras são tão repetidas e seculares que parecem virar verdade, como as historinhas dos professores de história a respeito da Guerra do Paraguai, que transformam o ditador Solano López em um cara bacana. Tudo o que ele não era.
A atual mentira sobre o Paraguai tem dois lados: o dos caras da esquerda (que vêem no impeachment de Fernando Lugo apenas um golpe de estado) e o dos caras da direita (que acham tudo o que ocorreu natural e 100% honesto). E quando falo em direita e esquerda, me refiro aos brasileiros, ok?
Menos, meus caros. Não há nada certo neste caso. Nem no impeachment, nem no processo, nem nos fatos que antecederam o caso.
Para entender o que se passa por lá é preciso lembrar alguns pontos.
1) Lugo, um ex-bispo católico, era um tremendo mulherengo. Depois de sua posse, pipocaram filhos de um cara que tinha feito voto de castidade. Aos poucos, ele foi reconhecendo vários deles. E, com isso, reconhecendo publicamente que sempre foi um hipócrita duas caras.
2) Lugo foi eleito para governar e tinha contra si um Congresso de oposição. E as tentativas de reverter isso foram, no mínimo, temerárias, especialmente nos últimos dias de poder. Como, por exemplo, afastar-se dos partidos da sua aliança eleitoral e aproximar-se dos Colorados, agremiação que ele tirou do poder após uma hegemonia de 62 anos. Era colorado, por exemplo, o sucessor de Rafael Filizola, o ministro do Interior responsabilizado pelo massacre de Curuguaty, que acabou com a morte de 11 manifestantes e sete policiais. Uma espécie de Eldorado dos Carajás que acabou com deposição do presidente.
3) Hipócrita e péssimo aliado, Lugo foi responsabilizado sozinho por um congresso que, em princípio, queria apenas sangrá-lo nove meses antes de uma eleição. Mas acabou vítima da sua incapacidade de negociar e foi corrido em tempo recorde do poder.
4) Esta deposição a jato mostra outra faceta política do país: ao ver que poderiam retirar o rival, os deputados e senadores paraguaios mostraram sua total incapacidade de disfarçar esta vontade. Depuseram Lugo de forma absolutamente legal e constitucional, mas deixando no ar a certeza de que se tratou de um golpe, pela inacreditável celeridade de ritos e falta de defesa.
5) Há a possibilidade de o massacre ter sido cometido não só pelo conflitos entre policiais e sem-terra, mas também pela ação de pistoleiros contratados pelo dono das terras, um certo Bias Riquelme, empresário de 83 anos ligado ao partido Colorado, o mesmo que Lugo correu atrás para se preservar. Há quem veja nisso uma ação orquestradinha. Duvido. Bias Riquelme queria mesmo suas terras de volta. E agiu como um coronelzão.
Ao fim de tudo, temos o seguinte: a deposição dele é legal, constitucional e, ao mesmo tempo, imoral. Teve cunho meramente político, baseada numa constituição que aparenta ser democrática, mas tem vocação golpista. Chefes de estado da região podem até achar que tudo foi estranho, tal e coisa, mas a cautela neste momento é fundamental. O povo paraguaio vai sinalizar corretamente o que houve. E o povo de lá acha que houve um golpe disfarçado, mas também não morria mais de amores por Lugo.
Neste capítulo, aliás, o que não dá para aceitar é a pressão por democracia comandada pelo senhor Hugo Chávez, caudilho que manda na Venezuela desde 1999. Esse daí não tem autoridade moral para mexer no vespeiro de golpes, pois foi tentando dar um golpe de estado em 1992 que ele se tornou conhecido. Chavez só pode agir como sabe: cortando o petróleo dos paraguaios. Por que de democracia o cara entende pouco. Ou nada.

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