quinta-feira, 5 de julho de 2012

A Legião do Capitão Nascimento

Há uma trágica verdade na vida dos atores: quase todos eles ficam marcados por um personagem na cabeça do público. Quer ver só: pense agora nos seguintes mitos do Cinema e TV.
1) Humphrey Bogart
2) Charlton Heston
3) Vivien Leigh
4) Beatriz Segall
5) Peter O'Toole
6) Lima Duarte
Dificilmente as imagens serão diferentes destas:
1) O Rick de Casablanca, apesar de o Bogart ter feiro Relíquia Macabra, Uma Aventura na África (que valeu um Oscar) e O Tesouro de Sierra Madre.
2) Moisés, em Os Dez Mandamentos, mesmo com o ele encenando nas telonas clássicos como Ben-Hur, El Cid e o Planeta dos Macacos. Mas a gente lembra primeiro de Moisés.
3) A mimada Scarlett O'Hara de ...E o Vento Levou. Nem precisa desfilar o resto da filmografia, precisa?
4) A inesquecível Odete Roitman, de Vale-Tudo. Alguém lembra de outro?
5) Só dá o próprio Lawrence da Arábia.
6) Apesar da carreira movimentada em palcos, telas e TV, o eterno Sinhozinho Malta, de Roque Santeiro.
Craques, feras. Mas rotulados. Acho que os atores não curtem muito isso. Não deixa de ser uma coisa meio frustrante. O papel-símbolo chega sem você sentir, você o vive e depois, pelo resto da vida, os caras comuns te olham e pensam que o seu talento se resume a isso. Atores tentam, em vão, mudar a realidade. Inútil. São poucos os que conseguem fugir desses rótulos após um desempenho marcante. E quando conseguem, adquirem um novo rótulo. Uma eterna mandala.
Só que isso faz parte da profissão. Um gerente de banco não sofre com esse estigma ao pagar um cheque sem fundo ou dar um empréstimo. Mas também ninguém pede autógrafo a eles na rua, nem abre portas de restaurantes, boates... É o ônus e o bônus das coisas.
Um cara que está marcado pelo personagem é Wagner Moura. Soteropolitano, nascido em 27 de junho de 76 e batizado Wagner Maniçoba de Moura, ele teve vários bons papéis na TV e no cinema. Só deu um azar (ou sorte): em 2007, aceitou filmar Tropa de Elite, encarnando o Capitão Nascimento. O personagem virou sinônimo de Wagner Moura para o público.
Para piorar, em 2010 ele fez a continuação, no Tropa de Elite 2. Baixaram a guarda do Capitão Nascimento, promoverem ele a coronel, mas não adiantou. A surra que ele dá no ex-secretário candidato a deputado povoa o imaginário dos homens do mesmo jeito que ele vestido de PM do Bope é a fantasia erótica de 9 entre 10 mulheres que eu conheço. Isso mesmo: o Wagner Moura, com seu nariz de porquinho, com seu jeito zen de falar fora das telas, é fantasia erótica de mulheres de 20 a 80 anos, vestido com a farda negra, de PM do Bope. Com coturno, arma e tudo.
Claro que a imagem destoa da personalidade do ator. E é óbvio que ele fará de tudo para desconstruir a aura de Capitão Nascimento. Vale até ir a batizado de boneca, jantar de adesão, chá na Academia de Letras. Mas não vai adiantar. Wagner Moura será sempre o Capitão Nascimento.
Ainda mais por que suas últimas tentativas de romper com o personagem foram um fracasso. Em especial sua patética (para ser bem gentil) participação no "Tributo à Legião Urbana", organizado pela outrora importante MTV. Tinha tudo para dar certo. Afinal, em um filme recente, ele apareceu cantando Legião. E direitinho. Além disso, era fã da banda e parecia saber o que fazer em um palco. Mas como ator. Como cantor, só parecia.
Foi um fracasso retumbante. Virou uma espécie de Capitão Nascimento e seus Legionários. A urbanidade da coisa paira até hoje com o Renato Russo, onde quer que ele esteja.
A anatomia do fracasso começa no próprio Wagner Moura. Ele simplesmente não sabe cantar. No cinema ficou legal por que trataram a voz, usaram filtros, etc. Ao vivo, não deu. Ele não presta como cantor. Não é a praia dele. Para piorar, depois de ser crivado com mais críticas que os tiros disparados por ele em Tropa de Elite 1, resolveu se vingar e inscrever numa "lista negra" os jornalistas que meteram ferro nele. Ameaça não falar mais com quem o criticou. Vai ser difícil o Wagner Moura voltar a dar uma entrevista: tudo mundo achou o show uma m...
O que ninguém esperava dele, um cara aparentemente gente boa, apoiador da campanha do Marcelo Freixo (Psol), o candidato da intelligentzia carioca, o Fraga (Tropa 2) da vida real, era ter o mesmo espírito vingador do Capitão Nascimento. O cara vai atrás do fogueteiro, igualzinho no filme. Será que vai deixar um rastro de mortos no meio do caminho? Mortos, não. Mas inimizades, com certeza. Nem vou falar do Pânico, pois acho aquilo um lixo. Mas falo da imprensa de verdade. 
Tire suas mãos de mim...
Mas não vou culpar apenas o Wagner, pois talvez tenha faltado a ele um certo senso de ridículo no caso. Sobrou vontade de ser um fã representando um ídolo, sobrou vontade de trocar Capitão Nascimento por Renato Russo, sobrou vontade de ser cantor. Só faltou talento. E, agora, uma dose de cuca fresca. Ele tem a menor culpa no episódio. Culpados mesmos são Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá e o povo da MTV, que simplesmente preferiram botar fogo na memória do Renato Russo em troca de uns caraminguás e de uns pontinhos de audiência. Foram anos-luz mais patéticos que o Wagner Moura.
Sempre se soube que o Renato era o corpo, a alma e o cérebro do Legião Urbana. Basta ver a trajetória de seus integrantes. O Negrette (expulso da banda por injunções esquisitíssímas), hoje vive nas calçadas cariocas. Dado e Bonfá nunca mais foram nada. O Legião foi sepultado com o Renato.
Na baixa, e sem a menor humanidade ou simancol, Dado e Bonfá, de mãos dadas com a MTV, tiveram a brilhante ideia de um tributo. E em vez de ouvirem o bom senso e a família de Renato Russo, usaram as próprias cabeças. Deu no que deu.
Soube de fonte segura que o projeto do "tributo" começou a ser gestado no ano passado, inicialmente sem incluir a família de Renato, detentora da maior fatia dos direitos autorais das músicas e de 100% da marca Legião Urbana. A coisa era fazer a marola e pressionar dona Carmem, Carminha e Giuliano (respectivamente mãe, irmã e filho de Renato) a assinar um acordo nos moldes deles. E foi bem por aí. Nada do que foi proposto pela família foi aceito. Os Manfredini não queriam um show para a elite, mas ingressos a R$ 200 eliminaram fãs mais jovens e menos abastados. Não queriam a substituição de Renato só por Wagner Moura, mas um rodízio, contemplando jovens nomes da música e fãs, como Criolo, Tulipa Ruiz, Emicida, Marcelo Jeneci e outros. Pior: queriam Renato Negrette, extirpado pela segunda vez do Legião com um inexplicável e desumano corte, em um momento em que o camarada precisaria de apoio, de carinho e compreensão para tentar voltar a ser alguém. 
Em tudo, a família foi derrotada, sob a ameaça de advogados da MTV-Abril. 
Brigar com gente deste porte é roubada. E nem era o caso. A família Manfredini queria o tributo, mas mais democrático, não para tirar Dado e Bonfá da baixa, nem para transformar Wagner Moura em alguém mais palatável que o Capitão Nascimento.
Mas a coisa foi tão errada, tão mal amarrada, tão patética, que sobrou até para o público. Pesquei este vídeo abaixo no Youtube. Muita gente já viu. Eu vi recentemente e fiquei abobalhado. No meio daquela balbúrdia musical, o Dado Villa-Lobos chama um fã para a porrada, incita o público contra ele e depois tiram o cara de lá.



É isso mesmo, produção? Baixou o Capitão Nascimento no Dado? Pode ser. O Wagner Moura não estava no palco, logo o Dado resolveu encarnar o espírito do companheiro. Mas em vez de copiar o Renato Russo, preferiu o Roberto Nascimento: truculento, violento, debochado. 
Assim se comporta um artista menor, olhando só para seu próprio umbigo, incapaz de ouvir uma crítica, um protesto. Menor e decadente. Alguém que teme a sombra do parceiro mais famoso, mais talentoso, mais amado. Alguém que viveu uma existência na sombra e sobrevive daquilo que o parceiro, a quem ele tanto rejeita e quer descontruir no seu subconsciente, proporcionou a ele. Lamentável, perverso, inacreditável.
No final das contas, o balanço é o seguinte:
1) Wagner Moura não conseguiu largar a farda de Capitão Nascimento. Nunca será Renato Russo! Nunca será!
2) Dado, mais uma vez, mostrou uma máxima eterna: quem nasce para sobreloja jamais vai chegar a ser cobertura.
3) Bonfá, coitado, Bonfá... Sei lá. Nem sei o que falar...
4) O show foi bom só para a MTV, que voltou aos holofotes, bateu recorde de audiência e planeja lançar CD e DVD (pelo amor de Deus, não!) do famigerado "tributo".
Para finalizar, por favor, quando alguém der a brilhante ideia de um "tributo", lembrem-se de uma  banda de quatro caras que, quando se desfez, cada um seguiu seu caminho. De uma certa forma, todos se deram bem, uns mais que os outros, mas aceitaram o seu papel na história. Dois já morreram. E todo mundo bolou bilhões de "tributos", com os substitutos mais impensáveis. Nunca foi feito. Os caras respeitam os fãs. 
Obrigado, John (in memoriam), Paul, George (in memoriam) e Ringo. Vocês nos respeitaram.

5 comentários:

  1. Putz!!! Encontrei alguém que falou o que todo fã e todo mundo com bom senso queria ouvir!!! Parabéns pela reportagem!!! PAULO DELEGADO.

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  2. Grande Paulo Delegado!
    Foi deprimente. Em todos os sentidos. Renato merecia ter sido homenageado de verdade, não com essa conjunção espúria de interesses.

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  3. Concordo em parte com as colocações. Realmente Wagner Moura deixou muito a desejar como frontman no "tributo". Resumindo: Como cantor, ele é ótimo ator. Quanto a incluir Renato Rocha, não vejo porquê, já que pelo que vi de sua atual situação, a sua demência não o permite executar um acorde sequer. Lembrando que a decadência na qual ele se encontra foi um resultado de suas próprias escolhas, afinal, ele já apresentava sinais de descompromisso com a música enquanto ainda estava na banda, por esse motivo precisou sair da Legião. Já em relação à reação do Dado, não sei se vocês viram, mas há um outro vídeo onde o Dado se desculpa por ter se exaltado e explica o motivo. Na verdade, quem o provocou não era um fã mas sim um baderneiro que não estava ali com o intuito da maioria. Acontece que o sujeito ofendeu a mãe do Dado que estava presente no evento e, naturalmente, houve todo aquele stress por parte do guitarrista. Reação absolutamente normal e possível de acontecer com qualquer ser humano, inclusive com o próprio Renato Russo que tatas vezes discutiu com a mesma, e às vezes até maior veemência com arruaceiros durante inúmeros shows. Tenhamos cautela para não crucificar as pessoas erradas, ou melhor, para não crucificá-las por motivos errôneos. Eis o vídeo citado por mim: http://www.youtube.com/watch?v=vpu4jS5aokY

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  4. Respeito sua opinião, mas quem está seguro do que faz não vira agente de uma baixaria daquelas. O Dado deveria e poderia ignorar os desaforos, mas preferiu protagoniozar uma cena lamentável. As desculpas posteriores não amenizam a responsabilidade dele no caso. Faltou a Dado o tato do grande artista.
    Sobre o Renato Rocha, sim, ele é o responsável direto pelo estado em que se encontra. O nome dele foi sugerido e rejeitado desde o primeiro instante. Não acho que fosse o caso de deixá-lo no palco, mas talvez fazê-lo participar de uma música. Mas o caso dele é apenas mais um detalhe desta comédia de erros apelidada de "tributo".

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  5. Em outubro de 2011 passei um domingo inteiro assistindo um programa na MTV em homenagem aos 15 anos de ausência do Renato Russo. Um programa que passou o dia inteiro na MTV. Desse dia em diante me deu a maior vontade de reler toda obra do Renato e da Legião Urbana. Ouvi todos os meus CDs, li todos os livros, assisti todas as entrevistas na internet, comprei LPs da Legião, completei a coleção dos CDs , tanto da Legião como da obra do Renato Russo, assisti ao show do Tributo ao Renato Russo, a homenagem a Legião no RockInRio e no final de tudo fiquei com a maior vontade de um dia poder ver a Legião Urbana ao vivo, mesmo sem o seu Líder. Lembrei do show que assisti no Circo Voador em meados de 83 ou 84...tinha 20 anos..

    Quando soube do projeto da MTV com o Tributo a Legião Urbana , vi a chance de realizar esse desejo de consumo. Assisti ao making off e foram dezenas de vezes que ouvi o Wagner Moura dizer repetidamente que não era cantor e que não estava substituindo o insubstituível Renato Russo. Ou seja, 28 anos depois teria a chance de estar num show da Legião Urbana, mesmo sem o gênio Renato Russo.

    Assisti ao show no primeiro dia pela TV e fui pessoalmente no dia seguinte. O show que presenciei contou com a presença da Legião Urbana através dos seus legítimos membros: Dado e Bonfá, responsáveis junto com Renato pelo sucesso estrondoso da Legião até hoje. Tanto é verdade que Renato Russo teve 2 discos ótimos, em ingles e italiano, onde fez questão de dizer que escolheu não cantar em português pois queria evitar comparações com a Legião.

    Além da Legião, o show teve diversos convidados não comentados no seu desabafo. Wagner Moura fazendo papel de Fan , Bi Ribeiro, Catatau, Andy, músicos da uma orquestra, e outros músicos que agora fogem da memória.
    Adorei relembrar Gang of Four, ver Dado cantando e dançando, sentir o baixo do Bi, ouvir a rara Andrea Doria. Me diverti com a Banda, com os músicos e com os Legionários na platéia.

    Renato foi homenageado e citado pelo Wagner mais de uma vez e aclamado pelos legionários que assistiam ao show felizes , animados e que não paravam de cantar e dançar.

    Sim, o ingresso foi caro. Ninguém foi obrigado a compra-lo. Se a família de Renato ou outro grupo quiser produzir um show com ingressos baratos, ótimos, basta tocar o projeto. Assim como podem convidar quem acharem melhor para cantar e tocar. Vai lotar, como lotaram esses dois e irão lotar todos.

    Quando ao momento de Dado, ele reconheceu que pegou pesado tanto que em seguida, um raro gesto, assumiu o erro e se desculpou em publico. Foram incontáveis momentos que o nosso Renato Russo também se exaltou com quem não cumpria suas obrigações de assistir um show com mínimo de educação.

    As redes sociais estão repletas de pedidos para que esse show se repita em outras capitais e cidades.

    O show cumpriu aquilo que se propôs , ou seja, ser mais uma experiência em homenagear a Legião Urbana, formada por um coletivo, um time, uma equipe titular com Renato, Dado e Bonfá que se somaram aos diversos músicos que partilharam de shows e CDs.

    Vida a longa a memória da Legião Urbana e do Mestre Renato Russo, um dos maiores defensores de fazer o que estamos afim, de inovar, de tentar e de sabermos lidar com as divergências de opiniões.

    Força Sempre, Facó.

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