quarta-feira, 4 de julho de 2012

Para pirar o cabeção

Pesquei isso no Facebook. As duas capas abaixo são de jornais da Paraíba, de janeiro deste ano. As duas manchetam com o mesmo assunto. Uma publicação vai para um lado. A outra, na direção inversa.

Jornais paraibanos e suas manchetes 
Curiosamente, as duas falam a verdade, de um ponto de vista. A qualidade de vida das famílias na Paraíba é a quarta pior do País (superando apenas Maranhão, Piauí e Alagoas), mas o índice de vulnerabilidade das mesmas famílias melhorou um pouco, passando de 34,9% em 2003 para 30,6% em 2009.
E agora, como é que fica?
Claro que todo mundo caiu de pau na imprensa paraibana. "Um baita absurdo tal discrepância de manchetes", diziam uns. Outros questionavam o desencontro de assuntos, dizendo que o "jornalismo está a serviço do governo em um caso, e da oposição, no outro". Chegaram a perguntar: "e agora, como ficamos?".
Não conheço intimamente a imprensa paraibana, embora tenha alguns amigos por lá. Jornalisticamente, as duas abordagens inicialmente são válidas. O assunto era o mais importante do dia no estado. Pode-se puxar pelo melhor e pelo pior. Depende, inicialmente, da visão do editor. Só inicialmente.
Mas depende especialmente do nível de compromisso do jornal com o governo local. Ou, para ser mais claro, de quanto o governo aporta no veículo com publicidade ou se o jornal pertence a um grupo econômico identificado com o poder local ou com a oposição local.
A situação parece ser péssima, mas não é. Há casos piores.
Imagine, por exemplo, se os dois jornais fossem fechados com o governo local. Certamente as manchetes, pelas bitolas do título, seriam estas:
Correio da Paraíba: "Ipea: melhora a situação de vida das famílias paraibanas"
Jornal da Paraíba: "Qualidade de vida das famílias na PB melhorou"
Assim, o cidadão paraibano teria à disposição um único enfoque: a Paraíba ruma inexorável ao progresso, segundo o Ipea.
Mas a coisa não é tão barro e nem tão tijolo. A vida lá melhorou, mas segue ainda uma droga. Houve poucos ganhos em seis anos. Essa seria a manchete ideal, para ambos, se não houvesse amarras políticas no noticiário.
Curiosamente, a situação ocorrida na Paraíba, se fosse vista em vários outros estados da federação e em certos países, causaria uma certa alegria no leitor. Por que ele levaria para casa algo diferente de um Diário Oficial com notícias de esporte e programação de TV e cinema. Se sentiria até obrigado a comprar os dois jornais, ler e tirar suas próprias conclusões. O que é ruim para o bolso, mas bem melhor que estar diante de um noticiário com monopólio de apenas uma vertente de pensamento: "sim, o governo sempre acerta". Aí é que mora o perigo, até para o governo. Sem análise crítica, erra-se infinitamente mais.
Há algum tempo, publiquei no Face uma frase atribuída ao Millôr, que dizia que "jornalismo é oposição, o resto é secos e molhados". Fui corrigido pelo meu amigo e intelectual Ricardo Mendes, que observou vários casos onde ser "de oposição" era agir de forma desumana e antidemocrática. Ele estava certo. Jornalismo tem de defender o interesse popular, independente de partidos. E dizer a verdade. Mas quando isso não é possível, pelo menos que haja, como na Paraíba, os dois lados. Deve ser muito triste viver em lugares onde a imprensa caminha numa só direção. Tipo Cuba, com o Granmá, a Tribuna de La Habana, o CubAhora e outros tantos jornais que mostram apenas como tudo está bem, sem que ninguém diga o que está mal.

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