No futebol, impedimento é coisa séria. A regra 11 do livro que rege o esporte versa sobre a condição de jogo. Basicamente, estabelece parâmetros para uma igualdade na disputa entre duas partes, ataque e defesa.Para o atacante não ficar impedido, é preciso cumprir algumas condições. Pode ser a que exige que ele esteja ao menos na mesma linha do penúltimo defensor ou a que determina que ele receba a bola antes da risca do meio de campo. Ou então que receba o passe proveniente de um tiro de meta, lateral ou escanteio. Ou que a bola venha do adversário. E por aí vai. Só assim estará em condição de jogo e livre para marcar. Defesa e ataque, partes de um tabuleiro, assim como numa disputa judicial, estão em equilíbrio.
Caso contrário, é impedimento. Bandeira no alto, tiro livre indireto marcado contra o time que ataca, começa tudo de novo.
Escrevo isso após assistir mais uma vez a belíssima jogada de Oscar no segundo gol brasileiro contra o Egito. Não, ele não estava impedido, muito menos o Leandro Damião, seu ex-colega no Internacional. Mas fico pensando o quanto deve doer no coração dos são-paulinos a perda do craque para o time gaúcho, ainda mais agora, com o lucro da venda dele para o Chelsea.
Para quem não lembra, Oscar surgiu no São Paulo como promessa. Orientado pelo empresário Giuliano Bertolucci, decidiu romper com o clube formador e ficar em um limbo, até acertar com o Internacional de Porto Alegre. A ideia inicial era sair de graça, sem nada pagar. Os são-paulinos chiaram muito. Houve uma proposta do Inter de R$ 4 milhões, ridícula para o potencial do jogador. A contraproposta foi de R$ 17 milhões. O caso teve marchas e contramarchas. Mas, no meio do caminho, uma interferência judicial estranha acabou por apressar uma solução para a situação.
Em maio deste ano, mais uma vez sem poder jogar por conta da ação do São Paulo, que queria reaver sus direitos sobre o atleta, Oscar conseguiu um habeas-corpus no Tribunal Superior do Trabalho (TST), liberando-o para atuar pelo Inter, mesmo com a situação de seus direitos federativos ainda indefinida pela justiça e pelos clubes.
Mas vejam só este detalhe: a medida judicial foi impetrada no TST pelo escritório paulista Russomano Advocacia. Entre seus consultores consta o nome de Luiz José Guimarães Falcão, ex-presidente da Côrte de 1991 a 1993, conselheiro do Internacional e... sogro do ministro Caputo Bastos, do TST.
Agora responda para ganhar uma mariola e um cigarro Iolanda: qual o nome do ministro que deu a liminar, acatando o pedido de habeas corpus em favor de Oscar...
Ganhou quem disse o nome de Guilherme Augusto Caputo Bastos, genro de Luiz José Guimarães Falcão e irmão do presidente da OAB-DF, Francisco "Kiko" Caputo.
Se a Justiça fosse como o futebol, o bandeirinha teria levantado o instrumento de trabalho ao pilhar Guilherme Caputo Bastos em condição de total impedimento, figura jurídica muitas vezes ignorada nos tapetes vermelhos da Justiça.
O futebol, muitas vezes, é mais sensato que as decisões das Côrtes. Diante de um rolo que poderia ser monumental, com um ministro que não se declarou impedido em uma situação complicada, Oscar, Inter e São Paulo fumaram um cachimbo da paz e fecharam um acordo financeiro. O clube paulista embolsou R$ 15 milhões. O Inter ficou com o jogador e o revendeu, antes do começo dos Jogos Olímpicos, para o Chelsea, por quase R$ 80 milhões, segundo se especula.
Graças a Bertolucci, que se deu bem no caso, o Chelsea fez um grande negócio: terá um craque em seu plantel, por um preço acessível aos padrões ingleses. E ainda pode fazer muita grana com ele. Imagina quanto um Real Madrid pode pagar por Oscar, quando ele estiver mais maduro?
Mas todos os demais envolvidos perderam um pouco.
O São Paulo, além os R$ 15 milhões, vai receber mais uns R$ 3 milhões, por ser o clube formador de Oscar, como determina a lei. Mas podia ter lucrado muito mais, como revelam as cifras finais do episódio.
O Inter apostou no rolo, mas teve o jogador afastado várias vezes. Agora, com o caixa forrado, vai às compras na procura de um substituto. Com esta grana toda, encontrará passes inflacionados. Especialmente o de Paulo Henrique Ganso, reserva de Oscar na seleção, que interessa demais ao Colorado.
O jogador também perdeu. Afinal, ficou marcado com o carimbo de mercenário.
E o ministro Guilherme Caputo Bastos, bastante criticado no caso, terá sempre alguém a olhá-lo de lado, como se fosse um homem com vícios.
Neste último caso, me socorro do futebol. Que falta faz um bom bandeirinha nos tribunais brasileiros...
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