quinta-feira, 19 de julho de 2012

Na hora do adeus

Há alguns anos, li um livro espírita de Luiz Sérgio chamado Na Hora do Adeus. Embora seja uma publicação voltada a um segmento religioso - no caso, o meu -, recomendo a leitura a todos. O livro psicográfico (como eu acredito) é um manual de comportamento diante da morte. Fala do complicado momento de velar e sepultar um parente, amigo ou conhecido que se foi. Uma tarefa hercúlea, para quem morre (como eu creio) e para quem fica.
Depois desse livro, revim minhas atitudes e passei a tomar alguns cuidados nestes dias. Quando vou a um enterro ou velório, me preparo no caminho (se puder, desde a véspera). Evito me irritar com trânsito, evito pensar em sacanagem, em sexo, em comida, em problemas. Me concentro apenas em duas coisas: orar pelo falecido e sua família e tentar me fixar nos bons momentos. Ao chegar ao velório, sempre que alguém puxa conversa, vejo qual é o rumo da prosa. Se começam a falar dos problemas, das aventuras, das desventuras, das bebedeiras, logo faço o papo seguir outro caminho, lembrando dos momentos em que o falecido foi bom, justo e/ou generoso. Geralmente, ou espanto o interlocutor ou faço com que ele entre na onda em que estou, um alfa diferente do da maledicência.
E olha que na vida cotidiana gosto de tudo o que não deveria gostar: fofoca da vida alheia, papo de sexo e sacanagem, conversa de futebol. Ainda sou muito denso e inferior.
Mas não em cemitério. Ali é coisa séria. Lugar onde corações doem de saudade. Não acho que seja o momento para comentar a derrota do Flamengo ou a vitória do Vasco. É hora de dizer adeus (ou até breve) a quem vai e de consolar quem fica. Por que ambos sofrem com esta separação temporária.
Como eu creio ser um espírito vivendo uma experiência na carne (e não o contrário, um homem de carne numa experiência espiritual), nestas horas costumo desdobrar-me. Sou o cara que empresta o ombro, que puxa a prece, que fala manso, que saca o talão e o cartão. Faço até exumação. Já fiz duas e sei como é a barra. Se precisar, quebro o galho. Sou cascudo. Para me quebrar, é preciso uma pancada forte. E essa veio com 13 anos, quando perdi meu. Mas levei outras porradas, como perder minhas irmãs antes dos 50. Tudo isso me fez ser forte nesta hora. 
Para baixar a temperatura emocional em um velório, rezo, leio e se for preciso, faço como fiz no enterro do inesquecível Mássimo Manzolillo: ante a comoção geral crescente, saí de fininho, comprei uma bandeira do Fluminense do maior tamanho que consegui e voltei, sem que ninguém percebesse, para estendê-la sobre o meu amigo. Na hora, baixou um pouco a comoção pelo adeus. Todo mundo achou aquilo uma loucura que só eu faria ou teria capacidade de pensar.
Mas não faço as coisas de caso pensado ou para aparecer. Nem para que façam igual após a minha morte. Esta hora eu já planejo. Comecei a selecionar a trilha sonora que vai tocar (com o que eu gosto, bem eclética). Quero um caixão bem simples, mas com a bandeira do Vasco em cima. Nada de terno: roupas simples, para um velório de apenas duas horas. Depois, cremação e cinzas espalhadas. Aí vai dar trabalho: parte no quintal da minha casa, parte no gramado de São Januário, parte na arquibancada do Maracanã, parte na Praia do Leblon e a parte final do alto do Cristo Redentor. Pronto, aporrinhei a família, mas voltei à natureza. Já posso ser fisicamente esquecido. Lembrem-se apenas do que eu fui.
Vai com Deus, irmão! Vamos buscar justiça!
Só uma coisa eu peço no meu velório: por favor, desligue o celular ou o coloque no modo silencioso. Hoje, fui ao enterro do Wilton, o policial federal morto no Campo da Esperança. Fui por que ele era meu companheiro de mesa mediúnica. Um bom médium, assíduo, trabalhador - coisas que eu não sou. Uma imensa perda para o nosso grupo.
Enterro cheio. Muitos colegas de trabalho, uma categoria triste, mas com clima ameno. Não ouvi falar em vingança, revanche, caçada. Ouvi falar de justiça. Isso sim. Justiça. Investigar, identificar, prender, processar, julgar e condenar os culpados. Fiquei feliz. Acho que é assim que ele queria.
Mas me entristeceu a quantidade de toques de celulares. Uma sinfonia desafinada, destonada, atrapalhada, entremeada pelos cri-cris dos aparelhos de Nextel. Lamentei. Aquela corrente eletromagnética prejudicava a concentração, não nos deixava ouvir as palavras de adeus.
Coisas da modernidade. No passado, quando não havia celular, todos se concentravam mais no adeus. Hoje, tem gente preocupada em transmitir um velório para o povo do Face e em atender um celular. Será que não dá para esperar uns cinco minutos? Ou colocar, ao menos no silencioso ou no vibracall?
Não quero doutrinar ninguém. Cada um sabe de si. Mas se rolar uma curiosidade, leia o livro do Luiz Sérgio. Você vai entender por que mudei tanto em dias de velório e enterro. Ah, e desligue o seu celular!

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