segunda-feira, 9 de julho de 2012

A Globo, o MMA e o Fla-Flu

Se é, eu não sei. Mas dizerm que se trata
de uma foto do primeiro Fla-Flu
O dia 7 de julho de 1912 caiu num domingo. Naquela data, no campo de futebol da então Rua Guanabara (hoje conhecida como Pinheiro Machado), 22 homens escreveram a primeira página de uma história de sangue, suor e lágrimas. Ali, onde hoje está o Estádio Manoel Schwartz, antigamente conhecido como Álvaro Chaves, de um lado alinharam Laport, Luiz Maia, José Bello, Pernambuco, Mutzbembecker, João Leal, Oswaldo Gomes, Bartholomeu, Berhmann, Edward Calvert e James Calvert para enfrentar, do outro lado, Baena, Píndaro, Ney, Cintra, Gilberto, Galo, Baiano, Arnaldo, Borgerth, Gustavo e Amarante. Sem saber, os 22 rapazes inventaram, naquele dia, um dos maiores clássicos do futebol brasileiro, o Fla-Flu, e uma das maiores rivalidades de todos os tempos. 
Afinal, os 11 primeiros citados no parágrafo anterior, que formaram no time do Fluminense, estavam desacreditados, pois faziam uma campanha irregular no Campeonato Carioca daquele ano. Pudera: nove titulares do Tricolor, time campeão carioca de 1911, migraram para o Flamengo e formaram, naquele dia 7 de julho de 1912, do lado contrário. 
O primeiro Fla-Flu era para ser uma vitória fácil dos antigos titulares, agora com a camisa "papagaio-de-vintém" (uma alusão às pipas baratas, vendidas no comércio carioca pela moedinha de 20 réis) do rubro-negro. Mas deu Fluminense 3 a 2, gols de Edward Calvert (o primeiro homem a marcar num Fla-Flu), James Calvert e Bartholomeu para a equipe da casa, e Arnaldo e Píndaro, dois ex-jogadores do Fluminense, para o time rubro-negro.
Bom, o tempo passou, vivemos duas Guerras Mundiais, o homem pisou na Lua, chegamos ao anos 2000 e ao século 21. Eis que é chegada a hora do centenário do Fla-Flu. A CBF organiza a tabela para colocar o jogo justamente no final de semana do centenário. E embora não tivéssemos o Maracanã para celebrar mais um capítulo desta história, o calendário, como sempre, foi parceiro e o dia 7 de julho de 2012 caiu em um sábado.
Dia ideal para uma grande festa em torno do Fla-Flu. Imagine só: jogar a partida justamente no mesmo dia de um século atrás. Jogo à tade, bailes à noite em cada um dos clubes ou em conjunto, a Cidade Maravilhosa colorida no sábado e com as cores do vencedxor no domingo. Seria lindo. Tudo, mas tudo mesmo para um grande espetáculo.
Menos, é claro, o interesse cruzado. No sábado, a Globo já tem sua grade fechada, com Luciano Huck e outras bossas dos tempos modernos. Espaço para a tradição? Nem pensar. E aí... Bem, aí o Fla-Flu do centenário é jogado no domingo, 100 anos e um dia depois da disputa.
Claro que vai ter gente dizendo que domingo era melhor, que a data favorecia, que é o dia do futebol, que assim fica mais fácil, blá-blá-blá.
Nada disso, meus caros.
O jogo foi domingo por que a dona do futebol, a Rede Globo de Televisão, determinou. Dane-se a oportunidade de fazer o jogo no dia certo. Dia certo é o dia da Globo, que está acima de tudo quando se trata de esporte.
Basta ver um outro epísódio, ocorrido sábado.
Em Las Vegas, na "luta do século" (tolo eufemismo para se promover uma porradaria), Anderson Silva iria enfrentar Chael Sonnen, na revanche de uma luta de dois anos atrás, ocasião em que o americano martelou o brasileiro, mas perdeu e saiu falando um absurdo.
A Globo, agora a dona do MMA, anunciou a transmissão ao vivo, logo depois do Altas Horas. Muita gente acreditou. Esperava-se que, desta vez, a coisa fosse a sério. Para quem não lembra, na luta do Júnior Cigano, a Globo fez o mesmo, anunciou a batalha ao vivo, mas quando abriu a transmissão, a luta já havia acabado e o Twitter e o Facebook fizeram a festa, sacaneando a Toda-Poderosa do Jardim Botânico. Foi um mico, uma desmoralização pelas redes sociais. 
Porém, no sábado passado, constatou-se que não houve nenhum constrangimento para a Globo no episódio anterior, já que ela o repetiu sem um pingo de culpa, remorso ou demonstração de respeito ao telespectador, o que é ainda pior. No momento exato que Anderson Silva e Chael Sonnen, um bobalhão completo e ruim de briga, pisaram o ringue, a Globo ainda exibia os últimos suspiros do Serginho Groisman. Quando acabou o primeiro assalto, entrou a cara do Galvão Bueno falando em "ao vivo" (uma calhordice sem tamanho). E quando começou o segundo assalto, a Globo estava apenas na apresentação.
Resultado: o Anderson Silva massacrou o babacão americano, que falou mal do Brasil, do rival e da mulher dele. E a Globo lá, transmitindo a preliminar. A luta principal só foi para a tela perto de 2h da manhã. Naquele momento, em Las Vegas, o Anderson Silva já estava longe do local da disputa, curtindo como é bom surrar um idiota falastrão e sem noção.
As redes sociais bateram duro na demonstração de descaso com o público. Aqui do lado, você confere duas das mais bem-humoradas sacanagens que rolaram no Facebook enquanto o Galvão Bueno ainda nem tinha começado a narrar a luta, mas inistia na pilantragem do "voltamos ao vivo", referindo-se a ele mesmo, mas dando a entender ao coitado que ainda acredita na Rede Globo que não seria um VT. Mas foi. E dos mais sem-vergonhas.
Há muito tempo eu não via um final de semana tão constrangedor para o esporte nacional.
Graças à Vênus Platinada...

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