Falo de uma das minhas grandes paixões, musa e inspiradora de grandes noites. Falo da minha Copacabana.
Não me lembro da primeira vez em que pisei nas suas areias, ainda criança. A memória só aparece quando lembro das noites em que meus pais deixavam eu e a Vera na casa da Vó Dindinha, na Rua Nossa Senhora de Copacabana, 6, em cima do Banco Boavista, marcante por causa do relógio de ponteiros. Lembro também das papelarias da Princesa Isabel, onde havia um posto de gasolina daqueles com carrinho de plástico e lava-jato, que pedi a meu primo Paulo, na época modelo publicitário. Nunca esqueci da bronca que tomei, pois o Paulo, hoje quase um setentão, me deu o presente.
Sem saber, ali começava o amor por Copa. Aumentado, claro, pela comida da Vó Dindinha. Nunca mais comi um feijão preto com aquele gosto, acompanhado de macarrão pescado com a colher de plástico verde. O sabor se perdeu para sempre. Uma pena.
Mas o sabor de Copacabana eu não havia experimentado ainda.
Confesso que, como morador da Ilha do Governador, com a praia (mesmo se transformando em um imenso penico) em frente de casa, não queria me mudar para lá no final da adolescência. Temia perder meus amigos e Copacabana me dava medo. Não queria morar lá de jeito nenhum.
Fui na marra, depois que minha mãe descobriu que, certa noite, eu fugi com os colegas para encontrar as meninas do time de vôlei junior do Sogipa, no Baixo Leblon. Ali decretei a troca da Ilha por Copacabana.
Confesso que saí puto. Me lembro do Fiat 147 verde cruzando a ponte velha da Ilha, em meados de 1983, deixando para trás 17 anos de vida. Não queria ir.
Mas minha mãe era, à época, uma pessoa bem malandra, no bom sentido. Sabia o que estava fazendo. Chegamos em Copa, no apartamento que iríamos morar na Princesa Isabel, e ela me chamou para almoçar na Taberna Atlântica, na praia, restaurante que resiste até hoje no lugar, como muitos do bairro.
Passo a passo, em direção à praia, eu ia descortinando uma paisagem que jamais saiu da cabeça. O céu azul juntando-se ao mar verde e à areia branca, decorada pelo calçadão de pedras portuguesas... Aos poucos fui achando tudo aquilo lindo. Para completar, em frente ao Méridien (hoje Windsor), a tentação de todas. Uma coroa, daquelas que só Copacabana tem, me secou de alto a baixo. Carne fresca, um garoto de 18 anos magro e atlético (sim, já fui)... Era o que eu precisava. Afinal, sempre gostei de mulheres mais velhas. Andreia foi a exceção, pois sabia que ela seria coroa ao meu lado.
Ali, naquele instante, vi que Copacabana tinha vindo para ficar. Ilha? Nunca mais.
Aos poucos, fui dominando meu território. Primeiro, a esquina Barata com PJ. Pertinho de casa. Fiz ali novos amigos. Gente simples, doutores. Arnaldo Provenzano, jornaleiro bigodudo que passava a régua na mulherada. Carlinhos, tremendo malandro e comedor das moçoilas, outro bigodudo, vendedor de roupas na Casa José Silva quando apertava. O pessoal do Cervantes (Chucho, Ferreti, Paulinho, Bigode...). A galera do Friolândia e do galeto. Passei a vadiar horas alí, para desespero da minha mãe. Nada demais. Apenas papo de futebol, de praia, de noite. Eu era zero álcool e zero drogas.
Curtia bate ruma pelada, madrugada de domingo para segunda, com a galera. Acordava 3h40, colocava a roupa, pegava meu carro (um Chevette ou um TL 71 azul calcinha, pois eu era pobre), lotava de garçons, da galera e batíamos bola até umas 7 da matina. Depois, todo mundo ia para casa dormir.
Eu, se estivesse empregado, ia trabalhar. Comecei trabalhando ali, ao lado de casa, na Hertz da Princesa Isabel. Progredi rápido, pois falava inglês. Depois, rumei para a locadora de um italiano grosso, na PJ, chamada Royal Car. Bons tempos, boas gorjetas.
Conheci malandros históricos, cafetões, putas. Não era muito farrista, mas curtia aquele ambiente. Era como estar dentro de um grande puteiro a céu aberto. Copa era isso, dia e noite. Putas, travestis, cafetões, histórias de amor e ódio e uma paisagem incrível.
Depois de uns três anos ali, a vida me tirou de Copa. Andei como um caracol, casa às costas, pelo Rio. Voltei à Ilha, morei duas vezes em Botafogo, casei e fui para a Glória, separei e fui para a Gávea, mas Copa, posto 2, era o meu lar. Sempre que podia, parava lá.
Já não jogava mais a pelada da madrugada, mas fiquei imortalizado na galera. Pergunte ao Paulinho, até hoje garçom no Cervantes (na época, ele era copeiro), quem é o Falhol... Sou eu... Tudo por culpa de um jogo contra os argentinos que eram donos da Pussycat, no Lido. Metemos 10 a 1 no time deles. Mas o 1 foi um frangaço. Um chute do meio da rua, que eu aceitei. O povo dizia, de sacanagem, que eu tomei um gol de uma bola chutada do M da Manchete (a gente batia bola no campão do Aterro, de terra batida à época). Como o Fillol era goleiro do Flamengo e tomava um gol de cobertura atrás do outro (Geovani que o diga), o apelido pegou. Ninguém lembra da defesa que eu fiz no jogo contra o Caneco 70, quando busquei uma bola no ângulo aos 42 do segundo tempo, garantindo nossa vitória por 3 a 2 e rachando os cornos na trave, na queda. Vida de goleiro é foda...
Mas eu adoro ser o Falhol e ter a minha história de Copacabana para contar. Voltei a morar no bairro no começo dos anos 90, na Barata, em frente à Rua Inhangá. Dali só saí para casar com a Andreia. E nunca mais voltar a morar ali.
Mas minha história com Copa é eterna.
Um grande amor não morre.
É inevitável, quando estou no Rio, dar uma passada por lá.
Para comer um sanduba no Cervantes e tomar um chope, lembrando das histórias do Falhol.
Para me hospedar no Pestana, na minha opinião o melhor hotel da orla.
Para passar o réveillon na praia de Copacabana, ao lado de milhões de pessoas, prometendo mil coisas, mas continuando a ser apenas eu.
Para programar sempre, mas nunca comer, uma moqueca na Marisqueira, que fica no térreo do prédio vizinho ao que morei na Barata com Inhangá, local onde ensinei a Andreia a comer bacalhau, já que o da casa dela era uma bosta, e hoje ela cozinha um bacalhau que é um sonho, além de amar a iguaria.
Para ir na casa da Soraya, ao lado do Metrô (não tinha na minha época) e falar com seu Jacó, vascaíno, surdo e um amor de pessoa.
Para conhecer novos bares, como o Adão, que está na lista.
Para visitar os antigos.
Para me recordar dos erros nas noites, e nunca esquecer que por ali eu também me envederei nas drogas e numa certa boemia-putanheira que nada me beneficou, em algumas épocas hoje longínquas da minha vida.
Para me recordar dos erros nas noites, e nunca esquecer que por ali eu também me envederei nas drogas e numa certa boemia-putanheira que nada me beneficou, em algumas épocas hoje longínquas da minha vida.
Para ir no Shirley comer lagosta e me esquecer sempre que lá, só cheque ou dinheiro.
Para lembrar da reportagem que escrevi no centenário do bairro. E me assustar: já se passaram 20 anos...
Para passar pela Figueiredo Magalhães e me lembrar da Márcia, minha dentista, figura louca e animada, que obturava meus dentes ao som de Carly Simon, o que provocou uma crise de ciúmes na Andreia, que queria bater nela com a tranca do carro. Depois, vejam só, viraram amigonas.
Para contar à minha mulher e às minhas filhas que era sensacional viver em Copa (Andreia, garota do Leblon, tinha horror de lá), que a minha época naquelas ruas foi excepcional, mas que Copa era muito mais que isso, era a terra do Beco das Garrafas, dos grandes momentos musicais e da carreira de muitos artistas, cantores, compositores...
Essas coisas, só Copa faz por você.
Saudade do meu amor nos seus 120 anos.
Canta aí, Dick... Maltrata o meu coração saudoso.
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