quarta-feira, 18 de julho de 2012

Será que agora vai?

Pela milésima vez, começa um plano de salvação do America (sem acento), tradicional clube da Zona Norte do Rio, campeão carioca em 1913, 1916, 1922, 1928, 1931, 1935 e 1960 e campeão dos campeões de 1982. A iniciativa, desta vez, veio por parte do prefeito do Rio, Eduardo Paes, um vascaíno que vem abusando do direito de fazer campanha irregular, pois já tirou casquinha na apresentação de Seedorf no Botafogo e agora tenta conseguir alguns votinhos junto aos americanos que ainda restam. Mas graças a ele, e ao tombamento do imóvel da Rua Campos Salles, evitou-se o leilão da sede do clube, que sumiu aos poucos da vida carioca. Um clube que era o segundo time de todo mundo e foi virando pó após sucessivas e desastradas más administrações e à canalhice de outros clubes.
O Ameriquinha merecia sorte melhor. Segundo clube de todo carioca, por seus campos passaram craques como Marcos Carneiro de Mendonça (primeiro goleiro da seleção, famoso intelectual e historiador e pai de Barbara Heliodora), Floriano (o Marechal das Vitórias), Belfort Duarte (o disciplinado zagueiro que deu nome a prêmio), Canário (magnífico ponteiro direito, que trocou o Mequinha para ser membro da esquadra de Di Stéfano no Real Madrid) e o brilhante zagueiro Djalma Dias (pai de Djalminha). Por lá jogaram os selecionáveis Edu (irmão de Zico), Gilberto (ex-Cruzeiro, Flamengo e Vasco) e Jorginho (lateral campeão do Mundo em 1974), além de bons jogadores como Elói (o ET), Orlando Lelé, Geraldo, Alex, Luizinho Lemos e Flecha. Sem esquecer que foi lá que Zagalo deu seus primeiros chutes numa bola.
Muita gente maltratou este clube de 108 anos. A começar por vários ex-dirigentes, que o transformaram em uma sede social apenas, vendendo o Estádio Wolney Braune para um shopping e ganhando um campo em Edson Passos, na Baixada Fluminense, lugar sem a menor empatia com o clube. E olha que o cativante America ainda fez uma torcidinha pela vizinhança.
Mas ninguém mais maltratou o America que o Clube dos Treze. Pouca gente lembra o que ocorreu em 1987, ano da badalada Copa União. Mas eu vou refrescar sua memória. Em 86, com uma bela campanha, o America chegou em terceiro lugar no Brasileirão, depois de uma semifinal contra o São Paulo, campeão daquele ano. Natural que estivesse na Copa União. Mas foi alijado pelos outros grandes (Flamengo, Fluminense, Vasco, Botafogo, São Paulo, Palmeiras, Santos, Corinthians, Cruzeiro, Atlético-MG, Internacional, Grêmio e Bahia). Esta turma escolheu mais três times (Coritiba, Goiás e Santa Cruz) para jogar a Copa União de 1987, aquela que acabou em um rolo monumental, com cruzamento de módulos levando o Sport a ser o campeão brasileiro. Aos demais times (o Brasileiro de 1986 teve 80 clubes, um exagero que precisava ser contido) foi oferecida um módulo amarelo. Inclusive ao America, que se recusou a jogar um campeonato inferior após chegar a um passo da final no ano anterior.
A partir dali, o America foi morrendo. Até voltou à Série A em 88, mas teve campanha medíocre e foi rebaixado em campo. Mais: foi sacaneado no Rio, pela Federação, pelo famigerado Eduardo Viana, o Caixa D'Água. E suas administrações o fizeram virar time pequeno. Ao menos estava na primeira divisão carioca. Chegou a ter um certo brilho em 2006, quando decidiu a Taça Guanabara com o Botafogo (e foi garfado) e ao chegar à semifinal da Taça Rio. Em 2007, com duas semifinais, parecia que tinha voltado.
Só parecia.
Um ano depois, caiu para a segundona carioca. Subiu em 2009 com a ajuda de Romário, que diz ser torcedor do clube. O pai, seu Edevair, era. O Baixinho eu duvido. Torcedor ilustre do America eram Lamartine Babo, Heitor Villa-Lobos, Sobral Pinto, Tim Maia, Dona Ivone Lara, Monarco, Oscarito, Max Nunes, Leandro Hassum, Francisco Alves, Carlos Galhardo e João Cabral de Melo Neto. Esses e muitos outros.
Pois bem, Romário o devolveu à elite carioca. Ficou lá em 2010 e 2011. E caiu outra vez. E não vai subir este ano. Já foi eliminado na segundona carioca. Uma tristeza. Com sorte, sobe em 2013. E joga na primeira carioca em 2014, ano de Copa. Tomara.
Meu primeiro jogo em um estádio (o Maracanã)  foi um Vasco x America. O ano? 1974. O dia? Lembro: 4 de agosto, estreia dos times na Taça Guanabara. O America tinha um timaço: Rogério, Orlando, Alex, Geraldo (Mauro) e Álvaro; Ivo, Renato e Edu; Flecha, Luizinho Lemos e Gilson Nunes. Estava desfalcado de Bráulio, meia bom de bola.
O Vasco alinhou com Carlos Henrique, Fidélis, Miguel, Joel Santana e Alfinete; Alcir, Gaúcho e Ademir; Jorginho Carvoeiro (Bill), Roberto Dinamite e Luís Carlos. Era o time campeão brasileiro, sem Andrada, Moisés e Zanata. Talvez sem Paulo César Puruca, mas era ainda um time competitivo.
Sabe o que deu? 
America 4 a 1, gols de Luisinho (dois), Flecha e Gilson Nunes (vascaíno de coração, diga-se de passagem), com Roberto descontando. O time vermelho acabou conquistando a Taça Guanabara com nove vitórias, um empate e uma derrota. 
Nos recuperamos no carioca, devolvemos o 4 a 1 no terceiro turno, quatro meses depois, mas foi o America que tirou o título da mão da gente, ao empatar conosco no triangular final, por 2 a 2, suficiente para que o Flamengo ficasse na retranca e levasse o Carioca-74 com um 0 a 0.
Mas nunca esqueci da cena pós-jogo: eu e meu pai, com cara de poucos amigos, saindo do estado de bandeira enrolada e um senhorzão, de mais de 70, desfraldando a bandeira vermelha do America no maior orgulho. Naquele dia, aprendi a admirar e a gostar um pouquinho do America. Pena vê-lo desta maneira.

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