O Ameriquinha merecia sorte melhor. Segundo clube de todo carioca, por seus campos passaram craques como Marcos Carneiro de Mendonça (primeiro goleiro da seleção, famoso intelectual e historiador e pai de Barbara Heliodora), Floriano (o Marechal das Vitórias), Belfort Duarte (o disciplinado zagueiro que deu nome a prêmio), Canário (magnífico ponteiro direito, que trocou o Mequinha para ser membro da esquadra de Di Stéfano no Real Madrid) e o brilhante zagueiro Djalma Dias (pai de Djalminha). Por lá jogaram os selecionáveis Edu (irmão de Zico), Gilberto (ex-Cruzeiro, Flamengo e Vasco) e Jorginho (lateral campeão do Mundo em 1974), além de bons jogadores como Elói (o ET), Orlando Lelé, Geraldo, Alex, Luizinho Lemos e Flecha. Sem esquecer que foi lá que Zagalo deu seus primeiros chutes numa bola.
Muita gente maltratou este clube de 108 anos. A começar por vários ex-dirigentes, que o transformaram em uma sede social apenas, vendendo o Estádio Wolney Braune para um shopping e ganhando um campo em Edson Passos, na Baixada Fluminense, lugar sem a menor empatia com o clube. E olha que o cativante America ainda fez uma torcidinha pela vizinhança.
Mas ninguém mais maltratou o America que o Clube dos Treze. Pouca gente lembra o que ocorreu em 1987, ano da badalada Copa União. Mas eu vou refrescar sua memória. Em 86, com uma bela campanha, o America chegou em terceiro lugar no Brasileirão, depois de uma semifinal contra o São Paulo, campeão daquele ano. Natural que estivesse na Copa União. Mas foi alijado pelos outros grandes (Flamengo, Fluminense, Vasco, Botafogo, São Paulo, Palmeiras, Santos, Corinthians, Cruzeiro, Atlético-MG, Internacional, Grêmio e Bahia). Esta turma escolheu mais três times (Coritiba, Goiás e Santa Cruz) para jogar a Copa União de 1987, aquela que acabou em um rolo monumental, com cruzamento de módulos levando o Sport a ser o campeão brasileiro. Aos demais times (o Brasileiro de 1986 teve 80 clubes, um exagero que precisava ser contido) foi oferecida um módulo amarelo. Inclusive ao America, que se recusou a jogar um campeonato inferior após chegar a um passo da final no ano anterior.
A partir dali, o America foi morrendo. Até voltou à Série A em 88, mas teve campanha medíocre e foi rebaixado em campo. Mais: foi sacaneado no Rio, pela Federação, pelo famigerado Eduardo Viana, o Caixa D'Água. E suas administrações o fizeram virar time pequeno. Ao menos estava na primeira divisão carioca. Chegou a ter um certo brilho em 2006, quando decidiu a Taça Guanabara com o Botafogo (e foi garfado) e ao chegar à semifinal da Taça Rio. Em 2007, com duas semifinais, parecia que tinha voltado.
Só parecia.
Um ano depois, caiu para a segundona carioca. Subiu em 2009 com a ajuda de Romário, que diz ser torcedor do clube. O pai, seu Edevair, era. O Baixinho eu duvido. Torcedor ilustre do America eram Lamartine Babo, Heitor Villa-Lobos, Sobral Pinto, Tim Maia, Dona Ivone Lara, Monarco, Oscarito, Max Nunes, Leandro Hassum, Francisco Alves, Carlos Galhardo e João Cabral de Melo Neto. Esses e muitos outros.
Pois bem, Romário o devolveu à elite carioca. Ficou lá em 2010 e 2011. E caiu outra vez. E não vai subir este ano. Já foi eliminado na segundona carioca. Uma tristeza. Com sorte, sobe em 2013. E joga na primeira carioca em 2014, ano de Copa. Tomara.
Meu primeiro jogo em um estádio (o Maracanã) foi um Vasco x America. O ano? 1974. O dia? Lembro: 4 de agosto, estreia dos times na Taça Guanabara. O America tinha um timaço: Rogério, Orlando, Alex, Geraldo (Mauro) e Álvaro; Ivo, Renato e Edu; Flecha, Luizinho Lemos e Gilson Nunes. Estava desfalcado de Bráulio, meia bom de bola.O Vasco alinhou com Carlos Henrique, Fidélis, Miguel, Joel Santana e Alfinete; Alcir, Gaúcho e Ademir; Jorginho Carvoeiro (Bill), Roberto Dinamite e Luís Carlos. Era o time campeão brasileiro, sem Andrada, Moisés e Zanata. Talvez sem Paulo César Puruca, mas era ainda um time competitivo.
Sabe o que deu?
America 4 a 1, gols de Luisinho (dois), Flecha e Gilson Nunes (vascaíno de coração, diga-se de passagem), com Roberto descontando. O time vermelho acabou conquistando a Taça Guanabara com nove vitórias, um empate e uma derrota.
Nos recuperamos no carioca, devolvemos o 4 a 1 no terceiro turno, quatro meses depois, mas foi o America que tirou o título da mão da gente, ao empatar conosco no triangular final, por 2 a 2, suficiente para que o Flamengo ficasse na retranca e levasse o Carioca-74 com um 0 a 0.
Mas nunca esqueci da cena pós-jogo: eu e meu pai, com cara de poucos amigos, saindo do estado de bandeira enrolada e um senhorzão, de mais de 70, desfraldando a bandeira vermelha do America no maior orgulho. Naquele dia, aprendi a admirar e a gostar um pouquinho do America. Pena vê-lo desta maneira.
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